“Mise-en-Scène”

Jean-Vigo-pasiones_CLAIMA20130125_0114_4

Na última semana enumerei alguns nomes célebres do cinema francês dos anos 30, entre os quais o de JEAN VIGO, de quem falaremos hoje.

Jean Vigo nasceu a 26 de Abril em Paris, filho de um anarquista director de um jornal, que teve uma morte prematura na prisão, deixando o seu filho entregue às agruras da vida. Jean teve uma infância conturbada, para além da morte do pia, foi abandonado pela mãe, transitou de escola em escola várias vezes e nunca conseguiu socializar com os seus colegas.

Aos 23 anos Jean Vigo integra-se finalmente num grupo de amigos, que eram pessoas ligadas ao cinema, que despertaram nele o entusiasmo para com esta arte. Assim, comprou uma câmara e com o auxílio do seu grupo de amigos começa por filmar um documentário. Um dos seus amigos que o ajuda a explorar este mundo é o irmão mais novo de Dziga Vertov (realizador já aqui abordado).

“À propos de Nice”(1930) é, então, o seu primeiro trabalho, uma poderosa crítica social, sendo que no trabalho seguinte Jean dá continuidade a essa linha. As suas temáticas são tão acutilantes que os produtores têm medo em apostar em Vigo para realizar trabalhos.

O realizador é, também, fortemente perseguido pela censura, tendo sempre dificuldade em desenvolver o seu trabalho e as suas ideias. Deste modo, só em 1934 consegue lançar a sua primeira longa-metragem, “L’ Atalante”. É nesse mesmo ano e pouco depois de estrear o seu filme que Jean Vigo falece prematuramente, aos 29 anos, fruto de complicações de saúde derivadas de um tuberculose anterior.

Jean Vigo foi um cineasta de causas e ideais, sem medo da repressão, mas com um final prematuro, deixando-nos um legado curto.

[Amélie Poulain]

 

“The Judge” (2014)

judge

“The Judge” foi um dos filmes que esteve na corrida aos Óscares apenas na categoria de Melhor Actor Secundário, acabando por passar um pouco despercebido. É um drama familiar realizado por David Dobkin, que poderia ser a história de qualquer um de nós.

“The Judge” conta com Robert Downey Jr. no papel principal, dando corpo a Hank Palmer, um advogado cuja carreira é bem sucedida, mas a vida familiar é frustrante e desastrosa. Certo dia Hank recebe uma chamada do seu irmão a anunciar a morte da mãe, o que significa o regresso de Hank à terra natal e consequente despertar de diversos demónios. A morte da mãe de Hank, para além da óbvia dureza do momento, traz também o difícil reencontro com o pai e o despertar de muitas memórias, que levam a uma conflituosa reflexão sobre o seu momento actual. O pai de Hank, Joseph Palmer, é um implacável juíz local, conhecido por todos como “o Juíz”, interpretado por Robert Duvall. A fama tenebrosa de Joseph não se fica pela vizinhança e até os próprios filhos o encaram com temor. Hank agora adulto já ultrapassou a fase do medo, mas as memórias que guarda do pai não são as melhores e neste regresso a situação complica-se ainda mais, pois o recto juíz está a ser acusado de homicídio. Hank vê a sua vida e tudo em que acredita virado do avesso e vê-se perante uma difícil decisão, deverá defender o seu pai em tribunal? Por muito duro que o juís Joseph sempre tenha sido, Hank não consegue acreditar que ele fosse capaz de cometer um acto desses.

O filme, como já referi, é um drama familiar que poderia ser de qualquer um de nós, nada distintivo, mas que vale sobretudo pelas interpretações. Robert Duvall e Robert Downey Jr. desenvolvem no ecrã uma relação pai/filho exímia. Primeiro o conflito, depois a dureza que é ver os nossos progenitores a envelhecerem e a perderem as suas capacidades. Duvall, aos 84 anos, tem aqui uma prestação convincente e humana que lhe rendeu a merecida nomeação ao Óscar de Melhor Actor Secundário e que podia muito bem ter vencido, no entanto, a concorrência este ano era mesmo demasiado forte nesta categoria. Curiosamente este papel tinha sido pensado para Jack Nicholson que recusou este trabalho.

Nota, também, para a prestação de Robert Downey Jr., que já nos habituámos a ver como o milionário, playboy, filantropo, Tony Stark (Iron Man). Contudo, aqui Downey Jr. abandona esse personagem que tem tanto de si e volta a realizar um competente trabalho de actor, recordando velhos tempos em que nos surpreendeu com prestações magistrais em “Chaplin” (1992) ou “The Soloist” (2009).

“The Judge” é um dos nomeados discretos desta edição dos Óscares que vale a pena ver.

[Amélie Poulain]

 

SOFISMAS – HAVERÁ VIDA FORA DA TERRA?

star-wars-cinematography

Suponho que muitos, tal como eu, já tenham tentado imaginar o que existirá no espaço sideral, muito além deste nosso pequenino sistema solar. Não percebo grande coisa de astronomia ou de física mas é impossível não ficar maravilhado quando olhamos para imagens que as novas tecnologias nos trazem do mundo lá fora. Ainda há muito por explicar, muito por descobrir…

Uma das questões mais prementes será qual a possibilidade de em planetas, mais ou menos longínquos existir vida? As agências espaciais buscam incessantemente provas de que esta se possa ter desenvolvido nos astros que nos rodeiam.

Também o cinema se indaga sobre isto. Filmes mais fantasiosos como “Star Wars” e “Star Trek” demonstram como se poderão parecer os seres que habitam noutras galáxias. Outros como “Interstellar” sugerem apenas que a vida humana possa sobreviver noutros locais do universo. Mas se a vida terráquea pode ser transladada para esses locais, porque não terá o acaso levado por si só à criação de vida nesses sítios.

Tendo em conta a dimensão infinita do espaço que nos rodeia e o número infinito de planetas, acho que seria um acidente incrível ser o nosso, o único planeta que foi presenteado com vida. Acredito que a vida não é exclusiva da Terra e existirá também algures. Poderá não ser à base de carbono ou água ou nem sequer assemelhar-se ao que neste planeta é considerado um ser vivo, podem ter excelentes capacidades intelectuais superiores ou muito inferiores. Não sei. Basta olhar para a diversidade de espécies que partilham este mundo connosco (de bactérias, a moluscos, peixes ou mamíferos)… As hipóteses são infinitas e as probabilidades, num universo que não acaba, são também inúmeras.

O que pensam vocês desta questão? Imaginam outros seres, pensantes ou não, no nosso universo?

Crítica: “Cinderella”

wf

Kenneth Branagh regressou aos grandes blockbusters. Quatro anos depois de “Thor”, o realizador aventurou-se nesta adaptação da clássica história de Ella, uma rapariga que, após perder os pais, fica condenada à maldade da madrasta e das meias-irmãs. Um dia, Ella (ou Cinderella, como lhe apelidam as meias-irmãs) conhece um homem que diz ser aprendiz, mas que, na verdade, é o Príncipe.

Depois da onda de filmes baseados em histórias infantis, desde “Branca de Neve e o Caçador” até “Maléfica”, “Cinderella” vem quebrar a ideia de que estas histórias funcionam melhor como filmes de aventura e acção obscuros. O que torna “Cinderella” especial é, sem dúvida, a coragem que foi tida na produção, para se manterem fiéis à história original, adaptando-a a um novo público. É tradicional, de uma forma inovadora, e, apesar de podermos alegar que os clichés estão lá, eles passam despercebidos, de alguma forma.

No elenco, o filme conta com uma delicada e bela Lily James como protagonista, Richard Madden como o Príncipe, Cate Blanchett na pele da madrasta, Helena Bonham Carter como a Fada Madrinha, entre outros. Não é o elenco mais luxuoso de sempre, principalmente no que diz respeito ao par protagonista, mas cada um é perfeitamente adequado ao seu papel e faz o que lhe compete. Alguns momentos do filme podem ser pouco convincentes, no que diz respeito a actuações, mas tratam-se de exageros propositados.

Não nos enganemos: “Cinderella” é um filme infantil, ao qual foi concedido o grau de inocência certo. De outra forma, era impossível manter-se fiel ao retrato original. Ainda assim, é certo que satisfará miúdos e graúdos.

Nota: 8/10

P.S. Antes do filme, é mostrada ao público a curta-metragem “Frozen Fever”. São uns minutos muito bem passados, embora tenha as suas falhas.

◉ HAL 9000 ◉

“Mise-en-Scène”

collage

 

Nas últimas semanas a “Mise-en-Scène” tem-se dedicado maioritariamente ao cinema americano e à época dourada de Hollywood, sendo essas histórias momentaneamente interrompidas pelo especial Óscares.

Contudo, hoje vamos viajar até outras paragens e vamos falar de cinema francês, já aqui abordado e tal como já vimos durante a Era muda teve um bom desenvolvimento. No entanto, hoje debruçamos-nos sobre o cinema francês e a chegada do sonoro, mudança essa que não foi facilmente incorporada.

A chegada do sonoro ao cinema francês foi de difícil aceitação pelos cineastas, à semelhança do que se verificou noutros países. Os cineastas franceses recusavam-se a acreditar que o cinema mudo já tinha esgotado as possibilidades e nunca foram particularmente abertos a inovações técnicas, mas esta resistência foi facilmente quebrada, pois o sonora estava a ganhar força no mercado cinematográfico em geral. Nesta fase o cinema francês continua com uma produção em grande número, mas a qualidade é de um nível cada vez mais baixo, fruto do monopólio do cinema americano que detinha as patentes do sonoro, logo as produções francesas ficavam caríssimas. A pressão americana sobre o cinema francês ia mais longe, pois tentavam implementar-se em França e dominar a produção aí feita. Por exemplo, a Paramount instalou-se em Joinville, mas a experiência viria a revelar-se um fracasso.

Os alemães também tentaram dominar o mercado francês e aí conseguir desenvolver o seu cinema de ideologia nazi. Vários foram os realizadores franceses forçados a colaborar com este cinema “de encomenda”, fruto do desemprego.

Nos primeiros anos de adaptação ao sonoro, entre 1930 e 1933, destacam-se nas produções francesas “O Sangue de um Poeta” de Cocteau e “Idade de Ouro” de Buñuel. Jean Vigo, Jean Renoir e René Clair são outros nomes da realização que se destacaram nesta fase, mas à parte estes tudo se resumia a operetas e a obras engraçadas ou impregnadas de populismo romântico.

Entre 1933 e 1935, a vida do cinema francês decaiu ainda mais fruto da conjuntura política delicada que se vivia, com a ascensão do fascismo italiano e alemão. Dos realizadores que anteriormente faziam furor apenas Renoir se manteve e gerou neste período aquela que é considerada a sua obra-prima, “Le Crime de Monsieur Lange”.

Mais tarde, nos anos de 1936 e 1937, acontece uma reviravolta no panorama cinematográfico francês. Renoir continua a espalhar o seu génio e lança títulos como “Passeio ao campo” e “A Grande Ilusão”. No entanto, nesta fase multiplicam-se trabalhos de outros realizadores como Marcel Carné, Jacques Prévert, Grémillon, Pagnol e Guitry.

Seguem-se mais anos de grande criatividade, mas o ambiente eminente de conflito que se vivia inspirava sobretudo a filmes de temáticas pacifistas ou patrióticas. Com a chegada da guerra o cinema francês entrou em declínio, com a maioria dos seus realizadores a exilarem-se para os Estados Unidos da América.

[Amélie Poulain]

|CINDERELA – Review|

u
O filme, que estreia amanhã, retrata em imagem real o conto da Cinderela, partindo logo do início com algo contra si: já todos nós sabemos como acaba a história, faz parte do imaginário de todas as crianças. Não seria pela história que o filme podia surpreender a audiência. No entanto, não só criou entusiasmo nesse mesmo ponto como em todos os outros. A história foi complementada com cenas essenciais ao longo de todo o filme, o que tornou o conto da Cinderela mais rico e complexo, fazendo com que todos os acontecimentos e relações fizessem sentido e não se tornassem forçados. Até o “amor à primeira vista” é feito de maneira que nos envolve e nos faz torcer por um casal que mal se conhece. A personagem do príncipe, por exemplo, que no filme de desenhos animados Disney mal lhe metemos os olhos em cima, aqui temos a oportunidade de o conhecer a um nível bem mais para além do exterior.

O filme presenteia-nos com tanta coisa surpreendente que nos envolve automaticamente num universo de encantar de enormes dimensões, tipicamente Disney, do qual não nos conseguimos fartar. Tanto os cenários como o vestuário são feitos ao mais pequeno detalhe mas sempre em grande escala. Podíamos perder-nos com o olhar só nos concentrando nos pormenores.

Quanto ao elenco, este é de grande categoria. A Cate Blanchett está incrível como a madrasta astuta e invejosa, a Lily James (da série Downton Abbey) encorpora uma Ella doce e inocente como sempre imaginámos a Cinderela, o Richard Madden (da série Game of Thrones) torna-se no príncipe que sempre desejámos conhecer e fantasiar, e as meia-irmãs da Cinderela, Sophie McShera e Holliday Grainger, conseguem fazer-nos rir com a mesma intensidade com que as odiamos. E claro, a Helena Bonham Carter que, mesmo aparecendo só numa pequena cena, apresenta-nos uma fada madrinha maternal e cómica como só ela o consegue fazer.

O único ponto ao qual se podia apontar o dedo seria que, por vezes, as actuações podem ser um pouco exageradas no que toca a suspiros, troca de olhares e dramatização, mas que, na verdade, se enquadra perfeitamente no universo Disney.

No fim, saímos da sala do cinema com um coração quente e preenchido, como já é habitual com os filmes Disney. Excelente para aqueles que ainda se deixam emocionar pelos finais felizes.

[Princess Mononoke]

“Proof” (1991)

proof

Nem só de actualidade vive a sétima arte e hoje viajo até a um filme mais antigo, daqueles que descobrimos quase por acaso. “Proof” (1991) de Jocelyn Moorhouse é um filme dramático australiano que conta com as prestações de Hugo Weaving e Russel Crowe.

Este é um daqueles filmes que não sendo icónico e ter sobressaído sobretudo no seu país de origem conta com um enredo interessante e introspectivo e prestações consistentes dos actores. Aliás ao nível de premiações “caseiras” foi bastante reconhecido e as receitas de bilheteira bastante satisfatórias. Em Cannes saiu vencedor com um Golden Camera Award, atribuído ao seu realizador. Foi uma produção que se prolongou por quatro anos desde a ideia inicial e escrita do guião até à sua produção final.

“Proof” conta com Hugo Weaving no papel principal dando vida a um fotógrafo cego, Martin, o que à partida parece descabido e desconexo, aliás a roçar o hilariante. Contudo, esta imagem tem uma profundidade maior, é uma verdadeira reflexão sobre o que é realmente ver, o que vemos com os olhos e o que vemos com o coração. Martin vive sozinho, tendo como principal companhia o seu cão guia, mas a sua empregada doméstica quer ser uma companhia forçada, vivendo uma louca obsessão pelo seu patrão. Martin não pode ver, mas é dono de uma sensibilidade diferente e apurada e há algum tempo que sente que existe algo de estranho em relação a Celia, a empregada. No entanto, vai depositando a sua confiança nela, pois algo que Martin não tolera nas pessoas é que sintam pena dele e nisso Celia é uma boa companhia.

A vida de Martin vai mudar quando trava conhecimento com o personagem interpretado por Russel Crowe, Andy, um jovem empregado de mesa, que se revela um excelente e verdadeiro amigo. Mas será que só existe verdade nesta amizade? É o que poderão descobrir ao ver o filme!

Esta película é bastante interessante e oscila entre os momentos dramáticos e tensos, momentos dramáticos, mas de um ritmo arrastado e momentos descontraídos e que nos arrancam um sorriso. O filme explora sobretudo a temática da verdade e da amizade, proporcionado um bom momento de introspecção sobre a vida e sobre as suas diferentes significâncias.

Sou uma fã confessa do trabalho de Hugo Weaving e foi por isso que “tropecei” neste filme, sendo que a prestação do actor faz jus ao que já nos habituou. Tive, ainda, a oportunidade de ver um jovem Russel Crowe, muito antes da rampa de sucesso que foi “Gladiador”. Crowe, embora jovem, já demonstra alguma maturidade enquanto actor, conseguindo uma prestação realista nos diferentes momentos e nos altos e baixos que a sua amizade com o fotógrafo cego vai sofrendo.

[Amélie Poulain]

 

ESPECIAL MONSTRA: The Kingdom of Dreams and Madness

Começou quinta-feira e, mais do que dar ‘monstros’ à capital portuguesa, o Monstra – Festival de Cinema de Animação de Lisboa é já um ponto de referência anual no panorama cinematográfico nacional. Ao longo de semana e meia, mais de 500 filmes encaixam-se na agenda variada, distribuída por três salas de cinema e ainda, como bónus, em versão “drive-in” e no “cinema-mais-pequeno-do-mundo”.

Como habitual, o Japão tem um lugar incontestável nesta homenagem ao que de melhor se faz no cinema de animação. Desta feita, a escolha de programação recaiu numa retrospectiva de Isao Takahata, mas sem esquecer o trabalho do outro co-fundador dos estúdios Ghibli, Hayao Miyazaki, com a ante-estreia em Portugal de “The Wind Rises”.

Talvez por isso, “The Kingdom of Dreams and Madness” (2013) foi a melhor porta de entrada do festival à programação japonesa deste ano. O documentário, da autoria de Mami Sunada, consegue um feito difícil: ir aos bastidores dos filmes de animação de Miyazaki e Takahata, através do retrato de um ano nos estúdios Ghibli. E não foi, certamente, um ano comum, já que o filme se passa no período de produção dupla de “The Wind Rises” de Miyazaki, e de “The Tale of The Princess Kaguya”, de Takahata.

monstra3

Esta é uma oportunidade rara de conhecer, de forma tão íntima, o estúdio histórico da animação mundial. Mami Sunada fá-lo com subtileza, atenção aos pormenores e respeito por estas ‘personagens’ que assomam ao longo das quase duas horas de documentário, centradas na mestria de Miyazaki. Há espaço para apresentar a equipa, o gato, as negociações de produção, enquanto é o processo criativo e a visão do autor de “Princess Mononoke” ou “Spirited Away” que nos encanta e prende ao ecrã. A entrecortar, a belíssima luz sobre a natureza em volta do estúdio remete para a passagem do tempo. Lá dentro, a parede envidraçada embebede de sol os ritmos de produção – e tudo se conjuga numa harmonia quase perfeita.

Sempre de avental branco e com uma dedicação contagiante, Miyazaki é uma figura ímpar. Aos 72 anos (actualmente com 74), o génio continua a fazer jornadas de 10 horas no estúdio, com um método de trabalho que já praticamente não se faz no mundo. O storyboard, feito à mão e com aguarelas minuciosas, demora dois anos a ser concluído. O argumento, sem guião de qualquer espécie, vai sendo traçado ali, de quadro em quadro, ao ritmo da inspiração do mestre japonês. Ninguém sabe, ainda, o final de “The Wind Rises”, mas ninguém parece preocupado com isso. O filme está em produção e reina o respeito pela genialidade do autor, que embebeda o trabalho (e a vida) de quem o rodeia.

Mami Sunada não quer competir com a riqueza visual dos estúdios Ghibli, apostando numa realização que quase se conta por si, desprovida de grande aparato e aproximando-se do ritmo do próprio Miyazaki. Ao lado mais comercial da produção do estúdio – com as conferências de imprensa, as entrevistas ou as participações em eventos com fãs –, o documentário contrapõe a calma do autor japonês, a sua visão sobre o mundo, contada com um sorriso tímido, entre duas baforadas do tabaco quase constante.

Monstra4 monstra2

É impossível não sentir o pessimismo em Miyazaki – e, lá está, causa estranheza e desconforto. Afinal, como pode o autor de referência da imaginação japonesa pôr em causa a relevância dos filmes ou falar sobre a perda da inovação e criatividade no cinema de animação? Como pode olhar ele para o estúdio e assumir que, na ausência dos seus co-fundadores, tudo vai desabar? Talvez porque, entre as aguarelas que dão origem às imagens em movimento, ele saiba que o ritmo da indústria mundial de cinema já não seja bem o seu – e que ele acaba por ser o último reduto de uma animação clássica, com produção clássica, que um dia irá mesmo acabar.

Os paralelismos, no documentário, entre o autor de “The Wind Rises” e esta sua última obra são por demais evidentes. Da carta sobre o pai e sobre a vivência de guerra ao fascínio pelo desenho do voo de Zero, o avião de combate japonês na Segunda Grande Guerra; mas também do discurso pessimista sobre o cinema de animação à necessidade de ver no mundo mais do que o primeiro olhar permite. E, aqui, o plano sobre a cidade cinzenta enquanto Miyazaki exalta a importância da imaginação – a partir do que é visível e chegando às possibilidades da imaginação – é emblemático. Mami Sunada sabe disso e chama ao ecrã excertos dos filmes do mestre, pela primeira vez e exactamente para esse momento. Porque é ali que a voz cansada do homem de 72 anos se cruza com a da criança, que imagina cenários onde quer que vá. Ele, que conhece a guerra, mas admira a engenharia do avião – tal como a personagem principal do seu filme. Ele, que não conseguiu evitar as lágrimas quando se adiciona som à última cena de “The Wind Rises” e, também, quando vê o filme no cinema, pela primeira vez. Ele, Hayao Miyazaki.

夢と狂気の王国チラシ_表面_B2

Clementine

“Mise-en-Scène”

Captura-de-ecrã-2015-03-10-às-22

No Domingo, dia 8 de Março, faleceu Bárbara Virgínia, a primeira realizadora portuguesa. Deste modo, a nossa “Mise-en-Scène” de hoje foge à sua cronologia habitual para falar desta senhora que fica para a história da sétima arte.

Nasceu em Lisboa a 15 de Novembro de 1923 sob o nome de Maria de Lourdes Dias Costa, filha de uma família abastada, desde cedo se interessou pela arte e estudou música e outras artes no Conservatório de Lisboa. No início da sua carreira trabalhou na Emissora Nacional, mas só mais tarde se afirmou neste meio, já sob o pseudónimo de Bárbara Virgínia.

Seguem-se outros trabalhos bem sucedidos, o teatro, a escrita de artigos para revistas femininas e por fim o cinema, inicialmente como actriz. “Sonho de Amor” de Carlos Porfírio em que Bárbara agarrava o papel principal foi a confirmação da popularidade desta artista. Mas o que a inscreve em definitivo na história da sétima arte é a sua estreia na realização, que marca também a estreia em Portugal de uma mulher ao comando de um filme sonoro, facto que aconteceu em Agosto de 1946, com “Três Dias Sem Deus”. Nesta altura Virgínia tinha 22 anos e para além do marco que conquistou na história da realização em Portugal, ainda actuou como actriz neste seu filme.

A ousadia e bom trabalho de Virgínia são reconhecidos e em Outubro desse ano o seu “Três Dias Sem Deus” é um dos representantes portugueses escolhidos para figurar no Festival de Cannes, que se realizou pela primeira vez.

Depois de tão grande feito Virgínia não volta à realização e prossegue os seus trabalhos como actriz de cinema e teatro, radialista e participa em vários recitais de poesia. Aliás,é durante um destes recitais que surge um convite de um empresário brasileiro para trabalhar no Brasil, sendo que ela aceita o convite e assina um contrato com a TV Tupi, onde continua com a sua carreira e muitos sucessos.

Virgínia prosseguiu assim com a sua vida no Brasil e foi no Rio de Janeiro que faleceu, aos 92 anos, no passado Domingo.

[Amélie Poulain]

Sentimos tão pouco, Charlie

charlie chaplin

“We think too much and feel too little. More than machinery, we need humanity”, dizias, em The Great Dictator. Não será por acaso que esta é a minha citação preferida do cinema, uma das minhas preferidas na vida. É, certamente, aquela que me faz questionar o meu próprio olhar céptico quando menosprezo frases feitas, adquiridas por nós, mas proferidas por outros.

Sentimos tão pouco, Charlie. Cada vez menos. Somos cada vez menos capazes de nos enternecer com o brilho do teu olhar, quando abraças a humanidade com as tuas palavras. Levamo-nos tão a sério, menosprezando tudo o resto. Caímos no “engraçadismo” e fazemos do mundo uma piada sem alma. E perdemos a magia. Levaste a magia do cinema contigo, para uma última coreografia interpretada vezes sem conta, sem guião? Sem sentir, sem magia, sem emoção, perdemos também a empatia. E perdemos a capacidade de nos apaixonarmos nos 24 frames por segundo de uma película. Que já nem sequer é película e surge agora sem falhas, nem riscos. Tão artificial, tão mecânica. Tenho saudades do barulho da fita a passar na bobine, Charlie, mas nunca o ouvi.

Pensamos tanto, Charlie. E temos tanto medo de mostrar emoções. Retemos as lágrimas tantas vezes que, quando precisamos mesmo, elas secaram para sempre. Voltamos ao ET e esquecemos da amizade extraterrestre da nossa infância. Esquecemos o Vale Encantado e de como os dinossauros são tão humanos que expõem a nossa humanidade cruamente. Pensamos tanto, tanto, que guardamos a nostalgia para o Indiana Jones, mas já não nos conseguimos encantar com mais nada a partir dos anos 90. Tornámo-nos cínicos, Charlie, e agora precisávamos tanto da tua dança de garfos tornados pernas. Precisávamos tanto de ti.

Queremos tanto ser máquinas, Charlie, que esboçamos argumentos vácuos e opacos, cheios de palavras caras num discurso elitista. Fizemos do cinema, do teatro, de tudo aquilo em que a emoção falava mais alto… fizemos crítica vazia. Lembras-te do que era esta crítica vazia? Agora multiplica-a por 10, por 100, por todas as páginas de jornal e comentários on-line. Vivemos para criticar e despojámo-nos de emoções. Não damos hipóteses uns aos outros. Rejeitamos o que é de muitos, esquecendo o carinho que recebeste de milhares. Queremos todos ser únicos, caindo na banalização.

Chaplin 1

Esquecemos o que é ver cinema, Charlie. Levaste isso contigo? Essas horas intermináveis de um humor físico que se transformava em ternura. Como é possível ainda teres ternura nas imagens-movimento que se fizeram de ti? Tantas vezes exibidas, desconstruídas, e só se vê ternura nos teus olhos.

Independentemente das críticas e dos discursos cerrados em si próprios, vi tanto de ti em 2014. O plano de sequência de Birdman fez-me lembrar os teus gags que uniam espaços e cenas. E, além disso, fez-me encontrar uma paixão pelas possibilidades da Sétima Arte que às vezes está meio adormecida. Ias gostar do Iñarritu, mas também do Linklater. Ias perceber a magia de captar a passagem do tempo na tela e aplaudir de pé, com aquele teu entusiasmo do tamanho do mundo. Ias ver na esquematização visual do Wes uma nostalgia pelo mundo expressivo do cinema mundo. E enternecer-te pela humanidade do Selma, tanto. E, às escondidas, ias rever o Whiplash e lembrar-te das orquestras que acompanhavam, no fosso dos teatros, os teus filmes.

Sabes, Charlie, o cinema lembra-me de ti. E das flores. Aquelas que são invisíveis aos olhos de tantos críticos por aí – cinéfilos e não só. Talvez um dia o teu discurso seja a única réstia de humanidade, guardada num arquivo qualquer. Espero que não. Pelo cinema. Por nós.

 

Clementine