Nomeados aos Prémios Sophia 2015

sophia

 

Sairam hoje as nomeações da Academia Portuguesa de Cinema para os prémios Sophia.

Anualmente, a Academia distingue as obras portuguesas que foram distribuidas comercialmente em Portugal, afim de incentivar e promover a continuação das Artes e Ciências Cinematográficas.

 

Seguem-se as nomeações:

Melhor Curta-Metragem Documentário

À Beira Da Europa de Bernardo Cabral

Le Boudin de Salomé Lamas

Luz Clara de Miguel Lima- O Meu Outro País De Solveig Nordlund

 

Melhor Curta-Metragem de Animação

20 Desenhos e Um Abraço de José Miguel Ribeiro

Canto dos 4 Caminhos de Nuno Amorim

Foi o Fio de Patrícia Figueiredo

Fuligem de David Doutel

 

Melhor Curta-Metragem de Ficção

Cinema de Rodrigo Areias

Coro dos Amantes de Tiago Guedes;

Encontradouro de Afonso Pimentel;

Miami De Simão Cayatte;

Os Sonâmbulos de Patrick Mendes;

 

Melhor Documentário em Longa – Metragem

Guerra ou Paz de Rui Simões – Real Ficção;

Fado Camané de Bruno de Almeida – BA Filmes;

E Agora? Lembra-me de Joaquim Pinto – C.R.I.M. Produções;

Alentejo Alentejo de Sérgio Tréfaut – Faux;

 

Melhor Canção Original

Fora da Lei versão rock, interpretado pelos Criança Queimada – Nirvana;

Unforgettable, letra e interpretação de Daniela Galbin – Pecado Fatal;

Clandestinos do Amor de Ana Moura – Os Gatos não têm Vertigens;

Seta de André Sardet e Mayra Andrade – Sei Lá;

 

Melhor Banda Sonora Original

Nuno Maló – Doce Amargo Amor;

Filipe Coutinho – Pecado Fatal;

Luís Cília – Os Gatos não têm Vertigens;

José M. Afonso – Sei Lá;

 

Melhor Som

Hugo Leitão e Branko Neskov – O Grande Kilapy;

Vasco Pedroso, Branko Neskov e Elsa Ferreira – Os Gatos não têm Vertigens;

Pedro Melo e Branko Neskov – Getúlio;

Jorge Saldanha – Os Maias;

 

Melhor Montagem

Rodrigo Pereira, Rui Alexandre Santos – A Vida Invisível;

Pedro Ribeiro – Os Gatos não têm Vertigens;

Pedro Ribeiro – Sei Lá;

João Braz – Os Maias;

 

Melhor Maquilhagem e Cabelos

Sano de Perpessac – O Grande Kilapy;

Susana Correia e Fátima Vieira – Os Gatos não têm Vertigens;

Iris Peleira, Mário Leal – Variações de Casanova;

Sano de Perpessac – Os Maias;

 

Melhor Guarda-Roupa

Teresa Campos – O Grande Kilapy;

Os Burgueses – Os Gatos não têm Vertigens;

Lucha d’Orey – Variações de Casanova;

Tânia Franco – Os Maias;

 

Melhor Caracterização / Efeitos especiais

Sano de Perpessac – O Grande Kilapy;

Sandra Pinto – Eclipse em Portugal;

Iris Peleira – Cadências Obstinadas;

Sano de Perpessac – Os Maias;

 

Melhor Direcção Artística

João Torres – O Grande Kilapy;

João Torres – Os Gatos não têm Vertigens;

Isabel Branco – Variações de Casanova;

Silvia Grabowski – Os Maias;

 

Melhor Direcção de Fotografia

Leonardo Simões – A Vida Invisível;

José António Loureiro – Os Gatos não têm Vertigens;

André Szankowski – Cadências Obstinadas;

João Ribeiro – Os Maias;

 

Melhor Argumento Original

Luís Alvarães e Luís Carlos Patraquim - O Grande Kilapy;

Vítor Gonçalves, Jorge Braz, Mónica Santana Baptista – A Vida Invisível;

Tiago Santos – Os Gatos não têm Vertigens;

Frederico Pombares, Henrique Dias e Roberto Pereira – Virados do Avesso;

 

Melhor Atriz Secundária

Fernanda Serrano – Os Gatos não têm Vertigens;

Maria João Pinho – Os Maias;

São José Correia – O Grande Kilapy;

Silvia Rizzo – O Grande Kilapy;

 

Melhor Ator Secundário

João Perry – Os Maias;

Manuel Wiborg – O Grande Kilapy;

Nicolau Breyner – Os Gatos não têm Vertigens;

Pedro Inês – Os Maias;

 

Melhor Realizador

Zézé Gamboa – O Grande Kilapy;

Vítor Gonçalves – A Vida Invisível;

António-Pedro Vasconcelos – Os Gatos não têm Vertigens;

João Botelho – Os Maias;

 

Melhor Atriz Principal

Leonor Seixas – Sei Lá;

Maria do Céu Guerra – Os Gatos não têm Vertigens;

Maria João Pinho – A Vida Invisível;

Sara Barros Leitão – Pecado Fatal;

 

Melhor Ator Principal

Filipe Duarte – A Vida Invisível;

Graciano Dias – Os Maias;

João Jesus – Os Gatos não têm Vertigens;

João Lagarto – O Grande Kilapy;

 

Melhor Filme

A Vida Invisível – Rosa Filmes

O Grande Kilapy – David&Golias

Os Gatos não têm Vertigens – MGN Filmes

Os Maias – Cenas da Vida Romântica – Ar de Filmes

 

*

A RTP2 irá transmitir a cerimónia de atribuição dos “Prémios Sophia 2015″, a partir do Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, marcada para dia 2 de Abril.

 

Ripley

Falta de verbas leva ao cancelamento do 31º Festroia

Festroia

Tem sido uma tradição nestes tempos de crise económica e financeira: o definhamento do sector cultural português. A vítima, agora, foi o Festival Internacional de Cinema de Tróia (Festroia).

Pela primeira vez desde 1985, este ano não haverá uma edição deste evento, devido à falta de verbas. Dos 200 mil euros que a organização precisa, apenas metade está garantido, um valor insuficiente para “fazer um festival digno”, esclarece Fernanda Silva, presidente da Associação Cultural Festroia, entidade responsável por organizar o certame. “Até aqui fomos conseguindo, mas agora não. Perdemos o apoio de fundos europeus, do [programa] Europa Criativa”, afirmou a responsável à Agência Lusa.

O festival de cinema, que se realiza na cidade de Setúbal (inicialmente, tinha lugar na península de Tróia), tornou-se conhecido, no panorama nacional, por exibir e colocar em competição filmes oriundos de países com uma baixa produção cinematográfica. O objectivo é o de dar a conhecer, ao público português, obras que estão fora do circuito mainstream e pouco conhecidas dentro de portas.

“Setúbal é uma região pobre, passa por dificuldades e a cultura também começa a levar pancada nesta zona”, dispara Fernanda Silva. “Dei o meu melhor e estarei por aqui, mas, infelizmente, é assim. De apoios privados o festival teve zero. Os apoios europeus também sofreram cortes e estão cada vez mais dificultados. São apoiados menos festivais portugueses e o Festroia, que recebia sempre o máximo, [75 mil euros], desta vez não teve apoio. Não se percebe”. A autarquia local e o Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA) contam-se entre os que estavam a apoiar a iniciativa.

Através de comunicado, a Câmara Municipal de Setúbal atira as culpas para o actual governo, afirmando que “lamenta, profundamente, a impossibilidade de realizar este certame em 2015, devido ao corte total de apoios financeiros do Estado”. Em sua defesa, a autarquia diz que, “ao longo dos 30 anos de vida do Festroia, sempre disponibilizou salas, transportes, instalações ou apoios à promoção e divulgação”. Desde 2002, acrescenta, “os apoios financeiros directos aprovados pela câmara municipal ascendem a 1.633.400 euros”. Contudo, frisa o comunicado, sozinha a autarquia é “incapaz de garantir todos os meios financeiros necessários à concretização do festival”.

 

{Morpheus}

Será Iñárritu a quebrar o “enguiço”?

Eu, fã do Leonardo DiCaprio, me confesso: todos os anos, por esta altura, gosto de acreditar que é na edição seguinte dos Óscares que ele leva a famigerada estatueta. No fundo, e embora se diga que o Óscar “vale o que vale”, a verdade é que há muito que nós, fãs do Leo, torcemos pela sua vitória. Então o objectivo não é premiar os melhores?

Com um total de quatro nomeações nas categorias de interpretação (três como principal), Leonardo nunca conseguiu vencer e, noutras interpretações de luxo, nem sequer foi nomeado. Entre 2007 e 2014 não teve mesmo qualquer indicação ao Óscar, o que é de estranhar quando encontramos, nesse mesmo período, as suas actuações em “Revolutionary Road” (2008), “Shutter Island” (2010), “Inception” (2010) ou “Django Unchained” (2012). Entretanto a “injustiça” ganhou eco, muito graças à internet, e quase todos os anos se recorda a ausência de uma estatueta na casa de Leo.

Depois da nomeação para melhor actor por “The Wolf of Wall Street”, há um ano, Leo esteve ausente das salas de cinema. Continuámos a ouvir falar dele: pelas inúmeras causas humanitárias que apoia, pela produção de filmes (exemplo disso é o documentário “Virunga”, que esteve entre os indicados deste ano, tendo perdido para “Citizenfour”) e através das habituais “cusquices”. No próximo ano está de volta, e logo pela mão do grande vencedor do último domingo: Alejando Iñárritu.

the-revenant-image-leonardo-dicaprio-alejandro-gonzalez-inarritu-600x391

Apesar de não ser regra geral, as figuras dos principais filmes vencedores de uma edição dos Óscares repetem muitas vezes a presença com o trabalho seguinte, seja os próprios oscarizados ou outros actores com os quais os realizadores dos filmes premiados (nas diferentes categorias) trabalham de seguida. Foi o caso, recentemente, de Tom Hooper (“The King’s Speech” e “Les Misérables”), Jean-Marc Vallé (“Dallas Buyers Club” e “Wild”) ou Stephen Daldry (“The Reader” e “Extremely Loud & Incredibly Close”). Como tal, não é tão descabido quanto isso antever desde já uma possível nomeação do Leo ou o “bis” do próprio Iñarritu.

No início do ano, a propósito da “revelação” Domhnall Gleeson, falei-vos de “The Revenant”, um filme realizado pelo Alejandro e protagonizado pelo Leonardo, com estreia marcada para Janeiro do próximo ano. A história é baseada em factos verídicos: e DiCaprio segue na linha da frente como Hugh Glass, um caçador de peles norte-americano do início do século XIX. Na edição deste ano, Eddie Redmayne venceu ao dar vida a Stephen Hawking, em “The Theory of Everything”. E, viajando pelas categorias principais de representação, depressa encontramos mais vencedores por biografias: Daniel Day-Lewis (2012), Meryl Streep (2011), Colin Firth (2010) e Sandra Bullock (2009), entre muitos outros. Curiosamente, no ano em que Daniel venceu, Leonardo foi J. Edgar Hoover, mas só conseguiu uma nomeação para os Globos de Ouro.the-revenant-image-leonardo-dicaprio

Continuando a desafiar-se, Alejandro Iñárritu deslocou as gravações do citadino St. James Theatre (Nova Iorque), onde filmou  “Birdman”, para uma parte remota de Calgary, no Canadá, em pleno Inverno. Segundo a EW, Iñarritu está a filmar apenas com luz natural e em zonas não “invadidas” pela humanidade (bem, até agora), sendo que, como há poucas horas nessas condições diariamente, as gravações vão prolongar-se, pelo menos, até Abril. Já sobre Leonardo, Alejandro disse que “é um actor corajoso e incrível. Estou muito surpreendido com o quão bom ele é. Acho que consigo ver uma compressão profunda da humanidade através dos olhos dele”.

“The Revenant” conta a história de vingança de Hugh Glass… Será esta também a história de vingança de Leonardo DiCaprio? Daqui a cerca de um ano saberemos.

[Sophie Kowalsky]

Crítica – “Big Eyes”

Big-Eyes-2014-Movie-Poster-HD-Wallpaper

O novo filme de Tim Burton é algo muito diferente do que ele tem vindo a fazer. Depois de “Alice in Wonderland” e “Dark Shadows” não terem deixado a crítica e o público satisfeitos, eis que o realizador volta a uma vertente íntima, mas, ainda assim, característica do seu estilo.

Em “Big Eyes”, vemos adaptada a história de Margaret Keane (Amy Adams), a mulher que pintou as famosas crianças de olhos grandes. Após ter-se casado com Walter Keane (Christoph Waltz), este começa a tomar crédito pelas obras de Margaret, dando a cara como seu autor.

Burton e “Big Eyes” são uma composição perfeita. Ele é, sem dúvida o realizador adequado para este enredo. É como se os quadros pudessem ser seus, também, como se tivessem a sua marca. E Burton, para grande alívio de todos, tem um bom desempenho em contar esta história, enquanto deixa a sua marca característica.

Amy Adams, como sempre, é uma força da natureza. Na pele da ingénua, talentosa e inteligente Margaret Keane, Adams tem uma performance à altura, de uma verosimilhança enorme. Christoph Waltz, como Walter Keane, tem tanto de excelente, como de exagerado. Começando meigo e gentil, Walter transforma-se, aos poucos, num frustrado. Apesar de esta transformação estar bem conseguida, alguns momentos pouco realistas do argumento impedem que seja um retrato com o qual possamos criar empatia.

No fim de contas, “Big Eyes” acaba por se tornar um filme bom, mas pouco memorável, com uma história de triunfo e justiça que não nos deixa nada de novo. Ainda assim, vale muito a pena e é mais um ponto forte no currículo de todos os envolvidos, especialmente no de Burton.

Nota: 7/10

◉ HAL 9000 ◉

“Mise-en-Scène” – Entrevista com Manuel Mozos

1350320147141

Ontem, a convite do Cineclube de Tomar esteve nesta cidade o realizador MANUEL MOZOS. O realizador é natural de Lisboa e aí tirou o curso de cinema, na Escola Superior de Teatro e Cinema. Desde, então, tem feito vários trabalhos na área da montagem, argumento e realização.
O seu mais recente filme intitula-se “João Bénard da Costa – Outros Amarão as Coisas que eu Amei” (2014) e foi o filme em exibição no fim de tarde de terça-feira, no Cine Teatro Paraíso. O documentário fala-nos de João Bénard da Costa, um dedicado cinéfilo, que sempre amou, preservou e divulgou a arte do cinema, sendo inclusive director da Cinemateca entre 1991 e 2009. O filme recorre a imagens e fotografias de vários filmes icónicos para fazer uma reflexão sobre a vida de João Bénard da Costa, que é transversal à história do cinema. Esta película é, também, uma reflexão profunda sobre a vida e a morte, temática bem patente no cinema e que inquieta a realidade da vida de todos nós. O amor transcendente é outra marca forte desta película e a montagem dos diferentes trechos é absolutamente notável, pois o que poderia ser uma espécie de manta de retalhos de filmes, transforma-se numa história coerente e de temática pertinente, com banda sonora a condizer.

No final da exibição Manuel Mozos disponibilizou-se para responder a questões dos espectadores, que não eram muitos naquele frio final de tarde, mas estavam empenhados em desfrutar da arte que é o cinema. Não havendo questões por parte dos presentes foi a vez da “Mise-en-Scène” resgatar um pouco do tempo do realizador para responder a algumas questões.

Mise-en-Scène (MS): O filme transparece que ama as coisas que João Bénard da Costa amou, o cinema. Como começou esta paixão?

Manuel Mozos (MM): Esta é uma paixão que surgiu bastante cedo na minha vida, muito por influência da minha mãe, com quem ia ao cinema diversas vezes e ela própria interessava-se bastante por esta arte. Durante a juventude continuei a ir frequentemente ao cinema, como distracção, pois sou de uma época em que existia cinema em sala, como já não se vê. O facto de viver em Lisboa, também, facilitava, pois permitia-me acesso a várias salas e a
diferentes ciclos de cinema. À medida que fui vendo mais, também me fui interessando mais e tive a oportunidade de ler muito sobre cinema e o meu gosto e conhecimentos na área foram sempre crescendo. Depois naturalmente
veio o curso e hoje agarro profissionalmente esta arte.

MS: Profissionalmente dedica-se essencialmente a cinema de autor. Gosta de cinema comercial? É um espectador assíduo das salas de cinema?

MM: Sim, assisto a filmes comerciais, por várias razões: por me interessar particularmente por aquele filme ou por ter um actor que aprecio no seu elenco, mas raramente vou ao cinema, acabo por assistir noutros formatos.

MS: Acompanhou esta edição dos Óscares e qual os seus favoritos?
MM: Não, ainda não vi nenhum dos filmes dos Óscares.

MS: Quais os filmes que são para si uma referência?

MM: São tantos! Todos aqueles que utilizo neste filme (“João Bénard da Costa– Outros Amarão as Coisas Que eu Amei”) e tantos, tantos outros. “The Ghost and Mrs. Muir” que aparece neste filme é um filme fantástico. Os trabalhos de Fritz Lang e tantas outras coisas. Há até filmes que não considero que me marcaram, mas na altura em que os vi aprendi algo com eles, ao fim ao cabo também deixaram a sua marca. Até com os filmes “foleiros” podemos aprender.

MS: Um conselho para os jovens que pretendam seguir uma carreira nesta área?
MM: Vejam filmes! Vejam o máximo de filmes que consigam, se possível em sala, pois só a ver é que se conseguem começar a aperceber do que é bom e mau. Hoje em dia surgem outros formatos como o DVD e a possibilidade de
assistir na internet, que não são formatos tão favoráveis, mas que têm a vantagem de permitir o acesso a quem de outra forma não o teria.

MS: Por fim, fale-nos desta vinda a Tomar.

MM: Em primeiro lugar vim pelo convite. No entanto, vim porque gosto muito desta sala e gosto muito da cidade de Tomar, com a qual tenho algumas raízes e na minha infância e juventude passei muitas férias nesta cidade, pois tenho familiares que têm casa na região
Para finalizar a “Mise-en-Scène” agradece a Manuel Mozos a simpatia e disponibilidade em conceder esta entrevista e ao Cineclube de Tomar por continuar a dinamizar e divulgar o cinema, arte tão esquecida na cidade.

[Amélie Poulain]

Mas afinal onde andam os Óscares Lego?

Nathan Sawaya, foi o artista que desenhou os Óscares de Lego para a performance da música Eveything Is Awesome, no passado dia 22 no Dolby Theatre.

Várias foram as celebridades que acabaram por ficar com estas peças, mas curiosamente temos uma que nem esteve na cerimónia…

Sawaya confirmou que 12 pessoas levaram para sua casa a estatueta:

  • Neil Patrick Harris (prémio de consolação?)
  • Oprah
  • Steve Carell
  • Emma Stone (que o mostrou orgulhosamente sempre que podia)
  • Meryl Streep
  • Clint Eastwood
  • Bradley Cooper
  • Channing Tatum
  • Eddie Redmayne (não se contentou com o verdadeiro)
  • Felicity Jones
  • Beyonce (whaaaat?)

Beyonce foi a única que não esteve presente na cerimónia e, por isso, calcula-se que tenha estado em contacto com estes Óscares na After Party da Vanity Fair.

Entretanto surgiram mais dois nomes, ainda não confirmados, que possam ter a peça de Lego em casa, são elas Lady Gaga e Kerry Washington.

 

 

Ripley

[Óscares 2015 – Melhor Filme] [Parte 2]

rggve

Está quase, quase a chegar o momento da cerimónia, mas ainda temos tempo para relembrar os últimos quatro candidatos à estatueta mais cobiçada da noite.

Como sempre, hão favoritos: os apostadores estão a colocar as fichas em dois nomes, «Boyhood» e «Birdman». Destaque para «Whiplash», filme sensação de Damien Chazelle, e «Selma», que merecia mais atenção por parte do júri da Academia.

Mas quem vencerá? As certezas, essas, não existem. Nada melhor do que vermos por nós mesmos, daqui a alguns instantes. Mas antes, recordemos os últimos quatro títulos:

«O Jogo da Imitação»
«Sniper Americano»
«Boyhood – Momentos de Uma Vida»
«Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)»

SHOT_11_029__3092453b

«O Jogo da Imitação»: Enigmas do passado

O norueguês Morten Tyldum realiza “The Imitation Game”, adaptação das vivências do matemático Alan Turing, enquanto procura decifrar o código alemão e ajudar os Aliados a vencerem a Segunda Guerra Mundial.

Benedict Cumberbatch presenteia o mundo com mais uma performance brilhante, emocionante e pensada, nunca transparecendo o facto de ser uma actuação. É ele, essencialmente, quem nos transporta para os acontecimentos e quem cria a empatia que, eventualmente, sentimos pela personagem, por mais reservado que seja. Também Keira Knightley tem um desempenho notável, o que conduz as suas cenas com Cumberbatch a elevar o filme a um outro nível. A ironia, em “The Imitation Game”, é que se trata do retrato cinematográfico de um matemático que, por vezes, é demasiado calculado: o argumento parece, em determinados momentos, tirar o fôlego às personagens, com frases inteiras a serem repetidas duas e três vezes, ao longo do filme, com a finalidade de sublinhar temas anteriormente falados.

A verdadeira força de “The Imitation Game” está no desenlace do seu protagonista e nos meios que o antecedem. Tal como em “Selma”, procurou-se criar o contraste entre as mentes do passado e as do presente. Enquanto no filme de DuVernay é retratada a falsa superioridade racial, no de Tyldum está patente um outro grito de liberdade, voltado para a orientação sexual.

Apesar desse forte, não é preciso nenhuma máquina para decifrar que este não deverá ser o vencedor da noite. No entanto, isso não lhe tira o mérito de ser o filme que é.

american-sniper-movie-chris-kyle-bradley-cooper-wallpaper

«Sniper Americano»: Bala perdida

Uma das grandes surpresas aquando das nomeações aos Óscares 2015 foi a presença de “American Sniper” em 6 categorias. O filme de Clint Eastwood dividiu opiniões, em algumas vertentes, desde estar envolto em clichés até perder-se da sua questão central: o retrato de um herói danificado pela guerra.

Algo que é certo é a performance de Bradley Cooper estar entre o melhor que o filme tem para oferecer. Mais uma vez, o actor traz vivacidade a uma personagem e, neste caso, era fácil cair no ridículo, em determinados momentos. Infelizmente, isso até chegou a acontecer. Já Eastwood prova, mais uma vez, que não perdeu a força e mostra-se assertivo na realização, recheando estas mais de duas horas com momentos intensos, de tirar o fôlego.

“American Sniper” funciona, acima de tudo, como um bom filme de guerra, mas como uma introspectiva de uma personagem, torna-se vulgar. Por essa razão, o Óscar será, provavelmente, um tiro no escuro.

boyhood_wallpaper_7

«Boyhood – Momentos de Uma Vida»: Pequeno grande filme

“Boyhood” é um dos filmes mais ambiciosos do lote deste ano. Durante 12 anos, Richard Linklater e a sua equipa filmaram o crescimento e envelhecimento das personagens (e, claro, do próprio elenco), resultando em algo nunca antes visto no cinema.

Podemos objectar que Truffaut teve a mesma ideia, nos anos 50, quando criou “Les Quatre Cents Coups” (e os filmes que lhe seguiram). No entanto, o que Linklater assume como finalidade é diferente. Ao longo dos 12 anos supracitados, não houve um enredo a ser filmado, mas “o” enredo. Foi a própria vida a ser narrada. E se há algo especial e único, neste filme, é isso.

Numa era do cinema em que tudo o que vemos são filmes com histórias e universos complexos e personagens extraordinárias, surge “Boyhood”, para ir contra tudo (ou quase tudo) o que é norma. O realizador traz-nos uma narrativa fora do vulgar, com personagens normais, com características dentro do nosso espectro e com as quais criamos empatia desde o primeiro momento. A partir daí, vemos vidas regulares, com as suas distracções e contratempos, num crescendo, até concluirmos em grande nota: a vida é feita de momentos e só nos apercebemos que não os podemos agarrar quando todos eles são apenas memórias. E não há uma única pessoa que não se identifique com essa realidade.

“Boyhood” é uma análise da condição humana, num conceito simplista e numa concepção colossal, apoiando-se em altos níveis de verossimilhança. Por isso, é também um dos mais fortes títulos desta categoria.

birdman-movie-review-19a22fb4-8c36-4394-b641-e1a0f785b3f9

«Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância»: O céu é o limite

“Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance)” é a história de Riggan, um actor que, desde que deixou de interpretar o super-herói do título no cinema, nunca mais teve sucesso na sua carreira. Agora, Riggan pretende mudar isso com uma peça, na Broadway, que ele próprio escreveu, encenou e protagoniza.

Tudo neste filme é extraordinário, desde o argumento até às performances e à realização. É uma sátira ao mundo do show business, com alguns dos diálogos mais memoráveis do ano. É bem mais do que isso. Quando vi o filme de Alejandro Iñárritu, lembrei-me de um filme com contornos muito semelhantes – “Black Swan” –, mas embora as motivações das personagens sejam as mesmas, a execução e a finalidade são completamente diferentes, tornando “Birdman” bastante mais notável. Este não é um filme sobre um homem obcecado no seu trabalho e na perfeição, é um homem que sabe que consegue fazer mais do que os outros conseguem ver e, por isso, quer ser reconhecido pelo seu público, mas, acima de tudo, pela sua família.

Tal como Iñárritu nos veio a habituar, é trabalhado com dedicação e isso é bem visível. Quando vemos o quão bem moldados estão o aspecto criativo com o aspecto estrutural e técnico do filme, ao ponto de se unirem em prol da narrativa, assistimos a algo especial. E é nesse momento que nos apercebemos que “Birdman” conseguiu que olhássemos para cima, para ele, como o grande filme que é. Será este o vencedor? A resposta é um “talvez” a tender para o “sim”.

Óscares 2015 – Melhor Filme [Parte 1)

MelhorFilmeParte1

“And the Oscar goes to…”

Calma, ainda falta um bocadinho para aí chegarmos, primeiro ainda temos o tapete vermelho e a feira de vaidades que por aí vai passar.

Antes de se abrir os envelopes, façamos uma retrospectiva dos oito candidatos à estatueta de melhor filme. É difícil encontrar um fio condutor que a todos ligue, dada a diferença de histórias e de estilos que este ano foram atirados à liça. De destacar, contudo, a presença de duas longas-metragens que colocam a ciência (neste caso dois cientistas) no centro: uma autêntica raridade por parte de Hollywood. Contudo, os apostadores estão a colocar as fichas em dois nomes, «Boyhood» e «Birdman». Destaque para «Whiplash», filme sensação de Damien Chazelle, e «Selma», que merecia mais atenção por parte do júri da Academia.

Mas vamos por partes e fiquemos com os primeiros quatro candidatos:

«Whiplash – Nos Limites»
«Selma – A Marcha da Liberdade»
«The Grand Budapest Hotel»
«A Teoria de Tudo»

A1«Whiplash»: Ao som do chicote

Com um orçamento de 2,9 milhões de euros, Damien Chazelle (apenas 30 anos) realizou e escreveu «Whiplash – Nos Limites», porventura um dos melhores filmes do ano transacto e um digno candidato ao Óscar de Melhor Filme.

Muito se fala do desempenho de J. K. Simmons, no papel de um professor de jazz autoritário e sociopata. A insensibilidade e bruteza com que trata os seus alunos, uma elite de jovens músicos, choca de frente com o que se esperaria de um qualquer mestre ou pedagogo: o seu desejo, único, é o de “criar” uma estrela do jazz igual a Charlie Parker, nem que para isso tenho cruzar todas as linhas vermelhas.

Estranha a relação que depois se cria entre professor e o seu novo aluno (personificado pela boa surpresa que é o actor Miles Teller), um pretendente a baterista que pretende ser o próximo Buddy Rich. É impossível definir o carrossel de sentimentos que vão surgindo e desaparecendo, pois nunca sabemos se há desprezo, ódio, respeito ou admiração.

Questão essencial: até que ponto estamos dispostos a humilhar-nos para sermos o melhor? Até onde pode ir o abuso psicológico com o pretexto de que se procura a perfeição? Mais do que apontar o dedo a uma tenebrosa figura, devemos é perguntar porque deixamos que sejam elas a nos submeter. E, no fim, terá valido a pena?

Ao longo do enredo, os acontecimentos sucedem-se como numa peça improvisada de jazz, e, quando o filme parece acabar, vemos que só agora começou… puro jazz! Um hino ao que de melhor o cinema pode conseguir.

B1«Selma»: Foi só há 50 anos

Um filme sobre uma das grandes figuras do século XX. «Selma – A Marcha da Liberdade», realizado por Ava DuVernay com base no argumento de Paul Webb, tem na interpretação de David Oyelowo (no papel de Martin Luther King) a sua principal âncora. Viagem no tempo a uma América proibida (1965) em que um simples cidadão, devido à cor da sua pele, vê-lhe obstruída a possibilidade de se registar nos cadernos eleitorais.

Mas engane-se quem pensa que «Selma» mais não é do que outra longa-metragem sobre o Movimento pelos Direitos Civis dos Afro-Americanos. DuVernay imprimiu neste drama histórico (uma história de bastidores) o seu cunho pessoal, visível na forma crua como reconstitui a extrema violência que se abateu sobre as manifestações pacíficas da década de 1960. Cada corpo brutalizado, cada vida retirada, é-nos mostrada como um momento que se eterniza no tempo, uma sequência de imagens em slow-motion do pior que o ser humano consegue fazer em nome de uma abstracta ideia de superioridade racial.

Tudo isto é depois colocado em contraste com os discursos de paz, esperança e resistência de King, com um magnífico David Oyelowo a emular, na perfeição, a força e o efeito hipnótico de uma voz cheia autoridade moral. É difícil compreender porque não foi o actor inglês nomeado para a categoria de Melhor Actor Principal.

Independentemente de qualquer nomeação ou prémio, «Selma» é um dos grandes títulos de 2014, um retrato bem pintado (não é uma mera reconstituição) de um momento histórico que tem de ficar na nossa memória colectiva. Mas depois de «12 Anos Escravo», no ano passado, ninguém acredita que o júri da Academia dirija a sua atenção para o mesma tema. É lamentável que assim seja.

C1«The Grand Budapest Hotel»: Bem-vindo ao clube de Hollywood

«The Grand Budapest Hotel» poderá não ser o melhor que Wes Anderson já fez, mas foi esta longa-metragem que trouxe o realizador texano para o regaço de Hollywood: as portas do clube foram-lhe finalmente abertas.

A estética de Wes Anderson é artística, cheia de técnica e muito complexa, pelo que não chega a todos. Com isto não se quer dizer que existe uma plebe de espectadores (termo horrível de se usar) incapaz de perceber a dimensão da sua obra: trata-se, pura e simplesmente, de uma mera questão de gosto.

Neste filme candidato ao Óscar de Melhor Filme encontramos todo o cardápio que o realizador tem vindo a oferecer ao longo dos últimos anos: os constantes travellings com a câmara; o afã por arranjos/cenários simétricos; ou, ainda, o recurso a padrões e cores aguerridas. Junte-se uma história que, claramente, não está ali para enfeitar. O tempo em que tudo decorre é algures no passado, sem data definida, o ideal para gerar o sentimento que o norte-americano tanto gosta de explorar: a nostalgia!

O Grand Budapest Hotel incorpora essa nostalgia, o edifício enquanto último bastião de civilização num mundo que está prestes a cair na barbárie, embora possamos ver as coisas por outro prisma: tudo se transforma, nada fica igual.

Uma obra-prima, mas a nomeação mais não é do que uma forma de reconhecimento.

D1«A teoria de Tudo»: Na sombra do génio

Stephen Hawking é um dos físicos teóricos mais badalados da era moderna. «A teoria de Tudo», realizado por James Marsh, à primeira vista parece ser uma homenagem a este homem da ciência e a todos os que enfrentam a doença de Lou Gehrig (a esclerose lateral amiotrófica). Ilusão.

Na verdade, o argumento baseia-se no livro «Travelling to Infinity: My Life with Stephen», escrito por Jane Wilde Hawking, e descreve o relacionamento que esta teve com o cosmólogo: estiveram casados durante 25 anos, separando-se em 1990. Quando a longa-metragem de Marsh parece sentenciada a fixar-se na personagem de Stephen, explorando a forma como a doença afectou a sua vida e carreira, eis que o centro de gravidade de toda a história desloca-se por inteiro para Jane, a jovem esposa que parece condenada a servir o marido inválido. Com o passar dos anos, esta viu-se enredada num processo de anulação pessoal que aumentava, em proporção, com a fama do seu companheiro. Uma história que tem o ponto forte de mostrar o outro lado da barricada, de quem se deixa desaparecer debaixo da sombra do génio.

O epicentro está, portanto em Jane, num papel sobriamente interpretado por Felicity Jones. Contudo, é ao actor Eddie Redmayne que se tem de dar todo o protagonismo, tal a forma irrepreensível como fisicamente consegue reencarnar Stephen Hawking.

Um filme comovente que todos deveríamos ver, mas muito longe de chegar aos calcanhares dos melhores, pois exigia-se que a personagem de Jane, a sua luta interior, fosse melhor explorada.

 

{Morpheus}

[Óscares 2015 – Melhor Realizador]

Nesta que é uma das categorias mais enevoadas da noite, o duelo faz-se entre “Boyhood”, o projecto de uma vida de Richard Linklater, e “Birdman”, a esquizofrenia de mestria técnica e realismo mágico de Alejandro Iñarritu. No fundo, trata-se de uma disputa entre a plasticidade do tempo e a rigidez da técnica, na qual é praticamente impossível apontar vencedores antecipados. #TeamBirdman ou #teamBoyhood, qual a vossa preferência? Ou preferem esperar uma surpresa improvável dos restantes três nomeados: Wes Anderson, por “The Grand Budapest Hotel”, Morten Tyldum, por “The Imitation Game” ou Bennett Miller, por “Foxcatcher”? Sem Título O que é, afinal, uma realização de excelência? Esta é a raiz do ‘problema’ que os membros da Academia de Hollywood tiveram que resolver, para atribuir a ‘cruzinha’ final ao realizador do ano. A pergunta parece básica, ingénua até, mas é exactamente na sua resposta que reside o desempate entre Linklater e Iñarritu. Premeia-se um conceito arrojado, inovador, despojado de pretensões e laivos barrocos, que consiste na filmagem de uma história ao longo de 12 anos, com os mesmos actores? Ou distingue-se uma execução também esta arrojada, cuja mestria técnica recorre a um (falso) plano-sequência em permanência que acrescenta novas leituras (novos sentidos, diferentes problematizações) à narrativa que se desenrola à frente dos nossos olhos? É que esta é, exactamente, a diferença entre a realização de “Boyhood” e “Birdman” e a escolha de uma em detrimento da outra nunca poderá ser, por estes motivos, imediata e leviana.

Comecemos por “Birdman”. O cineasta mexicano escreveu o argumento sobre um artista de Hollywood caído no esquecimento, que vê numa peça de teatro – escrita, dirigida e representada por ele – a forma de demonstrar que não é irrelevante. Em paralelo, o herói que uma vez representou para o cinema, “Birdman”, surge como uma espécie de alter-ego imaginário, grito-falante do mundo do showbiz. Para adornar tudo, Iñarritu vai beber às origens sul-americanas o traço inconfundível do realismo mágico que, na literatura de Gabriel García Márquez por exemplo, transporta o impossível para o perfeitamente possível e aceitável, raramente questionado. É o carácter mágico que entra como realidade do todos os dias, abrindo novas leituras, possibilidades e metáforas sócio-culturais. Em “Birdman”, o realismo mágico abandona a América Latina, segue viagem para Nova Iorque e, em vez de desabrochar no seio de um vilarejo mexicano, transfigura-se num homem vestido de pássaro, num teatro da Broadway. Como tornar isto possível? Pelo mérito da realização, pois claro. Realizacao 1 O filme deambula, na sua grande maioria, por um (falso) plano-sequência quase perfeito. A rigidez técnica é evidente – só uma verdadeira ‘coreografia’ mecânica de actores, câmara, argumento e cenário tornaria possível este resultado final –, mas não é por aí que prazer estético do filme se perde. Afinal, como se conseguira alcançar o mais belo dos bailados sem uma exigência quase-doentia na preparação técnica? É mais ou menos isto que se passa em “Birdman”. A câmara esquizofrénica, nunca parada, oferece-nos uma maior expressividade dos actores, em cada passo do argumento, captando as suas imperfeições ao perto, rugas, desespero no olhar. Nada é delico-doce ou morno, tudo é expressivo, tudo é espectáculo. Até porque, afinal, não é este um filme sobre o showbiz, que usa a realidade como meta-referência interminável numa narrativa que é, ela própria, fantasiosa na sua essência. “Birdman” está, aliás, assente nestas várias camadas, muitas vezes antitéticas, que vale a pena descascar e dissecar.

A realização é, neste caso, mais uma destas camadas. O plano-sequência reforça o realismo mágico e dá novas leituras ao pessimismo e espiral decrescente de Riggan. Afinal, vemos uma sequência em câmara que é nitidamente impossível de ser real: passam-se vários dias, mas a sequência não pára. Não será este impossível tornado possível mais uma das linhas do realismo mágico? Além disso, a inconstância da câmara reflecte o olhar da personagem, assim como as constantes ilusões visuais e auditivas continuamente desconstruídas. Ao ponto de, com estas escolhas do realizador, se tornar praticamente impossível alcançar perspectivas consensuais sobre o que se passa na narrativa. Real (na sua irrealidade), esquizofrenia de Riggan, alegoria fechada em si própria? Em “Birdman” nada é adquirido, num jogo intrincado difícil de desmontar. E essa foi a mestria de Iñarritu, dificilmente ultrapassada nos últimos tempos, ao nível da execução e contribuição da realização para a narrativa.

Vidas simples, vidas complexas
Estranhamente, e tal como Iñarritu, também Linklater nos dá uma ‘magia real’ em “Boyhood”, desta vez assente em pedaços de vida quotidiana, despojados de dispositivos cinematográficos ruidosos. Goste-se ou não do estilo easy-going e não-disruptivo do realizador norte-americano, o conceito por detrás de “Boyhood” resulta num marco do cinema ocidental. Linklater fez um filme durante 12 anos, recorrendo aos mesmos actores, num argumento que, de tão descomplexo, parece uma improvisação da “vida como ela é”, parafraseando umas das frases mais frequentemente associadas a “Boyhood”. Realizacao 2 Olhando puramente para a execução do conceito, a realização não se destaca. O trabalho de câmara é discreto, cumpre os mínimos e daí não passa. Talvez, lá está, para não perturbar aqueles vislumbres da passagem normal do tempo numa família texana, deixando o protagonismo para a interpretação dos actores. Contudo, mais do que planos e montagem, a materialização dos passar dos anos traz algo de mágico a “Boyhood”. E o argumento, que poderia ser convencional, transforma-se numa reflexão sobre a vida humana no tempo, sobre o crescimento, sobre os rituais de passagem à vida adulta de cada um de nós.

Há que admirar a visão coerente de Linklater. Ao longo de 12 anos, quais serão as marcas para mais tarde recordar? Que diálogos escrever que façam sentido, tantos anos depois? Que assuntos da realidade abordar, para nos dar aquele doce nostalgia e lembrança do que ficou para trás? A escolha recaiu, sobretudo, em assuntos políticos (11 de Setembro, Bush, Obama) e culturais (Star Wars, Twillight), mas todas as conversas postas em cena fazem sentido no presente em que as vemos. O que, admitamos, resulta da visão global, coerência e escolhas do realizador. Até porque, ao final de quase três horas de filme, o que sentimos é que a película forma um bloco homogéneo. A cara de Mason muda – e muito – da criança adorável ao jovem adulto que chega à universidade, mas a tela que dá vida àquela narrativa permanece imutável, igual a si própria, com os mesmos tons e cores. Uma tarefa hercúlea, passada com distinção, por Richard Linklater. Mesmo que, em termos de argumento, a frase proferida por Patricia Arquette, como mãe de Mason, faça todo o sentido: “I just thought there would be more”.

O mundo próprio de Wes Anderson
Há algo que Wes Anderson se pode orgulhar: a sua marca como realizador é tão forte que não passa despercebida a nenhum conhecedor de cinema. Um filme de Wes Anderson é inegavelmente um filme de Wes Anderson, passe a redundância. E porquê? Porque o cineasta norte-americano dá vida a um universo muito próprio, cheio de elementos altamente estilizados, de cores fortes, em cenários exóticos, mas cujo desenho acaba por ser calculado geometricamente ao milímetro. Nada é deixado ao acaso em “The Grand Budapest Hotel”, em que o espaço conceptual serve de contraponto à excentricidade das personagens. Afinal, o não-convencional reina num filme de Wes Anderson e o melhor, como espectadores, é deixarmo-nos sucumbir à lógica própria deste mundo de cuja porta só o realizador tem a chave. REalizacao 3 Em “The Grand Budapest Hotel”, a narrativa evolui de forma fácil, muito embora sejamos frequentemente distraídos pela disposição cénica teatral. Os amplos espaços, contrastando com a pequena dimensão da figura humana, o geometria dos elementos em cena e os pormenores presentes em plano de fundo, que acrescentam, ironizam e desmontam o que seria mais óbvio. Neste ano que poderia ser de consagração para Wes Anderson em Hollywood, como prémio pela obsessão visual que dedica a cada cenário e plano, a verdade é que muito dificilmente o excêntrico (no melhor dos sentidos) realizador sairá vencedor desta categoria, tal é o peso da concorrência de Iñarritu e Linklater. Esperemos que, num futuro filme, o mundo conceptual de Wes Anderson possa levar para casa um merecido prémio de realização.

Realizar o mecânico, de forma banal
Num ano de realizações de excelência, inovadoras e que representam autênticos ‘saltos de fé’ por parte dos seus cineastas, a nomeação de Morten Tyldum surge envolta numa camada compreensiva de espanto. Afinal, o filme sobre a vida de Alan Turing tem um trabalho de realização banal e discreto, apenas entrecortado pelo destaque dado à expressividade de Benedict Cumberbatch que, verdade seja dita, é mais mérito do actor do que do realizador de “The Imitation Game”. Nesta estreia do realizador norueguês entre os nomeados de Melhor Realizador são, portanto, poucas (ou nenhumas) as hipóteses de arrecadar a estatueta dourada. E, apesar do desafio em conseguir realizar um filme à volta da construção de uma máquina, a verdade é que Turing exigia mais. Mais emoção, mais estética, mais audácia na realização e, no geral, um melhor filme. Realizacao 4 Jogar pelo seguro vale nomeação?

Nove anos depois da nomeação por “Capote” (2005), Bennett Miller volta a estar na luta pela estatueta de Melhor Realizador. E se as indicações de Steve Carell e Mark Ruffalo foram, na generalidade, bem recebidas, a presença do realizador da biografia “Foxcatcher” na elite deste ano tem levantado muitas críticas. Que mais não seja pelas ausências quase “escandalosas” na lista final, como por exemplo, Ava DuVernay (“Selma”), David Fincher (“Gone Girl”) e Damien Chazelle (“Whiplash”).

Entre momentos de tensão psicológica e treino/combate, Bennett Miller procura ser uma “janela” da acção ao invés de, como seria potenciado por outro tipo de movimentos técnicos, influenciar a nossa posição perante a mesma. A “invasão” do espaço da personagem acontece apenas para realçar as suas emoções, nomeadamente o sofrimento silencioso do wrestler Mark Schultz; opção que leva o espectador a manter-se a uma distância (quase sempre) “segura” dos acontecimentos. É o trio principal, composto por Steve, Mark e Channing Tatum, que “ameaça” transportar o filme para outro nível mas, muito por “culpa” da referida “inércia” de Bennett Miller atrás da câmara, esse pulo qualitativo nunca acontece. Pela segunda vez, e porque a disputa será a dois, o realizador vai sair do Kodak Theatre sem o Óscar, sendo que, apesar das cinco nomeações de “Foxcatcher”, é possível que o filme não arremate nenhum deles. Realizacao 5
E o Óscar vai (provavelmente) para: Alejandro Iñarritu ou Richard Linklater – as probabilidades estão ‘taco a taco’, este ano.
Também não ficaria mal entregue a:
Wes Anderson
Até batíamos palmas se: Iñarritu fosse o grande vencedor da noite, premiando o arrojo na execução conceptual mostrada em Birdman.

[Uma co-produção] Clementine & Sophie Kowalsky

[Óscares 2015 – Melhor Actriz Principal]

0 MontagemFinal

Este foi um ano bastante produtivo no que toca à qualidade das performances de todas as nomeadas desta categoria. Os desempenhos foram profundamente emocionais, fortes e sólidas. Temos nomeadas pela primeira vez e outras que já há algum tempo, vêem a estatueta passar à frente. Conheçamos então as nomeadas e exploremos um pouco do trabalho feito este ano.

As nomeadas são:

  • Marion Cotillard, Two Days, One Night
  • Felicity Jones, The Theory of Everything
  • Julianne Moore, Still Alice
  • Rosamund Pike, Gone Girl
  • Reese Witherspoon, Wild

*

Marion Cotillard, "Two Days One Night"

Marion Cotillard, “Two Days One Night”

 

Numa actuação completamente despida de glamour, a simplicidade e realidade que a actriz dá a esta personagem, são os elementos chave para ela se encontrar nomeada.

Sandra é uma mãe que se encontra pronta a retornar ao trabalho, depois de ter estado de baixa devido a uma depressão. No entanto, é colocada numa posição totalmente ingrata e constrangedora, quando o seu lugar é posto à disposição. Sandra tem de tentar convencer os seus colegas a abdicarem de um bónus de 1000€ para que esta possa ter o seu trabalho.

Uma tarefa que genuinamente nos incomoda só de pensar. Sandra, durante dois dias e uma noite, tem assim o objetivo de manter o seu posto de trabalho, sendo que, hoje em dia, abdicar seja de que quantidade for, de dinheiro, é simplesmente inconcebível.

Confesso que esta performance me deixou maravilhada, não fosse a Marion uma das actrizes que mais prezo. Durante todo o filme quase que podemos sentir a frustração de Sandra, a vontade de desistir, de ficar na cama. A dificuldade que é ter que pedir a alguém que renuncie de algo para nosso próprio proveito. Close-ups fenomenais, one-takes de cenas que nos fazem encolher de vergonha.

Mas a actriz, já vencedora de um Óscar, não podia ter feito melhor trabalho. Ela é o filme.

Felicity Jones “The Theory of Everything”

Felicity Jones “The Theory of Everything”

 

Esta é a primeira nomeação de Felicity Jones para os Óscares. A sua personagem, JaneWilde, apaixona-se pelo brilhante físico Stephen Hawking e começa assim a aventura de uma vida.

Quando Stephen é diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica com apenas 21 anos, tudo muda, mas não a dedicação da jovem estudante de línguas. Numa jornada sobre a evolução da doença e de um casamento quase condenado, a actriz oferece-nos um desempenho firme, doce e emocional.

A sua força interior é a peça fundamental para o puzzle que é a sua família não se desmontar. Mas, no entanto, a sua consistência emocional falha.

Uma boa interpretação, para alguns foi mesmo excelente, mas na minha opinião, faltou-lhe algo para que pudesse ser arrebatadora.

Julianne Moore “Still Alice”

Julianne Moore “Still Alice”

 

Tem cinco nomeações e ainda nenhuma estatueta. Julianne Moore apresenta-nos Alice, uma professora de linguística na Universidade de Columbia, casada e com três filhos maiores.

A trama inicia-se quando Alice se começa esquecer de algumas palavras. Visivelmente confusa, procura ajuda profissional após se ter perdido completamente depois de uma corrida. O diagnóstico é claro, Alzheimer precoce, herdada geneticamente pelo seu pai.

Moore oferece-nos uma personagem numa luta muito desleal. Claramente provida de um intelecto que acaba por defini-la, Alice tenta manter a sua própria pessoa, as suas rotinas, a sua família. Mas a doença avança e as consequências desta são terríveis.

Somos brindados com cenas altamente tocantes, desde a sua filha mais nova (Kristen Stewart) a perguntar genuinamente como é lutar contra a doença na primeira pessoa até à desorientação completa dentro da própria casa. Um progresso que vemos lentamente levar a personalidade de uma pessoa, até que esta seja apenas um corpo com uma mente perdida.

Foi uma performance fantástica, emocional, frustrante até, que certamente dará à actriz o Óscar que à tanto lhe foge.

Rosamund Pike “Gone Girl”

Rosamund Pike “Gone Girl”

 

Amy Dunne é-nos apresentada como uma personagem numa luta interna, com medo do seu marido, que vive em sofrimento e desaparece.

Rosamund foi a nomeada que mais me surpreendeu nesta categoria. O argumento é bom, mas a sua interpretação dá a esta personagem uma força tremenda. No que poderia ser um thriller normal de Hollywood (mas vá, é de Fincher, nunca poderia ser normal), a actriz deixa-nos constantemente em dúvida quanto às suas intenções, o seu propósito e à verdade da história.

Temos momentos onde conseguimos empatizar com Amy, que nos figura como vítima. Por outro lado, começamos a perceber a magnitude de todo um plano, completamente psicopata e anti-social. Esta grande alteração comportamental da personagem vai-nos sendo apresentada ao longo filme de uma forma absolutamente fenomenal.

A actriz pode aparecer nesta categoria sem grandes hipóteses, mas no entanto, vejo a sua actuação como uma das melhores. Quem sabe se no futuro, e quando a Academia deixar de colocar Fincher de lado, a actriz repete uma nomeação e uma vitória.

Reese Witherspoon “Wild”

Reese Witherspoon “Wild”

 

Reese Witherspoon é Cheryl, uma mulher com um historial conturbado. Agora divorciada, depois de várias indiscrições, de abuso de drogas e inconsistência, decide encontrar-se. Para isso, utiliza o Pacific Crest Trail, numa rota que visa um duelo emocional e interior, tal como físico e de resistência.

Através de alguns flashbacks passamos a conhecer o passado desta fragmentada mulher ao crescer com um pai abusivo e uma mãe submissa. A doença e morte da mãe desencadeiam a dor e a trágica viragem que a personagem toma.

A actriz dá-nos uma representação sólida em busca de plenitude. Praticamente sempre sozinha, somos envolvidos no ambiente solitário e por vezes algo assustador. Uma boa performance, mas que lhe falta estrutura na construção da personagem anterior à caminhada. Desta forma, poderíamos identificar-nos de uma forma mais profunda com a aventura que é caminhar 1800 km desde o Deserto de Mojave, passar pelos Estados de California e Oregon, até à fronteira de Washington.

*

O Óscar está praticamente entregue a Julianne Moore, e na minha opinião, ficar-lhe-á muito bem. Numa categoria cada vez mais interessante de assistir, as interpretações deste ano foram muito boas. Personagens fortes emocionalmente e com histórias que sem dúvida, valem a pena conhecer.

Provável vencedora: Julianne Moore

Quem poderá ganhar: Felicity Jones ou Rosamund Pike

Ripley