“The BFG” (2016)

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“The BFG” (2016), na versão portuguesa “O Amigo Gigante” é a nova aposta de animação de Steven Spileberg. O filme conta com argumento de Melissa Mathison, que já tinha trabalhado com Spielberg em “E.T. the Extra-Terrestrial”, e baseia-se no romance de Roald Dahl, com o mesmo título.

A história é simples, a pequena Sophie (Ruby Barnhill) é uma criança vivaça e curiosa que vive num orfanato e as suas persistentes insónias fazem com que uma noite ao espreitar pela janela ela descubra uma criatura gigantesca e assustadora. A criatura ao ser vista sente-se ameaçada e rapta a pequena Sophie, levando-a consigo para a Terra dos Gigantes. Chegados ao destino Sophie percebe que o gigante é uma alma bondosa e é constantemente aterrorizado pelos seus pares, por não se alimentar de carne humana como eles.

Para além disso o gigante tem outra particularidade, ele é um guardião de sonhos, sendo o responsável por os levar até às pessoas.

Sophie e o gigante travam uma amizade especial, mas a Terra dos Gigantes é de demasiado perigosa para a criança. Aliás os gigantes são um perigo constante para a humanidade com a sua fome de carne humana. Assim, Sophie e o seu amigo Gigante urdem um plano que envolve a rainha de Inglaterra e as suas forças militares para pôr fim à ameaça dos gigantes.

Uma aventura mágica, com a puerilidade de uma história do antigamente, mas com recurso à tecnologia mais actual, que transporta miúdos e graúdos para um mundo mágico e imaginado. Um sem fim de trocadilhos linguísticos deliciosos a que os livros de Dahl tão bem nos habituaram. Um filme familiar que vale bem a pena ver nestas férias!

[Amélie Poulain]

 

 

Não é um filme, mas podia ser

É sobre os heróis improváveis que se escrevem as melhores histórias. É nos momentos mais improváveis que nascem as epopeias mais célebres. “Podia ser um filme”, disse José Fonte, depois de se sagrar campeão europeu em Paris, no domingo. Podia, pois.

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Podia ser um filme de Steven Spielberg. Épico, glorioso, uma verdadeira carta de amor a uma nação. No campo de batalha nada se perdoa, tudo se destrói sem solução à vista. Os heróis, infelizmente, também tombam. E, quando as coisas começam a correr mal, os azares sucedem-se e ninguém parece capaz de os travar. Mas não se assustem, é um desafio apenas ao alcance dos melhores, capazes de carregar todo um povo aos ombros: os americanos portugueses.

Tinham um missão aparentemente impossível, fazendo lembrar aquela que o capitão Miller acatou em O Resgate do Soldado Ryan (1997). Neste caso era o resgate do título prometido que, há 12 anos, nos escapou por entre os dedos e seguiu na bagagem dos gregos. Difícil, mas não impossível. Tal como em Indiana Jones e o Templo Perdido (1984), podem arrancar-nos o coração e passeá-lo à nossa frente, mas jamais nos roubarão a alma.

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Também podia ser um thriller de Alfred Hitchcock, daqueles carregados de suspense, suor e lágrimas. Poderia jurar que, no domingo, a cada investida dos franceses na nossa direcção, se ouvia uma música ameaçadora. No contragolpe que se seguia, a nossa revolta entoava tão alto que levávamos as mãos à cabeça e roíamos as unhas. Medo, dirão alguns, mas as marcas que ainda hoje guardamos são apenas sinal da nossa coragem.

A fazer lembrar Os Pássaros (1963), tivemos uma nova praga, menos glamourosa, quiçá, de traças. E nós assistíamos a tudo de um’A Janela Indiscreta, analisando ao pormenor cada acção e não perdoando qualquer falha. Apontámos vilões e celebrámos heróis, desafiámos sonhar e subir tão alto que, agarrados ao topo, temíamos um desfecho hitchcockiano, ao jeito de A Mulher Que Viveu Duas Vezes (1958).

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Podia ser um argumento de Wes Anderson. Com uma dose de criatividade, duas de sonho e três de loucura. E cor, muita cor. Entre personagens inusitadas e momentos surreais, ao ritmo da magia que habita até os momentos mais banais, os underdogs vão conquistando a passos largos o território francês, rumo a Paris. Em fuga, qual Moonrise Kingdom (2012), com os críticos e descrentes sempre no nosso encalço, recordando-nos de como somos demasiado novos, demasiado inexperientes, demasiado tudo.

Talvez nesse momento Wes pegasse no telefone e ligasse a Adam Brooks. Afinal, ele sempre teve um fraquinho por finais felizes. Assim como em Wimbledon – Encontro Perfeito (2004), estávamos perante o jogo das nossas vidas, onde tudo se ganha ou tudo de se perde. Assim como em Para Sempre, Talvez… (2008), as certezas só se tornam eternas quando são postas em causa.

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Daniel Day-Lewis e Meryl Streep seriam os actores principais porque são capazes de interpretar qualquer personagem. Não seria fácil dar vida à história de Éder, um rapaz cujas desventuras apenas tornaram mais forte aquele remate certeiro à baliza, contrariando todas as probabilidades. Não seria fácil recriar Cristiano Ronaldo, um jogador tão único que, mesmo sem a bola nos pés, consegue decidir um jogo. Chorariam lágrimas tão autênticas como as suas?

E Fernando Santos? Há algum actor capaz de repetir as suas palavras com a mesma convicção?

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A vida, tal como o cinema, tem destas coisas. É difícil, podemos sair de coração partido, mas permanecemos colados ao ecrã na expectativa. Os palpites certeiros são tão falíveis como a postura num momento mais tenso. Os heróis nem sempre são premiados. Os vilões nem sempre são castigados. Não controlamos nada. E, nos momentos em que tudo começa a correr mal, podem crer que a tendência é para piorar ainda mais. Quem procura contas certas e desfechos rápidos e felizes não foi feito para uma sala de cinema… Nem para um jogo emotivo como o de domingo no Stade de France, em Paris.

Podia ser um filme? Sim. Talvez o seja realmente um dia, no futuro. E, quando as luzes se apagarem no cinema, sairemos com a certeza de que também nós fomos eternizados naquela tela. Se não houver filme, não se preocupem. Todos nós, portugueses, somos personagens deste filme (que ainda não o foi), pois o cinema é feito da mesma massa dos sonhos.

O Trailer

[Sophie Kowalsky]

Sessão Com a Presença do Realizador Manuel Mozos

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Na terça-feira da passada semana, dia 28 de Junho, esteve novamente em Tomar, a convite do CineClube de Tomar, o realizador Manuel Mozos, numa sessão em que foram exibidos três dos seus trabalhos.

“Cinzas e Brasas” (2015), uma curta de ficção filmada na aldeia dos Montes, concelho de Tomar, abriu as hostilidades e trouxe-nos uma história crua de uma vida marcada pelo alcançar de objectivos, pelo sucesso, que no fim não mais trouxe do que solidão, frieza e uma sobrevivência premente. É a história de Dulce, interpretada por Ana Ribeiro, na sua versão mais jovem e Isabel Ruth, na idade madura, uma escritora famosa para quem a vida foi um conquistar de metas, mas viveu esta mulher realmente, foi feliz? Não, e a Dulce madura é uma mulher marcada pela vida e solidão, a quem reaparece um homem do passado. E é entre cinzas e brasas que tudo culmina…

A segunda curta-metragem exibida, “A Glória de Fazer Cinema em Portugal” (2015), foi um projecto desenvolvido a convite para integrar o Festival de Curtas de Vila do Conde, o mote é que teria de estar relacionada com a localidade. A partir daí Manuel Mozos constrói uma história divertida e empolgante baseada numa carta real de José Régio, em que este demonstra o desejo de fazer experiências cinematográficas e expandir “a glória de fazer cinema em Portugal”. A carta é real, mas a investigação feita pelo realizador e pelos outros membros envolvidos na curta, incluindo alunos da Escola Superior de Música, Artes e Espectáculo do Porto, que colaboraram com o projecto, levou a um beco sem saída. Deste modo, estamos perante uma história de ficção, genialmente bem arquitectada. Destaque, ainda, para o trabalho desenvolvido em película, que deu um realismo à história que nos trouxe personagens e paisagens de outros tempos, consumando uma nostalgia pelo cinema de antanho.

Por fim, foi exibido “Ruínas” (2009) uma hora de pura inquietação, de uma beleza quase macabra. Escombros, ruínas, lugares fantasmas de norte a sul de Portugal. Um filme minimalista, de planos simples, etéreos, de tempo que estancou e não mais corre. O som de fundo é a natureza envolvente, os carros que passam ou o silêncio natural de onde nada existe, acompanhado pela narração do que marcou o local, dos menus dos restaurantes, dos quadros de pessoal de locais de trabalho, dos relatórios clínicos dos doentes de um sanatório. Um retrato simples, mas com uma força extraordinária, que não pretende de forma nenhuma ser saudosista ou derrotista, mas sim uma passagem pelo que foi, pelo que marcou e representou, sem preconceitos ou pesos excessivos.

No final, Manuel Mozos manifestou-se solicito e muito disponível para responder a questões dos espectadores presentes que se mostraram interessados e dinâmicos, dando origem a uma agradável conversa que permitiu saber mais sobre a história por detrás da história de cada um daqueles filmes.

“Now You See Me 2” (2016)

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Aquele momento em que chegas ao cinema para ver “qualquer coisa” e tens duas escolhas: um filme que já viste na semana anterior ou um filme cuja crítica é abaixo de fraquinha. A decisão recai no fraquinho, que pelo menos será novidade e foi assim que embarquei no mundo de “Now You See Me 2” (2016) de Jon M. Chu.

Este é uma sequela de “Now You See Me” de 2013 que devido ao seu sucesso de bilheteira colmatou nesta sequela, em que o ilusionismo e o combate ao crime andam de mãos dadas.

Em “Now You See Me 2” a equipa de ilusionistas conhecida como “Os Quatro Cavaleiros” tentam desmascarar o dono de uma multinacional ligada às novas tecnologias que tem o plano de através do seu novo e badalado gadget aceder a informação confidencial a nível global. A falta de confidencialidade dos dados dos cidadãos é exposta, mas a acção que os Cavaleiros prepararam para desmascarar esta trama não tem um final feliz e estes vêem-se raptados e forçados a trabalhar para um dos vilões da história.

A história dá voltas e reviravoltas, espia fantasmas do passado do líder dos Cavaleiros e dos vilões, explora crises pessoais de cada uma das personagens e põe à prova a lealdade de todos uns para com os outros, mas no final com muita ilusão á mistura o desfecho é positivo. Os Cavaleiros asseguram a privacidade dos cidadãos do mundo, expõe-lhes meandros que eles mal imaginavam e são aclamados ao estilo de um super-herói.

No fim penso em todas as péssimas críticas que li e das quais já mal me lembrava, pois obviamente que não estamos perante nenhum filme de culto, nenhuma película que fique para a história, mas sim perante um típico filme de verão, de entretenimento puro e neste caso parece-me que “Now You See Me 2” cumpre bem a sua função.

O elenco é de luxo e reúne no mesmo ecrã Mark Ruffalo, Daniel Radcliffe, Jesse Eisenberg, Michael Caine e Morgan Freeman, entre outros.

[Amélie Poulain]

“Axilas” (2016)

phpThumb“Axilas” é um filme de José Fonseca e Costa, que devido ao seu falecimento durante a rodagem o deixou inacabado. O argumento assenta numa adaptação muito livre de um conto de Rubem Fonseca, escritor brasileiro, e coube a Paulo Milhomens dar um fim à obra inacabada.

“Axilas” é  uma comédia absurda protagonizada pelo actor Pedro Lacerda, que deu corpo ao caricato Lázaro de Jesus, um personagem particular, vetado a uma vida de abandono à porta do orfanato e posterior adopção por uma avó beata convicta à moda antiga.

O filme começa com a morte da avó e respectivo funeral e testamento que deixou o neto adoptivo sem nada e este é o ponto de partida para conhecermos toda a história rocambolesca de Álvaro até ao momento da morte da sua avó e o que sucederia posteriormente, com avanços e recuos da linha temporal.

Lázaro sofreu uma educação católica castradora, tendo o seu escape na poesia e nas idas ao café com os seus amigos castiços, mas a sua libertação completa ocorre no dia em que ele desvenda um dos segredos mais bem escondidos da casa onde vive: o escritório do avó, sempre religiosamente trancado, pois guardava o mais bizarro dos segredos, o seu avó era um maníaco com uma obsessão por axilas. A partir deste momento esta obsessão toma conta também da vida de Álvaro e o desfecho desta história é abrupto e inesperado.

Um filme provocador e com recurso a algumas piadas fáceis, como a crítica exagerada a um catolicismo exacerbado que já é difícil de encontrar no Portugal do séc. XXI, mas que ainda assim nos traz algumas gargalhadas instigantes e uma reflexão sobre os limites da dita normalidade.

Helena, esta não é uma carta de amor. Mas podia ser.

I’m the kind of actor who has ventured into escaping from me.

 

Não demoramos muito a encontrar, em qualquer pesquisa relacionada com Helena Bonham Carter, a palavra excêntrica, esteja ela relacionada com as suas personagens ou com a sua imagem. A actriz, que celebrou no dia 26 de Maio meio século de vida, tem uma vasta carreira no cinema, mas continua a ser vista, por muitos, como a figura tresloucada que, a espaços, surge nos filmes de Tim Burton – e não só.

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No Brasil, o escritor Manoel Carlos tinha uma Helena em todas as suas novelas. Em Tróia, também uma Helena foi nome de tragédia. Eu tenho uma Helena no meu cinema. Helena Bonham Carter é a representação de tudo o que, teoricamente, deverá ser um actor/actriz completo/a: versátil, autêntica, profissional e consistente. E de qualquer classe. Da realeza à população pobre, com muita dose de loucura pelo meio, foram muitas as personagens que ganharam vida no corpo e na voz de Helena.

São mais de 30 anos de carreira, ainda que para a minha geração [na casa dos 20-30] seja mais fácil lembrar os filmes dos últimos 15 anos, uma fase claramente influenciada pelo ex-companheiro Tim Burton. Da versatilidade extenuante de O Grande Peixe (2001) à terrível Rainha Vermelha de Alice no País das Maravilhas (2010), passando pela peculiar Mrs. Lovett de Sweeney Todd: O Terrível Barbeiro de Fleet Street (2007), foram oito as colaborações entre Burton e Helena. Nove, se contarmos que Burton é produtor do recente Alice do Outro Lado do Espelho (2016). O casal, entretanto separado, partilhou uma vida em comum e as telas de cinema, criando uma relação artística que nos leva a, muitas vezes, não conseguir separar a carreira de um da do outro.

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A identidade extravagante que habita o universo das personagens de Helena é, muitas vezes, confundida com a da própria actriz. Estranhamos quando fica sossegada a um canto da sala, sem acessos de loucura ou ataques de fúria. Quase nem a reconhecemos quando surge num papel mais sério, esperando por uma reviravolta inesperada onde ela se revela o Anticristo ou simplesmente uma maníaca que desata a assassinar todos os que a rodeiam.

Por seu lado, as personagens marcadamente caricaturais de Helena não se resumem ao universo de Burton. Facilmente nos lembramos da sua participação em filmes como Os Miseráveis (2012) ou a saga de Harry Potter, onde viveu a inesquecível Bellatrix – odiada nos livros, mas adorada no cinema graças à prestação de Helena. Curiosamente, a actriz esteve quase a recusar o papel por julgar que se tratava de uma participação curta. Foi a própria J.K. Rowling a convencê-la, prometendo um maior destaque na recta final. E cumpriu.

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Quer seja devido às personagens mais emblemáticas e populares da sua carreira, quer pelo seu estilo característico nas passadeiras vermelhas por esse mundo fora, parece missão impossível desligar Helena Bonham Carter da sua imagem. Ou, a bem da verdade, da imagem que foi criada e mediatizada à sua volta. Com um estilo muito próprio, a actriz sempre deu nas vistas na diferentes cerimónias, o que, a juntar às suas personagens peculiares, levou a que a sua personalidade ganhasse tonalidades de excentricidade e, em contrapartida, de uma figura reservada.

No meio de tudo isto, quem é Helena Bonham Carter? Descendente de uma família com história em Inglaterra, Helena caminhou pelos seus próprios pés uma rota que tinha tudo para ser de sucesso. Desde os anúncios televisivos aos lucros na bilheteira, são mais de três décadas com muitas curiosidades, factos menos conhecidos e papéis inesquecíveis para assinalar. Quantas vezes já tiveram de nomear, de cabeça, personagens mais sérias da actriz para justificar uma argumentação? Quantas pessoas tentaram convencer a assistirem ao filme O Discurso do Rei (2010) ou As Sufragistas (2015)? Ou será que, pelo contrário, és uma das pessoas que nós tentamos convencer?

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Helena do outro lado do espelho: a rejeição de Cambridge

Aos 16 anos participou num anúncio televisivo. Em 1983 entrou em A Pattern of Roses (1983), um filme para televisão, e depois em Quarto com Vista Sobre a Cidade (1985). Os primeiros elogios mais rasgados chegariam com Rainha por Nove Dias (1986), a estreia em filmes “reais”. Quatro anos depois seria Ofélia, em Hamlet (1990), sendo que teria a sua primeira e única colaboração com Woody Allen ainda nessa década, em Poderosa Afrodite (1995). Estava destinada a ser musa de um realizador, sim, mas essa sorte calharia a Tim Burton. Entre estas datas são várias as obras, quer no cinema quer na televisão, no currículo de Helena. Hoje totalizam, segundo o IMDb, 88 créditos.

Não obstante, a vida de Helena Bonham Carter – e, por consequência, a nossa – poderia ter sido bem diferente. A actriz foi rejeitada pelo King’s College, da Universidade de Cambridge, por motivos nada relacionados com as suas notas. Os responsáveis tinham receio que Helena abandonasse as aulas repentinamente para seguir uma carreira na representação. Na sequência da nega, a então jovem Helena decidiu concentrar-se exclusivamente na representação. Penso que as palavras de que estão à procura são obrigado, Cambridge.

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Mea culpa, descobri-a demasiado tarde, em Clube de Combate (1999), há uns seis anos atrás. De qualquer forma, foi “amor” à primeira vista. A sua Marla Singer, a personagem feminina mais forte do filme de David Fincher, é uma das personagens mais cruas, profundas e alucinantes que me lembro de encontrar num filme [e não fui a única, até porque temos alguém no blog Última Sessão que adoptou esse nome]. Os traços de loucura, que a actriz ainda hoje interpreta tão bem e de formas tão diferentes, já estavam lá; o discurso fluía com o talento e naturalidade de quem recriara obras de grandes autores, como Shakespeare, e sabe o poder das palavras.

Depois dos filmes da “praxe”, fiquei fascinada com Relações Imorais (2005), onde, com Aaron Eckhart, fez, talvez, o seu filme mais teatral até hoje, quase totalmente apoiado nos diálogos entre as personagens. É nestas personagens mais serenas que encontramos uma Helena diferente e percebemos que, por detrás da exuberância das suas personagens, existe uma actriz capaz de se desligar de tudo e de nos desligar de tudo. Tanto mergulhamos na dureza das suas palavras como, no filme seguinte, viajamos com ela para locais tão mágicos quanto aqueles a que Tim Burton nos habituou. E, longe das personagens desprovidas de valores e limites, encontramos personagens como Edith de As Sufragistas (2015), que nos questionam até onde iríamos em defesa daquilo em que acreditamos.

As nomeações para os Óscares

A primeira nomeação para um Óscar chegaria 13 anos depois da sua estreia em cinema, já Helena tinha 31 anos. Em 1998, a actriz foi distinguida pela sua magnífica prestação em As helena_bonham_carter_1998_03_23Asas do Amor (1997), participando numa disputa que se anunciava perdida desde início. Numa cerimónia dominada por Titanic (1997), Helena
competiu na categoria de melhor actriz principal, mas a premiada seria Helen Hunt, Melhor é Impossível (1997). Entre os nomeados estava a também britânica Kate Winslet, então nomeada pela segunda vez, e que actualmente conta sete nomeações e uma estatueta.

Pouco depois começaria uma nova fase na carreira de Helena. Na viragem do século, e antecipado por Clube de Combate (1999), a actiz optaria por outro tipo de papéis, sendo que a primeira colaboração com Tim Burton teria lugar pouco tempo depois, em Planeta dos Macacos (2001). Desde então há uma grande carga cómica nos filmes com mais sucesso em que participou, pelo que a sua carreira quase pode ser “partida” em duas sucessões de 15 anos bem diferentes. O talento, esse, é o de sempre, mas ainda está por coroar.

Em 2011, Helena voltaria a marcar presença nos Óscares entre os nomeados, no mesmo ano em que se estreou como Rainha Vermelha. Embora O Discurso do Rei (2010) tenha saído vencedor em quatro das principais categorias (melhor filme, melhor realizador, melhor actor principal e melhor argumento original), Helena e Geoffrey Rush, nomeados nas categorias secundárias de interpretação, acabaram por ir para casa de mãos a abanar. Na categoria de melhor actriz secundária, a vencedora seria Melissa Leo, The Fighter – O Último Round (2010). Quase poderíamos apelidar esta falta de sorte de “A Maldição de Tim Burton”: nem o realizador, nem os seus dois actores de eleição (Helena e Johnny Depp) conseguiram, até hoje, sair vitoriosos do Kodak Theatre.

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Uma nova Helena, o talento de sempre

15 anos depois da sua primeira colaboração com Tim Burton, a carreira de Helena parece ter chegado a uma nova encruzilhada. É certo que poderá voltar a trabalhar com o realizador, mas isso dificilmente acontecerá ao ritmo a que estávamos habituados. Como tal, estamos perante uma dupla encruzilhada: Helena terá tendência para se afastar da imagem perpectuada ao longo dos últimos anos, por um lado, e os 50 anos podem já pesar na hora do casting. Quando há actrizes na casa dos 30 que se queixam disso, o que acontecerá a actrizes como Helena?

O IMDb, a biblía do costume, não revela muito sobre o que podemos esperar da actriz. Este ano poderemos vê-la na minissérie Love, Nina (2016) e encontra-se a filmar 55 Steps, ainda sem data de estreia, onde conta com uma equipa de peso – Hilary Swank e Jeffrey Tambor, por exemplo, estão no elenco. Depois disso é uma incógnita. No entanto, quantas actrizes de 50 anos (ou mais) estão no activo e a participar em grandes filmes de forma recorrente? Será que uma actriz do calibre de Helena resistirá ao sistema?

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Em 2009, o The Times colocou-a entre as 10 melhores actrizes britânicas de sempre. Fez história ao tornar-se a primeira mulher a participar em dois filmes com resultados acima dos mil milhões de dólares – Alice no País das Maravilhas (2010) e Harry Potter e os Talismãs da Morte, Parte 2 (2011) -, sendo a quinta profissional a consegui-lo. Já em 2012 seria distinguida como Commander of the Order of the British Empire, pela sua carreira dramática.

 

[Sophie Kowalsky]

8 1/2 Festa do Cinema Italiano_Extensão Tomar

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Tal como prometido aqui está o resumo do que se passou na extensão tomarense da Festa do Cinema Italiano, que decorreu no último fim-de-semana. Foi um fim-de-semana prolongado, devido ao feriado do 10 de Junho, e que numa excelente iniciativa do CineClube de Tomar trouxe à cidade muitos e bons filmes.

Esta Festa decorreu de 9 a 10 de Junho e contou com matinés e sessões nocturnas variadas, no Cine-Teatro Paraíso.

A 9 de Junho a abertura do festival, a qual tive o prazer de assistir, deu-se com “Lo Chiamavano Jeeg Robot” (2015) de Gabriele Mainetti, um filme do universo fantástico que deve o seu nome a uma série anime chamada Jeeg Robot e no filme encontramos várias referências à mesma. É um filme que entra num universo fantástico, recheado de acção, um filme de super-heróis mafiosos, num caminho de redenção e auto-conhecimento.

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No dia 10 tiveram lugar duas sessões: uma às 15h30, dedicada aos mais pequenos, com “Pinóquio” (2012) de Enzo D’Alò e à noite a máfia voltou a tomar conta do ecrã com “Almas Negras” (2014) de Francesco Munzi. Estive novamente presente nesta sessão da noite e desfrutei de um filme bastante negro e com uma carga emocional bastante pesada, mas que marcou pela surpresa. Um filme bastante premiado nos diferentes festivais onde se apresentou e que faz um retrato cru de uma típica família mafiosa italiana, com as suas alegrias, conquistas, percalços. A união e divisão de um núcleo familiar, quando as motivações dos seus membros não convergem.

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Por fim, o dia 11 de Junho brindou os tomarenses com mais duas sessões, às quais não me foi possível assistir com grande pena minha. Às 15h30 “Le Cose Belle” (2014) de Agostino Ferrente e o intemporal “Oito e Meio” (1963) de Federico Fellini.

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Foi um fim-de-semana rico no que à arte do cinema diz respeito e só foi pena não ter visto mais afluência por parte dos tomarenses a esta iniciativa de excelência.

[Amélie Poulain]

VENCEDORES – Ganha convites duplos para a antestreia do filme “Ele + Ela”

Queres assistir ao filme “Ele + Ela”, a nova comédia romântica francesa protagonizada por Jean Dujardin? A Última Sessão oferece, em parceria com a NOS Audiovisuais, convites duplos para a antestreia de 8 de Junho, em Lisboa e no Porto (21h30).

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Para participar, apenas precisam de escrever uma frase criativa sobre “Qual a banda sonora que mais se adequa à tua vida amorosa (e porquê)?”. Os autores das frases mais criativas, avaliadas pela equipa da Última Sessão, recebem um convite duplo para a antestreia na cidade que escolherem (Lisboa ou Porto).

Serão oferecidos 10 convites duplos por cidade às frases mais criativas. A participação deve ser feita através do formulário abaixo, até dia 4 de Junho. Os vencedores serão anunciados no dia 5 de Junho, no blog e Facebook da Última Sessão, e contactados por e-mail.

Só serão consideradas as participações que preencherem de forma válida todos os campos do formulário e que tenham feito “Gosto” no Facebook da Última Sessão.

 

VENCEDORES

LISBOA
Anabela Saraiva Rodrigues
Carlos Durão Antunes
Cláudia Valentim Vaz
Cristina Martins Serras
Inês Teixeira
Joana Isabel Lopes
José Carlos Matos
Nuno Filipe Tavares
Patricia Vaz Pinto
Sandra Margarida Costa

PORTO
Adriana Vico Vaz
Antonio Alexandre Borges
Ariana Inês Nunes
Cláudia Oliveira Soares
Joana Patrícia Dias
Margarida Andrade
Orquidea Pires
Pedro Miguel Castro
Sónia Maria Pinto
Vitor Manuel Alves

*Post actualizado a 6 de Junho com o nome dos vencedores. O post original, com o formulário de participação do passatempo, foi publicado a 27 de Maio. 

 

SINOPSE DO FILME:

Filmada na Índia, a comédia romântica francesa “Ele+Ela”, com Jean Dujardin (Óscar de Melhor Actor em “O Artista” – 2011) e Elsa Zylberstein, nomeada para Melhor Actriz nos Prémios Lumiere 2016, chega a Portugal a 9 de Junho.

O encantador e bem-sucedido Antoine (Jean Dujardin), compositor de bandas sonoras, viaja para a Índia para trabalhar numa versão muito original do filme Romeu e Julieta quando se cruza com Anna (Elsa Zylberstein), a embaixatriz francesa daquele país, e por quem se sente irresistivelmente atraído apesar das muitas diferenças que os separam.

As imagens de uma Índia colorida e fascinante, aliadas a uma banda sonora impressionante, conduzem os protagonistas de “Ele+Ela” numa viagem espiritual. No filme, Antoine e Anna viajam até ao sul da Índia ao encontro da humanista Mata Amritanandamayi (Amma), conhecida como “A Santa dos Abraços” mas viajam, sobretudo, ao encontro deles próprios.

“Ele+Ela” foi realizado e escrito pelo francês Claude Lelouch (Óscar® de Melhor Argumento com “Um Homem e Uma Mulher” – 1966) e conta ainda com a participação de Cristopher Lambert (“Salve, César!”, 2016).

Notas sobre o passatempo:
a) O passatempo decorre até às 23h59 de dia 4 de Junho. Não serão consideradas participações enviadas após essa hora/dia.
b) Apenas é permitida uma participação por nome/e-mail.
c) Cada convite é válido para duas pessoas.
d) Os vencedores serão contactados por e-mail e os seus nomes divulgados no blog/Facebook da Última Sessão.
e) Os vencedores poderão levantar o seu convite duplo no próprio dia do filme, nos cinemas respectivos, indicando o passatempo Última Sessão.

 

Crítica: Alice do Outro Lado do Espelho (2016)

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O País das Maravilhas está de volta e, nesta sequela das aventuras de Alice, deixa por um fio a ligação aos dois livros originais de Lewis Carroll. As personagens de sempre estão lá (acompanhadas de novas criações, como o Tempo), assim como o universo visualmente impressionante e bizarro. Contudo, falta a magia linguística de Carroll tão essencial para compreender e baralhar este País das Maravilhas (e nem os trocadilhos sobre o Tempo proferidos pelo Chapeleiro Louco suprimem essa lacuna). À falta de enigmas de linguagem, o filme vive da ternura e reforça a abordagem feminista ao conto clássico – na continuação do seu antecessor assinado por Tim Burton (2010).

O enredo começa longe de Wonderland (ou Underland, segundo o filme de 2010), acompanhando as aventuras marítimas de Alice (Mia Wasikowska) no Oriente – numa continuação cronológica do filme “Alice no País das Maravilhas”. Capitã do barco do seu falecido pai, é a determinação de Alice que orienta a tripulação de marinheiros. Parece tarefa impossível para uma mulher daquele tempo, mas, parafraseando Alice, o filme não acredita em impossíveis, à boa maneira do País das Maravilhas.

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O cargo de capitã da embarcação é apenas mais uma das vénias do argumento à independência de Alice e à sua luta contra as convenções de género. Da roupa – um fato oriental com calças – usada num baile de época à “ousadia” de negociar termos da expedições com empresários, esta Alice dos filmes Disney afirma-se num mundo de homens e desafia limites, dispensando relações amorosas pelo caminho. Também por isso, não nos passou despercebida a alusão crítica do filme, numa cena passada num hospital, à “histeria feminina” – tão usada no século XIX como rótulo de doença para mulheres que, entre outros “sintomas”, não se comportavam nos moldes esperados pela sociedade.

O Tempo perguntou ao Tempo…

“Alice do Outro Lado do Espelho” marca o retorno da personagem principal ao País das Maravilhas. Perante as personagens familiares deste universo, cabe a Alice curar o Chapeleiro Louco (Johnny Depp) da tristeza que o afeta, motivada pelas saudades dos pais. Ou, quem sabe, dar-lhe razão quando o mesmo afirma que a família ainda está viva, tantos anos depois. Seja como for, Alice é confrontada com a necessidade de viajar ao passado com ajuda da Cronosfera, objeto que pode ser encontrado no palácio de Tempo (uma personagem também, interpretada por Sacha Baron Cohen.

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Baron Cohen encaixa, que nem uma luva, no mundo bizarro de “Alice do Outro Lado do Espelho”. Os seus maneirismos (verbais e físicos) são um dos pontos altos do filme, contrastando com a perturbadora falta de profundidade interpretativa de Depp (longe da prestação em “Alice no País das Maravilhas”). Contudo, não são suficientes para agarrar o filme sem o fio condutor dos livros de Lewis Carroll. Nesta sequela, assinada pelo realizador James Bobin (Tim Burton deixa a cadeira de realizador, mas continua ligado ao filme como produtor), o argumento afasta-se ainda mais da história original de Carroll. E, também por isso, a tempos espaçados parece não ter mão na sequência de acontecimentos que se sobrepõem a ritmo frenético.

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Tal como no primeiro filme, é nos efeitos visuais que “Alice do Outro Lado do Espelho” atinge o seu esplendor. As explosões de cores, as personagens fantásticas (admitimos, já tínhamos saudades de Helena Bonham Carter e da sua magnífica cabeçorra como Rainha Vermelha) e os cenários inusitadamente encantadores recriam, na 7ª Arte, todo o potencial visual do universo literário criado por Carroll. Renascido no ecrã do cinema, este ‘País’ está realmente repleto de maravilhas.

No entanto, o filme também prossegue os problemas do seu antecessor. Se há algo que marca, para a eternidade, a obra de Lewis Carroll é a forma como a linguagem é trabalhada ao longo da história de Alice. No País das Maravilhas, os diálogos entre personagens não têm sentido para o leitor (nem para Alice), criando uma (não-)lógica muito própria dentro daquele universo absurdo. Os constantes enigmas, numa piscadela de olho constante à linguagem matemática, convivem em paralelo com as personagens bizarras. Ora, nos filmes, não há uma continuidade destes artifícios de linguagem – os diálogos têm lógica e há sempre um sentido convencional para a narrativa. Perde-se em originalidade, ganha-se no mainstream.

Salva-nos a ternura, sempre a ternura. Entre o cliché dos pares amorosos cinematográficos, há algo de encantador na amizade entre Alice e o Chapeleiro. A cada despedida, ansiamos pelo regresso. Sabemos que Alice só se poderá concretizar, como mulher independente, fora do País das Maravilhas, mas torcemos por um regresso, mesmo que breve. E, por saber isso, voltaríamos a este universo mágico vezes sem conta, nem que fosse pelo deleite visual da experiência.

[Clementine]

“Twelve Monkeys” (1996)

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A Leopardo Filmes procura actualmente figurantes para uma produção de Paulo Branco, realizada por Terry Gilliam, cuja rodagem se fará, em parte, em Portugal, mais concretamente Tomar.

Entretanto em Cannes foram revelados alguns pormenores sobre esta produção intitulada “The Man Who Killed Don Quixote”, baseado na obra de Cervantes e que contará com Adam Driver e Olga Kurylenko no elenco.

E é a propósito do trabalho de Terry Gilliam que vos escrevo hoje e do seu alucinado “12 Macacos” (1996). Com Bruce Willis e Madeleine Stowe nos principais papéis estamos perante um filme de ficção científica que explora o estranho mundo das viagens no tempo.

A Humanidade foi dizimada por um vírus, um verdadeiro apocalipse, cujos únicos sobreviventes subsistem no subsolo, numa vida mecânica e regrada. Contudo, há uma hipótese de inverter este terrível presente, voltando ao passado e mexendo com ele e essa é a missão de James Cole (Bruce Willis). Ao “aterrar” no passado Cole começa a viver peripécias, a perceber como é a vida fora do subsolo, mas alguém que alega ter vindo do futuro rapidamente tem como fim a institucionalização num asilo psiquiátrico. Aí Cole conhece a psiquiatra Kathryn Railly (Madeleine Stowe) e Jeffrey Goines (Brad Pitt), um dos lunáticos internos que acaba por ter um papel de relevo no desenrolar da história.

Acontecimentos sucedem-se e o espectador vive a dúvida constante e a dualidade ténue entre loucura e sanidade. Alegadamente Cole tem de deter um grupo organizado intitulado Exercito dos 12 Macacos que teriam sido os responsáveis pela difusão do vírus. Mas a realidade é mais complexa do que parece e a vida é dramaticamente imutável, não havendo viagem no tempo que possa alterar os erros do passado.

Um filme com uma espiral frenética e reflexiva que recomendo vivamente aos amantes de filmes menos convencionais. Nota, ainda, para a prestação genial de Brad Pitt na pele de um alucinado, que lhe garantiu a nomeação ao Óscar de Melhor Actor Secundário.

[Amélie Poulain]