Crítica: “Capitão Falcão”

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“CHAMOU, SENHOR PRESIDENTE!?”

Eis que chegou hoje aos cinemas um dos filmes portugueses mais aguardados dos últimos tempos. Com o feriado de 25 de abril à porta, uma comédia situada no tempo do Estado Novo é o que se procura.

Realizado por João Leitão e com um elenco constituído por Gonçalo Waddington, João Pinto, David Chan Cordeiro, Dinarte de Freitas, Miguel Guilherme, Rui Mendes e Tiago Rodrigues, entre muitos outros, o filme prometeu trazer ao grande ecrã o primeiro super-herói português? Mas será ele a salvação ou uma desgraça?

Waddington interpreta o Capitão Falcão, um herói patriota que, aliado ao seu parceiro, Puto Perdiz, defende o Estado português das maiores ameaças, respondendo apenas a António de Oliveira Salazar.

Tendo sido pensado, primeiramente, como uma série de TV, o projecto foi recusado pela RTP, o que obrigou o realizador a tomar medidas e a converter a sua ideia para uma longa-metragem. E a verdade é que o filme acaba por ser… bastante bom.

Embora os aspectos técnicos tenham falhas, e o argumento não seja espectacular (com isto, não pretendo dizer que não satisfaz, pois seria mentira), o filme funciona extremamente bem como comédia satírica. O protagonista, Capitão Falcão, é considerado um herói, por mais que as suas características façam dele um vilão, nos dias de hoje. Os diálogos são absolutamente hilariantes e as personagens, embora nem todas sejam tão inovadoras como o protagonista, cumprem o seu propósito. Destaco que o filme tem momentos dignos de gargalhadas longas! O que é de destacar, também, é que o humor de “Capitão Falcão” é negro e os mais sensíveis (leia-se: sem sentido de humor) podem sentir-se ofendidos.

O filme funciona como uma sátira ao Estado Novo, mas também como uma crítica actual. Não toma partidos, pois nenhuma solução é extremista. Adoptando um visual muito baseado em banda-desenhada e desenhos animados de super-heróis, o filme é revela-se um verdadeiro triunfo, após as dificuldades passadas. E, embora os custos de produção fossem escassos (visivelmente), até isso é motivo de piada, no resultado final. Brilhante!

Se o que o espectador procura é divertir-se, “Capitão Falcão” não irá desapontar.

Nota: 7/10

◉ HAL 9000 ◉

O Capitão Falcão está a chegar

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João Leitão é o realizador desta sátira portuguesa que conta com Gonçalo Waddington no papel principal de Capitão Falcão. Era para ser uma série televisiva e passados mais dois anos, passou a ser o filme português mais aguardado da actualidade.

Capitão Falcão conta a história de um super-herói Português ao serviço do Estado Novo. Juntamente com o seu sidekick, Puto Perdiz (David Chan Cordeiro), Falcão combate todas as ameaças à Nação, respondendo a um homem apenas, António de Oliveira Salazar. Mas estranhos acontecimentos e uma ameaça democrática começam a invadir a capital. Conseguirá Capitão Falcão salvar o dia?

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Ripley

Violência e medo: «El Sicario, Room 164»

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O que é um sicário? O termo vem do latim sicarius (“homem da adaga”), o nome que os antigos romanos davam aos assassinos profissionais, os mercenários que matavam a troco de dinheiro, segundo a oferta mais alta. Quanto existia uma disputa política, não era raro um deles ser contratado para liquidar o adversário.

Parece uma história de outros tempos, mas a verdade é que o mundo, nos dias de hoje, convive muito bem com eles. Os ingénuos pensam que esta realidade está bem escondida e se mantém à distância, que só tem lugar no submundo do crime organizado. Contudo, ela está à vista de quase todos, em muitos dos países que classificamos como desenvolvidos ou em vias de. Muitas vezes, o rapto, a violência e a morte tornaram-se parte do quotidiano do cidadão comum. Quanto a nós, os cândidos (Voltaire fez a sátira perfeita sobre os crédulos que vivem enclausurados no seu castelo de optimismo), simplesmente preferimos ignorar o horror: como só detectamos, de forma directa, uma pequena parte da realidade objectiva, tendemos a vê-la como sendo representativa do todo. Um erro!

Talvez com isso em mente, o documentalista italiano Gianfranco Rosi, através da longa-metragem «El Sicario, Room 164» (2010), fez uma breve incursão até ao coração das trevas. No centro da história está um conhecido assassino profissional (no documentário surge sempre com a cara tapada), um sicário de Ciudad Juárez, no México, conhecido por ter morto centenas de pessoas, tanto ao serviço dos cartéis da droga como da própria polícia.

E o que faz um sicário? Qual a história deste “nosso” mercenário? Filmado dentro de um quarto de hotel, o mesmo em que estiveram presas muitas das suas vítimas, o assassino explica como se rapta, tortura e tira-se a vida a seres humanos. E em nome do quê, e para que fins, o faz? Como é que o tráfico de droga e o dinheiro se espalham além-fronteiras e corrompem? Mais: como consegue o assassino, ao fim de 20 anos, conviver com os crimes que cometeu? Para retratar tudo isto, recorre a um simples marcador negro e a um bloco de notas. Tão fácil como matar alguém.

Foi, porventura, a forma mais segura que Rosi encontrou para falar sobre o tema, sem acabar decapitado e exposto em praça pública, como já aconteceu com tantos jornalistas no México. Ao contrário do que chegou a ser dito, o documentário não foi censurado no México, embora, refira Rosi, tivesse sido muito difícil encontrar alguém que, despido de qualquer medo, estivesse interessado em distribui-lo. Em Portugal, o filme ganhou, em 2010, o prémio de Melhor Longa-Metragem do DocLisboa.

“The Old Man Who Read Love Stories” (2001)

” Antonio José Bolivar sabia ler, mas não escrever. (…) Lia lentamente juntando as sílabas, murmurando-as a meia voz como se as saboreasse, e, quando tinha a palavra inteira dominada, repeti-a de uma só vez. Depois fazia o mesmo com a frase completa, e dessa maneira se apropriava dos sentimentos e ideias plasmados nas páginas.” in “O Velho Que Lia Romances de Amor” de Luís Sepúlveda

É desta forma mastigada, degustando cada palavra, cada local, cada sentimento que o velho lê os seus romances. É assim no livro “O Velho Que Lia Romances de Amor” e é assim no filme homónimo de 2001, da autoria de Rolf de Heer.

Richard Dreyfuss dá vida ao velho, de seu nome Antonio Bolívar, colono de uma localidade isolada da Amazónia chamada El Ilídio. Desterrado para aquelas paragens virgens na juventude, Antonio enviuvou cedo e habituou-se a uma vida solitária, na selva e em comunhão com a natureza e os nativos daquela região.

Antonio faz um dia uma descoberta surpreendente, sabe ler e depressa ganha um grande gosto pela magia da leitura, mas vê-se confrontado com a inexistência de livros na isolada El Ilídio. Antonio decide procurar o que ler junto do Mayor da pequena terra, Luís Agalla, um homem de grande porte, gorduroso e de feitio intratável com quem Antonio nunca se relacionou particularmente bem, mas viu nele a única fonte de acesso à leitura. Afinal estava enganado e este apenas possuía alguns jornais desactualizados e desinteressantes. Foi no seu amigo de longa data, o dentista Rubicondo que ele encontra o acesso a livros, pois o dentista só vem a El Ilídio duas vezes por ano e pode trazer-lhe de fora as leituras desejadas. Antonio apaixona-se pelas histórias de amor, apaixonadas, fogosas, muito sofridas, mas com um final feliz e assim passa os seus dias tranquilos.

Um inesperado acontecimento vem perturbar a calma da região e lança Antonio numa caçada a uma onça selvagem que ameaça a população local, sendo que a forte sabedoria e experiência do velho se tornam preponderantes para que esta missão seja bem sucedida.

É um filme de uma beleza enorme, a comunhão com a natureza selvagem, com as origens sempre patente. A relação do homem com tudo o que há de mais primitivo, pautado por uma doçura imensa espelhada no velho que nunca tendo conhecido mais realidade nenhuma, viaja através da leitura e ama ardentemente as histórias de amor.

Foi um filme que descobri por acaso e não tendo nunca lido o livro que o inspirou, claro que o passo seguinte foi devorar o livro. Igualmente belo, mas de uma crueza e brutalidade diferente da forma romanceada com que o filme expõe a história. Contudo, quer um quer outro são um belíssimo elogio à leitura e aos leitores e à forma como esta actividade nos constrói, entre muitas outras reflexões sobre origens, amor e comunhão com a mãe Natureza.

[Amélie Poulain]

 

 

Repensar o cinema europeu, precisa-se!

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Qual o último filme independente europeu que viu no cinema? E excluindo películas com produção francesa, espanhola ou britânica? A tarefa dificulta-se?

A verdade é que a indústria europeia de cinema independente enfrenta um grave problema de distribuição. Fora dos festivais dedicados ao efeito e alguns cinemas pontuais (que lutam em condições desiguais com as grandes cadeias de cinemas para ‘consumo fácil’), é difícil ao/à comum amante de cinema conseguir ter acesso aos filmes produzidos na Europa, num grande ecrã. E como já reza o ditado: longe da vista, longe do coração.

Ora, os cineastas pela Europa fora não são indiferentes à barreira que se ergue entre o filme e os seus possíveis espectadores. Daí que, na quinta edição do Festival Rendez-vous – Encontro com o Novo Cinema Francês, esta semana, realizadores/as, argumentistas e uma produtora juntaram-se para assinar um apelo conjunto às autoridades nacionais e europeias com responsabilidades na área cultural.

O documento “Apelo dos Cineastas Europeus” não deixa margem para dúvidas: é preciso agir para que o cinema europeu independente não caia (permaneça?) num deserto. Neste caminho, um dos objectivos é, por exemplo, criar uma plataforma digital de cinema independente europeu, na qual serão disponibilizadas as versões digitais dos filmes. A sugestão do Apelo é que sejam as televisões públicas de cada país a ter um papel central neste processo. Em paralelo, os cineastas pedem que as televisões públicas trabalhem, em conjunto, num programa para uma melhor distribuição dos filmes independentes pela Europa.

Do digital à sala de cinema… e vice-versa

Não são só as televisões públicas que são chamadas a agir: o documento apela directamente à Comissão Europeia, para que reforce os esforços na área de media e cultura. De que formas? Por exemplo, através de novos meios para tornar os filmes mais acessíveis. Mais legendagem e adaptação, para que um filme produzido na Roménia, por exemplo, possa chegar a Portugal e ser facilmente compreensível. “A disponibilização dos nossos filmes noutras linguagens é o que torna possível a sua circulação nos organismos de radiodifusão televisiva e plataformas VoD [video on demand]”.

O VoD é, a propósito, olhado com particular atenção pelo cinema independente europeu, até como maneira de diminuir o acesso ilegal aos filmes, encontrando alternativas legais exequíveis. A este nível, a sugestão é de “repensar a regulação” existente. Ou seja, torná-la menos obsoleta e mais adequada às dinâmicas da Internet, que hoje marcam o panorama mundial do cinema.

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Tanta conversa sobre o digital e a Internet… e onde ficam os cinemas tradicionais nesta redefinição da distribuição do cinema independente? Não ficaram esquecidos, certamente. “Têm que continuar os esforços para mitigar os desertos de salas de cinema que ainda existem em vários locais”, avisam os cineastas, sublinhando que “os cinemas permanecem o melhor lugar de encontro para os filmes e a sua audiência”.

Para já, a prioridade expressa é evitar que mais salas de cinema independente fechem, criando condições para novos espaços de exibição. Uma tarefa impossível? Talvez não, mas certamente muito difícil, tendo em vista as consequências da crise económica europeia para os orçamentos de cultura de cidades, regiões e países.

“Pedimos às autoridades públicas da Europa, aos reguladores nacionais de cinema, à EFAD [directores das agências europeias de cinema] e mesmo aos organismos de radiodifusão televisiva que pensemos colectivamente em medidas positivas em termos de distribuição, radiodifusão e promoção dos filmes europeus”, resumem os autores da proposta. Até porque, como os mesmos também referem, “numa altura em que vários dos nossos países enfrentam novas tendências obscurantistas que cheiram a ódio, um vislumbre de esperança pode vir do cinema”.

Resta saber, agora, que consequências terá este Apelo junto das autoridades nacionais e europeias relevantes. Pontapé de saída para que, finalmente, se pense a sério na distribuição do cinema independente, de forma adequada ao século XXI? Ou, pelo contrário, será mais um documento para encher os arquivos da história cinematográfica europeia, sem acções concretas e sem boias salvadoras para um circuito que raramente se encontra com o grande público?

Clementine

Créditos das imagens

Imagem 1: “Interno di un sala da cinema” by sailko – Own work (my camera). Licensed under Public Domain via Wikimedia Commons – http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Interno_di_un_sala_da_cinema.JPG

Imagem 2: “Kinoman Mlodszy (Film Buff Junior) Wroclaw dwarf 01″ por Pnapora – Trabalho próprio pelo carregador. Licenciado sob CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons – http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Kinoman_Mlodszy_(Film_Buff_Junior)_Wroclaw_dwarf_01.JPG

SOFISMAS – Infinitamente Hoje

Memento 1
Acordavas. Olhavas em volta. Não reconhecias nada. Onde estavas? O que acontecera? Como foste ali parar?

Argumentistas, realizadores e produtores parecem concordar que esta parece ser uma premissa promissora para um filme. Digo, parecem pois são várias as películas que dela partem. Um personagem com um tipo de amnésia anterógrada, causada por um evento traumático, que todos os dias ao ir dormir vê a sua memória “apagar-se” e ao acordar apenas se lembra do que aconteceu na sua vida até uma data específica.

De thrillers a comédias, o tema já deu pano para mangas.
No divertido “A Minha Namorada tem Amnésia (50 First Dates)” o personagem de Adam Sandler, apaixona-se por Lucy (Drew Barrymore) que sofre desta condição, assim todos os dias são para ela o seu primeiro encontro.
No enigmático “Before I Go to Sleep” é a personagem de Nicole Kidman, que se sofre deste tipo de amnésia. Com um misterioso marido de que não se recorda, que parece não lhe contar toda a verdade sobre a sua vida e como tal não lhe permite encaixar todas as peças do puzzle que lhe permitiriam descobrir o que lhe causou aquele problema.
No aclamado “Memento” (na imagem e que pessoalmente, eu adoro), seguimos de forma não linear a vida de um homem que tenta desvendar quem terá sido o assassino da sua mulher. Mas como o fazer se não consegue recordar-se de nada depois do fatídico dia em que a perdeu? Ele tem uma solução, deixar pistas a si mesmo através de fotos e tatuagens.

As memórias são indubitavelmente parte de nós e a falta delas limita-nos mais do que muitas vezes parecemos reparar. Quem poderíamos ser se não nos lembrássemos do que fizemos todos os dias dos últimos anos? Se tivessem de ser os outros a dizerem-nos quem somos e o que temos feito? Quem serias tu sem as tuas memórias? E se o dia de hoje se repetisse, infinitamente, para o resto dos teus dias?

“Mise-en-Scène”

Mise-en-Scène

A “Mise-en-Scène” de hoje é dedicada a um grande senhor do cinema nacional que nos deixou na passada semana, aos 106 anos de idade. Falo, claro está, de Manoel de Oliveira, que à data era considerado o mais velho realizador em actividade.

Nasceu no Porto a 11 de Dezembro de 1908, no seio de uma família abastada, o que lhe proporcionou uma educação diferenciada, contudo, o próprio admitia que nunca foi um bom aluno. Nos seus verdes anos interessou-se sobretudo pelo desporto, primeiro o atletismo e depois o automobilismo, aliado a uma vida tipicamente boémia.

Aos 20 anos o cinema manifesta-se como interesse definitivo e Manoel inscreve-se na escola de Rino Lupo, um cineasta italiano que se radicou no Porto e aí promoveu uma escola de actores. É durante esta fase, enquanto estudante de representação, que começa a magicar o seu primeiro projecto enquanto realizador, que se viria a materializar em 1931, “Douro, Faina Fluvial”. Este filme documental, que retrata a vida costeira em Portugal, suscita o interesse da crítica estrangeira, mas por cá não foi muito bem recebido.

Seguiram-se outros projectos como realizador, mas a representação continuava presente na sua vida, sendo que podemos vê-lo no famoso clássico português “A Canção de Lisboa” (1933).

Em 1942, lança um dos seus mais icónicos projectos “Aniki-Bobó”, onde revela a pobreza vivida na Ribeira do Porto, filme este que foi um verdadeiro fracasso na altura, talvez por uma certa incompreensão do público ou um rejeitar da dura realidade, ganhando relevo apenas com o passar dos anos.

Depois desta experiência algo frustrada o realizador esteve catorze anos afastado do cinema e dedicou-se aos negócios da sua família, regressando apenas com novo trabalho em 1956, “O Pintor e a Cidade”, onde filma pela primeira vez a cores.

“O Acto da Primavera” (1963) foi o trabalho documental marcante que se seguiu, colocando ao seu serviço a antropologia visual, ou seja, a observação do real pela imagem. A sua ousadia levaram a que este trabalho fosse alvo de censura e Manoel de Oliveira chegou a passar dez dias nos calabouços da PIDE devido ao seu atrevimento.

Nem mesmo a censura deteve o seu génio e o seu espírito crítico e a sua carreira prosseguiu, por vezes com algumas interrupções mais prolongadas.

Em 1982, dirigiu um documentário muito pessoal e auto-biográfico, recorrendo a imagens da casa onde cresceu, que será revelado apenas agora após a sua morte, de acordo com o seu próprio desejo.

Manoel de Oliveira sempre afirmou que trabalhava a arte do cinema pelo gosto que lhe tinha, não pretendia que o aclamassem e gostava de viver recatado, longe dos holofotes da fama. O que filmava, filmava por prazer.

Foi senhor de uma notável longevidade e deixou-nos um legado incrível, deixando três projectos em aberto: “A Igreja do Diabo”, “A Ronda da Noite” e um projecto sobre a mulher e as vindimas.

Manoel de Oliveira deixou-nos no passado dia 2 de Abril, pois apesar do espírito jovem o corpo, mais concretamente o seu coração, sucumbiu à longevidade.

Até sempre, Manoel de Oliveira!

[Amélie Poulain]

“Little Fish” (2005)

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Um fim-de-semana prolongado é sempre tempo de ver mais uns quantos filmes e ultimamente ando um bocadinho viciada em produções australianas, como é o caso do filme que aqui vos apresento.

“Little Fish” é um drama de Rowan Woods que explora a vida de Tracy (Cate Blanchett), uma ex-viciada em drogas, que aos 32 anos vê a sua vida numa espiral de rotina decadente asfixiante. Depois de ter ultrapassado anos negros de vício, Tracy é agora uma exemplar funcionária de uma loja de filmes e videojogos, mas não consegue dar o salto para uma vida independente e realizada. Tracy vive na casa da sua mãe e ambiciona montar o seu próprio negócio, mas o crédito necessário à realização desse sonho é-lhe sucessivamente negado pelas instituições financeiras devido ao seu cadastro e fracos indicadores financeiros.

Tracy vive ansiosa e desmotivada, recordando muitas vezes a infância, tempos felizes e de uma paz anterior que agora não consegue encontrar. O seu ex-padrasto, Lionel (Hugo Weaving), constituiu um elo de ligação a essa feliz infância perdida, mas também Lionel se vê actualmente numa espiral decadente de vício, sendo Tracy o seu único apoio.

A certa altura o ex-namorado de Tracy, com quem ela esteve nos seus anos negros, regressa e com ela regressam os problemas, vendo-se Tracy novamente envolvida numa história rocambolesca e problemática.

Todo o filme está envolto numa atmosfera entre o sonho e crueldade. As memórias felizes em oposição à realidade asfixiante e estagnada, monótona e monocórdica, característica de tantas vidas, da nossa própria vida. O final é um verdadeiro murro no estômago, pois se a rotina parece tenebrosa, há mudanças que são bem piores. A água é um elemento presente ao longo de todo o filme, sendo uma verdadeira alegoria à vida. A vida começa em meio aquático e na película a água está sempre associada a momentos tranquilos e felizes, assim como a momentos de reflexão, sendo no final o elemento purificador e pacificador.

A banda sonora é, também, aliada à água um poderoso instrumento para nos transmitir uma sensação algo etérea da vida e a identidade díspar das diferentes cenas..

Cate Blanchett está magistral no papel de Tracy, tornando a personagem real, o que ao fim ao cabo não é uma surpresa, pois a actriz já nos habituou ao melhor, mas ainda assim fico sempre surpreendida e rendida às interpretações.

Esta película foi uma excelente surpresa e recomendo vivamente a investirem cerca de duas horas das vossas vidas para a verem.

[Amélie Poulain]

A 3 de Abril de 1924…

Nasceu em Omaha (Nebraska) um dos mais aclamados actores de todos os tempos: Marlon Brando!

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São muitos os filmes que contribuíram para que Marlon Brando se tenha tornado um verdadeiro ícone cultural. As suas performances excepcionais em “A Streetcar Named Desire”, “Julius Caesar”, “Last Tango in Paris”, “Apocalypse Now”, entre outras, juntam-se às legendárias interpretações que lhe valeram dois Óscares, Terry Malloy em “On the Waterfront” e Vito Corleone em “The Godfather”, imortalizando o talento de Marlon Brando.
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O actor foi considerado a 4ª Maior Lenda do Cinema pelo American Film Insitute e teve também direito a ingressar a lista “100 Persons of the Century” da revista Time, que incorporou apenas mais dois actores profissionais.

Marlon Brando morreu a 1 de Julho de 2004, com 80 anos de idade, devido a falência respiratória.

Marla Singer

Berlim, 1948: filmar sobre as ruínas da Europa

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Comemora-se, este ano, os 70 anos sobre o fim da Segunda Guerra Mundial. Parece que aconteceu há muito tempo, numa época em que o cinema era a preto e branco e a rádio vivia dias de ouro. Puro engano. O primeiro homo sapiens, julga-se, surgiu há 200.000 anos, pelo que se encaixarmos este nosso tempo de vida num ciclo de 24 horas, então os horrores do Terceiro Reich aconteceram há menos de um minuto. Um pequeno instante! Mas, se assim foi, porque tendemos a esquecer o drama civilizacional que teve então lugar?

O que não faltam são filmes de guerra, antigos e recentes, demasiado focados em sangue e explosões q.b., como se o conflito tivesse sido apenas isso. Perdidos entre tanto fumo e fogo-de-artifício, torna-se difícil perceber uma mensagem histórica inteligível. Para mais, são poucas as obras que tentam retratar os primeiros tempos do pós-guerra, quanto a Alemanha e boa parte da Europa ainda estavam reduzidas a escombros.

Foi nesse período de charneira, em que se jogava o destino da Europa, ao mesmo tempo que se faziam contas sobre como foi possível que tantas pessoas tivessem abraçado o nazismo (e a sua desumanidade), que os realizadores Roberto Rossellini e Billy Wilder aterram em Berlim. «Alemanha, Ano Zero» e «A Foreign Affair», respectivamente, foram a tentativa de mostrar, cada um ao seu estilo, o que realmente estava a acontecer no Velho Continente. Ambos estrearam nas salas de cinema em 1948, quando tudo estava ainda muito quente.

Miséria moral

«Alemanha, Ano Zero», filmado pelo realizador italiano Roberto Rossellini, só precisou, para cenário, de usar as ruínas da cidade de Berlim. A derrota germânica, o nazismo e o desespero – todos os dias desenrolava-se uma luta pela sobrevivência, com os berlinenses a dormir em caves de prédios desabados e a lutar pelo mais imundo pedaço de comida – fazem desta película um dos mais intensos dramas do pós-guerra: as filmagens foram feitas somente três anos após a queda de Berlim.

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A história gira em torno de Edmund, um rapaz de 12 anos que, instigado por um antigo professor seu (um nazi), acaba por matar o pai, um homem muito doente e cuja saúde se vinha a deteriorar. Desesperado com o estado do progenitor, Edmund pede ajuda ao professor Enning, mas este, depois de um discurso imbuído de toda a pletórica nazi, convence o jovem de que, em tempos tão ásperos e duros, a lei do mais forte tem de imperar. O jovem acaba por ficar convencido que o melhor a fazer é envenenar o pai, livrando-o do sofrimento e poupando à família o empecilho que a sua doença causava.

Mas todo o acto tem o seu peso moral. Edmund acaba por suicidar-se, pouco depois, atormentado pela culpa. O que aconteceu a Enning? Limitou-se a negar qualquer responsabilidade pelo sucedido.

Uma metáfora para o que foram os anos de dominação nazi e a forma acrítica como todo um povo interiorizou o seu discurso, seja por ingenuidade, ignorância ou fanatismo. A questão mantém-se: porque aconteceu tudo aquilo?

Guerra-fria e propaganda

No mesmo ano, coube ao norte-americano Billy Wilder realizar a longa-metragem «A Foreign Affair», uma comédia negra sobre um grupo de congressistas dos Estados Unidos que viajam até Berlim, para visitar as tropas yankees que estão aí estacionadas. Contudo, a trama começa a construir-se quando se suspeita que Erika von Schluetow, uma sedutora cantora e dançarina de cabaré, foi, na realidade, amante de vários cabecilhas do regime nazi, um deles ainda a monte. O que torna tudo ainda mais picante é a existência de um oficial norte-americano que teima em protegê-la, isto enquanto cai de amores por uma das congressistas que tenta desmascarar Erika: o típico triângulo amoroso.

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No entanto, a comédia filmada por Billy Wilder também lança alguma luz ao clima de Guerra-fria que já se estava a cozinhar, entre os Estados Unidos e a União Soviética. Temendo que os alemães aderissem em massa aos ideais comunistas (pois economia do país estava de rastos, as infra-estruturas destruídas e a população vivia na miséria), os norte-americanos tentam ajudar a reconstruir os sectores controlados pelos Aliados, aliviando, pelo meio, as carências que aí subsistem. Tudo isto desembocaria no Plano Marshall e no renascer das cinzas do que viria a ser a República Federal Alemã.

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Mas, tratava-se de ajuda, motivada por genuínas preocupações morais, ou de pura propaganda, com fins políticos e geoestratégicos? Nesse sentido, existe no filme um diálogo magistral, capaz de resumir tudo. Os vários congressistas sobrevoam, impressionados, as ruinas de Berlim, quando um deles diz: “Bem, pelo menos trazemos-lhes ajuda”. A que outro responde: “Ajuda? Não; quando se deixam as etiquetas da parte de fora, chama-se propaganda”.

{Morpheus}