THE READER (2008)

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Há muito tempo que um filme não me perturbava como “O Leitor” o fez. Este drama de 2008, dirigido por Stephen Daldry, é baseado no romance “Der Vorleser”, de 1995, do escritor alemão Bernhard Schlink.

A acção desenvolve-se em múltiplos cenários temporais. Inicia-se em 1958, numa Alemanha pós 2ª Guerra Mundial. O Leitor em questão trata-se de Michael Berg (interpretado por David Kross e Ralph Fiennes), um jovem estudante alemão que padece de escarlatina e é auxiliado à saída do eléctrico por Hanna Schmitz (Kate Winslet), revisora no eléctrico e secretamente iletrada.

Provindo de uma família tensa e pouco terna, Michael começa a visitar a sua ajudante após recuperar a saúde, escapando ao mau ambiente familiar. Acaba por envolver-se romanticamente com esta, numa relação de poucas premissas, que se vai aprofundando com o tempo. Hanna procura um amante e um bom leitor e Michael fascinado por aquela mulher sensual, rija e de poucas palavras, satisfaz os seus desejos sem a questionar, não imaginando o mundo que lhe estava a abrir e desconhecendo os seus segredos. No final do Verão, Hanna desaparece sem conceder qualquer explicação.

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Volvidos oito anos, Hanna regressa à vida de Michael da forma mais inesperada. Michael está agora a estudar Direito na faculdade e tem a oportunidade de assistir ao julgamento de um crime de guerra. Hanna é uma das arguidas, sendo acusada de homicídio, enquanto guarda no campo de concentração de Auschwitz, para as SS. É a mais honesta das arguidas, admitindo cada crime, com uma lógica cruel mas sincera. As outras arguidas, que todas as acusações haviam negado, tornam Hanna no bode expiatório e acusam-na de haver fabricado o falso relatório sobre o incêndio que fizera 300 vítimas, tornando-a a principal responsável. Hanna começa por negar, mas para não ser obrigada a admitir o seu analfabetismo, acaba por confessar um crime que não cometeu. Michael apercebe-se da verdade mas ainda magoado com a ex-amante e chocado com o passado obscuro de Hanna, não a salva de uma possível prisão perpétua.

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Já em adulto Michael envia a Hanna cassetes onde recita as obras favoritas de Hanna, tais como a “Odisseia”, de Homero, “A Dama do Cachorrinho”, de Anton Checkhov, ou “Huckleberry Finn”, de Mark Twain. Com estas cassetes e os livros da biblioteca, Hanna aprende sozinha a ler e escrever, mas ao enviar bilhetes a Michael, deste não terá resposta por muitos anos.

Destaco nestes filmes não só a substância da história mas também a complexidade de cada personagem, que revela a crua realidade dos tempos duros que se viveram na Europa. Kate Winslet ganha com este filme o óscar de Melhor Actriz, de forma bem merecida, já que concede a Hanna um lado humano, tanto na capacidade de se comover e ter empatia, como na de praticar atrocidades, e que nos causa um conflito em relação a esta personagem.

Um filme muito relevante sobre esta época que questiona a importância da literacia nas escolhas éticas e morais, bem como o direito à defesa.

Fiquem com o trailer:

 

[Dora]

 

Crítica: Horas Decisivas | The Finest Hours (2016)

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Um argumento a meter água

É sobretudo a falta de ambição que sabota, à partida, este The Finest Hours. A produção Disney agarra numa base forte – afinal, para quê criar uma história fictícia de salvamentos heróicos em alto-mar quando a Guarda Costeira norte-americana tem um reportório riquíssimo de narrativas verídicas à disposição? –, mas acaba por fazer o argumento naufragar (perdoe-se o trocadilho marítimo fácil).

The Finest Hours poderia ser um filme de acção, com o drama construído a partir do petroleiro SS Pendleton que se parte em dois numa noite de tempestade, no Inverno de 1952. Os homens a bordo, liderados por um ‘capitão’ de ocasião Ray Sybert (Casey Affleck), têm de ser engenhosos para conseguir sobreviver até chegar a improvável ajuda. Dentro de metade do petroleiro, a boiar quase como uma rolha em água, os 33 sobreviventes vêem crescer a tensão interna, à medida que o desespero se faz sentir. Aqui, realce para a prestação competente dos actores Graham McTavish como Frank Fauteux e Michael Raymond-James como D.A. Brown que, respectivamente, preenchem os papéis tradicionais de coadjuvante e antagonista de Sybert, dando força à narrativa.

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O filme também poderia ser uma história de amor, entre o oficial da Guarda Costeira Bernie Webber (Chris Pine), que se lança numa aventura de salvamento praticamente destinada ao fracasso, e a pouco convencional Miriam (Holliday Grainger), com medo da imensidão do mar, mas pronta a desafiar convenções sociais e a ser ela, a mulher da relação, a pedir o homem em casamento. O filme tenta ser essa história de amor, é verdade, mas perde-se entre o ritmo lento da narrativa romântica, os clichés previsíveis a léguas marítimas e o desenlace fraco para uma personagem feminina forte.

finest hours 3Portanto, feitas contas, o balanço final é pouco favorável a The Finest Hours. Não chega a ser uma boa narrativa romântica, porque ambiciona ter o drama do salvamento náutico. Não chega a ser um filme puro de acção, porque o suspense é facilmente resolvido e o drama pungente é evitado. Culpas aqui para a realização medíocre, que não soube pegar numa das páginas mais heróicas da Guarda Costeira (passada a livro pelos autores Michael J. Tougias e Casey Sherman) e torná-la um momento memorável cinematográfico. A coragem do verdadeiro Bernie Webber, que liderou o maior salvamento da Guarda Costeira em barco pequeno, merecia muito mais. É pena que a produção do filme não tenha tido pulso e ambição para o fazer.

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The Finest Hours estreou em Portugal a 4 de Fevereiro.

Clementine

“Death Proof” (2007)

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“Death Proof” (2007) foi escrito e realizado por Quentin Tarantino e presta homenagem aos filmes de acção dos anos 70 e aos chamados exploitation films, ou seja, filmes com propósitos manifestamente financeiros que exploram temáticas que agarram as audiências ou determinados nichos.

Não é um dos filmes mais conhecidos do realizador, mas rapidamente se percebe o seu cunho neste “Death Proof”. O filme conta-nos a história de um duplo de cinema maníaco, Mike McKay (Kurt Russell), que tem devaneios de stalker e persegue raparigas na estrada, fotografando-as à socapa. Se até aqui a personagem de Kurt Russell, com o seu voyeurismo maníaco, parece sinistra, aviso que não fica por aqui. Mike para além de as perseguir e deslumbrar-se ao observar os seus comportamentos e rotinas, tem um propósito mais negro, pois Mike para além de voyeur é um assassino, que recorre ao seu carro de duplo, que é definido como “à prova de morte”.

Um filme não recomendado aos mais sensíveis, nem a quem não aprecia o génio de Tarantino, pois este “Death Proof” é perturbador, sangrento e alucinante, com uma perseguição final estonteante.

Mike é um vilão atípico, cujas motivações não são concretamente expostas. Será o seu final também atípico? Terão de ver para descobrir.

Em termos de crítica este filme foi recebido de forma modesta, sendo referido como um dos mais fracos filmes do realizador, opinião com o qual o próprio concorda. Pessoalmente tenho de concordar que não foi a sua melhor criação, ainda assim enquadra-se bastante bem no seu estilo de criação e proporciona um bom momento de entretenimento irreflectido.

[Amélie Poulain]

“O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa”

Courtney Hoffman é já uma figurinista experiente com diversos trabalhos no cinema e TV, mas que tem trilhado o seu percurso sobretudo no universo indie. Hoje, na rubrica “O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa” trazemos até vós o trabalho da criadora no mais recente filme de Quentin tarantino, “The Hateful Eight”.

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A criadora começou a sua carreira no teatro e fixou-se definitivamente no cinema do circuito menos comercial. Embora tenha tido um convite para trabalhar em “Iron Man 3” recusou.

Courtney Hoffman já tinha trabalhado anteriormente num filme de Tarantino, “Django Unchained”, mas não como figurinista principal, mas segundo a própria esta experiência prévia foi extremamente enriquecedora, pois pode perceber como eram trabalhados os sets do realizador, o entusiasmo que este põe em tudo quanto faz e o que pretende para cada cena/actor.

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O figurino da personagem de Cristoph Waltz em “Django Unchained” foi criado por Courtney.

O processo criativo para este “The Hateful Eight” começou com o script, em que o realizador, deixa bem claro o que pretende, quem são aqueles personagens e o background de cada um, o que por si só vai logo direccionar a criação dos figurinos. O passo seguinte foi a procura de referências cinematográficas dos velhos westerns dos anos 60 e 70. Depois é um processo livre, criativo e de experimentação no qual Tarantino se envolve muito, dando ideias, sugestões e opiniões, o que tornou o trabalho de Courtney num grande desafio, mas um desafio descontraído. O que também facilitou o trabalho de Courtney para além do bom ambiente vivido no seio da equipa, foi o facto de estar familiarizada com o género western, aliás o primeiro filme para o qual trabalhou foi um western e recentemente até foi convidada a falar num painel sobre este mesmo género, no qual tem vindo a submergir cada vez mais e pelo qual sente um grande gosto.

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Alguns sketches do guarda-roupa deste filme.

Os designs apresentados baseiam-se, então, em westerns quer os denominados spaghetti westerns, quer de westerns americanos e também em referências históricas. Por exemplo, o casaco azul-marinho que Samuel L. Jackson enverga inspira-se nos casacos envergados pela cavalaria durante a Guerra Civil, mas foi adicionado o pormenor dos interiores em amarelo, indicação específica do realizador, que encontra simbolismo nesta cor e coloca-a em várias das suas produções. Neste caso concreto a ideia era não datar muito a personagem, tendo o sinal de passagem de tempo noutros pormenores como as luvas, adereço mais datado.

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O casaco criado para Samuel L. Jackson, com os pormenores em amarelo, dica específica de Tarantino no próprio guião.

O filme envolve apenas 16 personagens e Courtney revelou em entrevista que cada figurino foi pensado detalhadamente. Um exemplo vivo disto é o casaco de pele falsa que Demian Bichir apresenta na película foi criado com recurso a 11 tipos diferentes de pele falsa e foram recriados cerca de oito modelos, todos envelhecidos de igual forma, para estarem presentes no set. Embora este casaco de pele seja feito com recurso a sintéticos tudo o resto recorre a materiais genuínos, pois ao filmar em 70mm todos os pequenos pormenores ficam perceptíveis e a execução de guarda-roupa tem de ser exímia.

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O casaco de Damien Bichir foi confeccionado com recurso a 11 tipos de materiais sintéticos que imitam pele.

E embora tudo seja mais que pensado e preparado e existam várias peças e vários exemplares da mesma peça num set, por vezes há imprevistos e improvisos. Uma história que Courtney também contou numa entrevista foi relativa a uma cena gravada no meio de uma montanha no colorado, longe de tudo, onde uma das personagens teria de caminhar nua e à última hora Tarantino pediu se seria possível vesti-lo, para que o público o pudesse ver antes da situação do nu. Assim, Courtney não tendo acesso a mais guarda-roupa do que o que tinha levado e que pertencia a outras personagens, teve de improvisar rapidamente de forma a manter a qualidade que até aquela cena vinha a ser apresentada.

O casaco usado por Kurt Russell também é inspirado num modelo autêntico de um casaco de pêlo de búfalo de 1800 exposto no museu Autry. Contudo o original era pesadíssimo e esta recriação recorreu a materiais que lhe permitissem um corte mais leve, facilitando os movimentos e o desenvolvimento das cenas.

THE HATEFUL EIGHT Photo: Andrew Cooper, SMPSP © 2015 The Weinstein Company. All Rights Reserved.

Casaco inspirado num modelo real de 1800.

No meio de tanta personagem masculina vestir Jennifer Jason Leigh foi um desafio, mas havia um detalhe no guião que fez a diferença. A personagem de Jason estava prestes a fugir num navio, quando foi apanhada pelo caçador de recompensas, interpretado por Russell, então a figurinista quis dar-lhe um ar impecável, de senhora distinta que ía partir em viagem com um bonito vestido. Depois acrescentou-lhe o casaco masculino em pele e o chapéu de pêlo para a emparelhar com a personagem de Russell, pois queria quer aqueles dois parecem-se uma espécie de Jack e Jill.

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Jennifer Jason Leigh na pele de daisy, uma assassína apanhada por um caçador de recompensas (Russell).

[Amélie Poulain]

“The Danish Girl” (2015)

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A época Óscares 2016 está aberta e foram anunciadas na passada quinta-feira as esperadas nomeações. Um dos filmes que muito se falava como candidato era “The Danish Girl” de Tom Hooper, que acabou nomeado na categoria de Melhor Actor, Melhor Actriz Secundária, Melhor Guarda-Roupa e Direcção de Arte.

O filme narra a história real de Einar Wegener (Eddie Redmayne), um pintor de sucesso, que se vai descobrindo ao longo da história em termos de identidade de género e inicia o seu processo de transformação física em Lili Elbe, a primeira pessoa documentada a submeter-se a uma operação de mudança de género. Estamos perante uma jornada difícil, pejada de preconceitos e dificuldades físicas, mas o desejo de Einar de se libertar de um corpo no qual se sente um estranho derruba barreiras, com o apoio incansável e fundamental da sua esposa, Gerda Wegener (Alicia Vikander).

A verdade é que a minha opinião é suspeita, pois nunca fui grande fã do trabalho de Tom Hooper e aqui temos um claro exemplo de um argumento interessante que poderia ter sido explorado de outra forma, mas Hooper optou por jogar pelo seguro, com os prémios em vista. Demasiado politicamente correcto e sem chama, “The Danish Girl” encanta a vista, com o seu guarda-roupa cuidado e sets condizentes, mas depois falta-lhe qualquer coisa que nos pregue ao ecrã e nos torne parte da história.

Eddie Redmayne, vencedor do Óscar de Melhor Actor no ano passado, encontra-se novamente nomeado, mas desta vez para além de uma transformação física aliciante, fruto do trabalho de maquilhadores e figurinistas, não há na minha opinião nada a justificar uma vitória. Os maneirismos de Eddie neste papel parecem-me algo plásticos e toda a sua performance deixa aquele vazio de alma, de que falta qualquer coisa para aquela personagem resultar. Já Alicia Vikander, como actriz secundária, apresentou, quanto a mim, um desempenho mais sólido e convincente. Quase conseguimos viver as inquietações de Gerda, pelo desempenho de Alicia, mas também há algo estranho na construção da personagem ao longo do desenvolvimento da acção, mas por questões do argumento, pois presenciamos apenas um momento de revolta e desespero mais demarcado. Contudo, até essa explosão é rapidamente ultrapassada, o que numa situação real dificilmente se processaria assim. A situação que Gerda vive é sensível e numa época em que o preconceito pelo diferente era muito mais marcado, mas fica a sensação que Gerda vive tudo com demasiada naturalidade, não sentindo qualquer afectação ou pressão social.

Daqui até à grande noite ainda me faltam ver bastantes filmes, mas este definitivamente parece-me que passará um pouco ao lado dos prémios, sendo mais forte na categoria de Guarda-Roupa, onde poderá ter uma palavra a dizer.

[Amélie Poulain]

“O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa”

Paco Delgado é um figurinista espanhol, que já conta com uma nomeação aos Óscares com o guarda-roupa de “Les Misérables”, e é detentor de dois prémios Goya.

Com “The Danish Girl” Paco repete a sua pareceria com o realizador Tom Hooper, num belíssimo trabalho que volta a estar na calha para uma nomeação aos Óscares.

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Paco Delgado junto de algumas das suas criações.

“The Danish Girl” traz-nos a história do artista plástico dinamarquês Einar Wegener, a primeira pessoa a passar por uma cirurgia de mudança de género documentada. Para Paco Delgado este foi um desafio gigante, não só pela dificuldade de transformar Eddie Redmayne quer em Einar e posteriormente em Lily, mas também pelo facto de querer representar o mais correcta e fielmente possível uma mulher transgénero, num momento em que cada vez mais o público está sensível à realidade transgénero.

Paco Delgado e Tom Hooper começaram o trabalho de campo muito antes do início da rodagem e, juntamente com Eddie Redmayne, fizeram bastantes testes de maquilhagem e figurinos. Paco e Tom viajaram, inclusive, até à Dinamarca para perceber melhor o contexto onde a história se insere, observar o clima e investigar tudo o que puderam sobre Lili Elbe.

Como a história se divide entre a Dinamarca e Paris os figurinos também reflectem estas duas realidades, sendo que na Dinamarca temos modelos mais conservadores, a roçar o vitoriano, nas cenas de Paris, tendo em conta que estamos a falar de uma acção que se passa nos anos 20, em que se vivia uma verdadeira revolução na moda, sendo Paris um dos grandes centros dessa revolução, aí temos modelos mais ligeiros, com cores mais vibrantes, representativos da libertação feminina. Neste último caso as criações de Lanvin e Coco Chanel foram a grande inspiração. Toda a dicotomia Dinamarca/Paris não é feita apenas no estilo, mas também nas cores mais sombrias simbolizando o frio da Dinamarca e mais vibrantes e libertadoras em Paris, local onde as personagens rumam em busca de libertação e felicidade.

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Nas cenas da Dinamarca as cores são mais escuras e os modelos mais pesados.

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As cenas de Paris mais ligeiras, com tecidos fluídos e uma paleta de cores que vai do suave ao vibrante.

Todo o contexto histórico é respeitado e o primeiro vestido que vemos Eddie envergar à sua frente, quando posa para o retrato da mulher, é uma cópia fiel do retrato real. Outra preocupação, no que há moda dos anos 20 diz respeito, foi a de utilizar tecidos e padrões reais da época. Assim, Paco percorreu lojas de objectos antigas e feiras onde conseguiu vários vestidos reais da época e utilizou esses tecidos transformando-os nos vestidos de Lili, adaptando-os ao corpo masculino de Eddie.

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Alguns dos sketches de Paco para este filme.

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Este vestido é uma representação bastante realista do quadro em que se inspira.

Um dos grandes problemas encontrados na transformação de Eddie Redmayne em Lili foi a maçã de Adão, a qual Paco tentou esconder o mais possível para nos dar a sensação de realidade de uma figura feminina, mas não quis recorrer excessivamente a maquilhagem, pois não queria que se visse excesso de maquilhagem no ecrã, mas a tecnologia de alta definição dificultava este processo, daí os lenços que Lili enverga frequentemente, escondendo a zona do pescoço.

E se Eddie tem o papel principal e foi um desafio enorme em termos de maquilhagem e guarda-roupa não nos podemos esquecer de Alicia Vikander, no papel de Gerda Wegener, esposa de Einar, cujo guarda-roupa também foi pensado de forma exímia. Também no guarda-roupa de Alicia vemos a tal dicotomia Dinamarca/Paris e nele é espelhada a complexidade de sentimentos que esta personagem atravessa.

Toda a equipa de caracterização teve também um trabalho extraordinário, quer em termos de maquilhagem, quer de cabeleiras. Eddie Redmayne experimentou diversas cabeleiras, para encarnar Lili, algumas de cabelo mais comprido, mas a equipa optou por recorrer a cabeleiras com cortes curtos, não só por gostar mais do resultado, mas também para representar realmente a libertação vivida pelas mulheres da época.

Este é um filme com um conjunto de figurinos extraordinário, fiéis à época, vibrantes, espelhando o psicológico intrincado dos intervenientes e que certamente terá uma palavra a dizer na época de premiações que se avizinha.

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A verdadeira Lili Elbe que inspira este filme antes e depois da cirurgia.

[Amélie Poulain]

 

 

36ª Edição dos Razzie Awards

As nomeações para os infames Razzie Awards já sairam. Esta será a 36ª edição dos “prémios” que nomeiam as piores performances e os piores filmes do ano.
Desde 1980 que os Razzie Awards, contrariando o formato dos Óscares, dá as “Framboesas Douradas”, distinguindo assim o que de pior se fez no cinema durante o ano.
Aqui ficam os nomeados.

Pior filme

  • Fantastic Four
  • Fifty Shades of Grey
  • Jupiter Ascending
  • Paul Blart: Mall Cop 2
  • Pixels

Pior actor

  • Johnny Depp, Mortdecai
  • Jamie Dornan, Fifty Shades of Grey
  • Kevin James, Paul Blart: Mall Cop 2
  • Adam Sandler, The Cobbler and Pixels
  • Channing Tatum, Jupiter Ascending

Pior actriz

  • Katherine Heigl, Home Sweet Hell
  • Dakota Johnson, Fifty Shades of Grey
  • Mila Kunis, Jupiter Ascending
  • Jennifer Lopez, The Boy Next Door
  • Gwyneth Paltrow, Mortdecai

Pior actor secundário

  • Chevy Chase, Hot Tub Time Machine 2 e Vacation
  • Josh Gad, Pixels e The Wedding Ringer
  • Kevin James, Pixels
  • Jason Lee, Alvin and the Chipmunks: The Road Chip
  • Eddie Redmayne, Jupiter Ascending

Pior actriz secundária

  • Kaley Cuoco, Alvin and the Chipmunks: The Road Chip e The Wedding Ringer
  • Rooney Mara, Pan
  • Michelle Monaghan, Pixels
  • Julianne Moore, Seventh Son
  • Amanda Seyfried, Love the Coopers e Pan

Pior realizador

  • Andy Fickman, Paul Blart: Mall Cop 2
  • Tom Six, The Human Centipede 3 (Final Sequence)
  • Sam Taylor-Johnson, Fifty Shades of Grey
  • Josh Trank, Fantastic Four
  • Os Irmãos Wachowski, Jupiter Ascending

Pior argumento

  • Fantastic Four
  • Fifty Shades of Grey
  • Jupiter Ascending
  • Paul Blart: Mall Cop 2
  • Pixels

Pior prequela, sequela, nova versão, ou aldrabice

  • Alvin and the Chipmunks: The Road Chip
  • Fantastic Four
  • Hot Tub Time Machine 2
  • The Human Centipede 3 (Final Sequence)
  • Paul Blart: Mall Cop 2

Pior mistura

  • Os quatro “fantásticos” em Fantastic Four
  • O bigode postiço de Johnny Depp em Mortdecai
  • Jamie Dornan e Dakota Johnson em Fifty Shades of Grey
  • A Segway e o bigode postiço de Kevin James em Paul Blart: Mall Cop 2
  • Adam Sandler e os seus pares de sapatos em The Cobbler

Prémio Redenção

  • Elizabeth Banks
  • M. Night Shyamalan
  • Will Smith
  • Sylvester Stallone

 

Os vencedores serão anunciados a 27 de fevereiro.

*

Ripley

“The Big Short” (2015)

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No passado sábado aconteceram em Lisboa, nos Cinemas Alvaláxia, os TCN Awards, uma celebração da blogosfera, no que ao cinema e televisão diz respeito. A Última Sessão, cuja página de Facebook estava nomeada ao prémio de melhor página, esteve presente. Embora a Última Sessão não tenha vencido foi reconhecido o valor do seu trabalho e a simples participação é motivo de regozijo, não pelo prémio, mas pelo excelente convívio entre aqueles que diariamente dispensam parte da sua vida ao cinema e televisão, de forma apaixonada e voluntária.

Integrada nas celebrações ocorreu a ante-estreia de “The Big Short” (2015), uma comédia dramática de Andy MacKay, inspirada no livro de Michael Lewis.

O filme baseia-se em factos reais e conta a história de Michael Burry (Christian Bale), que em 2005, contra todas as expectativas, desvenda as fragilidades do mercado imobiliário americano e créditos associados. Assim, Burry decide tirar proveito do facto e lucrar com esta situação. Todos o desacreditam, mas Jared Vennett (Ryan Gosling), Mark Baum (Steve Carell) e Charlie Geller (John Magaro) e Jamie Shipley (Finn Wittrock), estes dois últimos com a ajuda de Ben Rickert (Brad Pitt), têm conhecimento da teoria de Michael Burry, interpretam correctamente os sinais e embora sejam pessoas distantes de Burry, com realidades distintas, também eles apostam nesta evidência e tentam tirar proveito do inevitável.

Os homens aqui retratados foram visionários de uma crise mascarada e encoberta quer pelos bancos, quer por agências de rating, quer pelo próprio governo americano, mas isto seria apenas “gato escondido com o rabo de fora” e o colapso do mercado imobiliário era forçoso. O colapso não acontece por acaso é resultado de uma crise bem mais complexa, com situações de múltiplos créditos, atribuídos sem qualquer critério, agravado por um crescimento do desemprego e consequentemente um colapso da bolsa americana, que gerou um verdadeiro caos económico.

A primeira impressão é que este argumento será de enorme complexidade e de comédia não terá nada, mas Andy MacKay abordou o tema de forma inteligente, criando diversos gags, desmistificou teorias e conceitos económicos complexos através de analogias corriqueiras, numa espécie de “economia para totós” e criou, numa rasgo de brilhantismo, uma película séria, mas ao mesmo tempo descontraída.

A época de todas a premiações avizinha-se e muitos filmes expectantes, ainda, chegarão até nós, mas temos aqui uma reflexão cómica capaz de alcançar algum sucesso.

[Amélie Poulain]

Escrever sobre cinema

'Nope...1443 bloggers have already panned it.'

‘Nope…1443 bloggers have already panned it.’

Uma arte que se tornou global, produto da cultura de massas e seu expoente máximo. Não podemos negar isso ao cinema e há que adorá-lo por isso. O cinematógrafo dos Lumière trazia este ADN da partilha na sua génese: a mesma máquina que captava as imagens em movimento permitia também a sua transmissão. Fácil, em larga escala, capaz de criar impacto em multidões.

O cinema é plural. E tem, aí, a sua grande fraqueza e a sua maior força. Pode sustentar regimes ditatoriais com a mais perfeita estética (e aqui Leni Riefenstahl será sempre incontornável), mas também pode servir de veículo de informação, denúncia ou homenagem. Pode condensar todos os tiques elitistas do rococó fílmico. Ou, então, dar-nos um guilty pleasure de acção ou comédia romântica que revemos vezes sem fim. O cinema emociona-nos. A um ponto que, com cada vez maior cinismo, julgaríamos quase impossível. Pensei nisso quando vi, o ano passado, Birdman. Perante o cenário de luzes coloridas numa loja qualquer em Times Square só pensei: “porra, que plano mágico”. Não morria a mãe do Bambi, nem havia transatlânticos em rota de colisão com icebergues. Mas era bonito. Esteticamente perfeito. Cinematograficamente inesquecível.

O cinema é assim e, por isso, escrever sobre cinema divide-se em tudo isto. Chegamos aos jornais e televisão e vemos reportagens sobre os blockbusters, os prémios e os vestidos. Tudo embrutecido, pela rama. Pega-se no espectáculo, deixa-se de fora a arte. Embrenhamo-nos mais um pouco, encontramos os críticos. E aqui é o oposto: critica-se ferozmente, com a raiva a escorrer pelos dentes, tudo o que cheire a blockbuster, a êxito popularucho, a candidato a prémios. Diz-se, frequentemente e entre piadas, que um crítico reconhecido só gostará de filmes de realização longínqua (ali entre o Irão e a Nicarágua, cruzando com o Botswana). Curiosamente, encontraremos esses críticos nos mesmos jornais e televisões onde surgem as tais reportagens ocas – talvez aqui se entenda o seu profundo cinismo e desgosto, em crise de identidade permanente.

Entretanto, a blogosfera dá um ar da sua graça. Disruptiva, irreverente. Mordazmente separada dos críticos, mas repetidamente ávida do seu reconhecimento público.  Tenho para mim que muitos, tivessem a honra suprema de atribuir estrelinhas nas páginas de um jornal, se tornariam muito parecidos com os que agora lá estão. Outros gostam do seu canto marginal, protegido. Gostam da liberdade e do cinema. E sabem que cinema é arte e é público, os dois unos. Gostam de Felini, do Die Hard e do Iñarritu, sem complexos, nem vergonhas. E de filmes de ficção científica de série B, dos anos 70.

Chegamos, depois, às novas redes sociais, às páginas de cinema que só existem nos Facebooks e Twitters desta vida. Muitos dos que acusam, sem piedade, os críticos da sobranceria elitista, assumem tiques idênticos. Os jornais e os críticos desdenham os blogs. Os bloggers desdenham a malta das redes sociais, apontando-lhes palavras ocas e pedaços de caracteres efémeros. Ao fenómeno, chamam-lhe avalanche ou círculo vicioso. Para mim, é o efeito natural da arte de massas.

Serão todos assim, categoria por categoria? Felizmente, não. Há quem se lembre que, no momento em que a imagem em movimento se tornou imagem-movimento, nasceu um novo mundo. Há quem saiba que o coração é bem mais feliz quando bate a 60 fotogramas por segundo.  E que, no fundo, não é a plataforma (ou o estatuto) que faz um filme. Nem um crítico. Nem um cinéfilo.

 

[Clementine]

[Disclaimer: sou jornalista, blogger e escrevo em redes sociais sobre cinema. Só não atribuo estrelas, nem em jornais nem noutro lado qualquer]

“O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa”

“Por vezes um figurinista é mais um psicólogo do que qualquer outra coisa”.

A citação é de Daniel Orlandi, figurinista, natural de New Jersey e que cujo trabalho conhecemos de “O Códico Da Vinci”, “Cinderella Man” e “Jurassic World”, entre muitos outros êxitos da grande tela.

Orlandi assistiu pela primeira vez a uma peça de teatro aos 10 anos e desde aí ficou apaixonado pela arte, ambicionando vir a trabalhar na área do design. Estudou na Carnegie Mellon University in Pittsburgh, que detinha um curso de design de sets, luz e figurinos e tentou entrar no sonhador mundo da Broadway. Trabalhou gratuitamente para muitas peças um pouco à margem da Broadway e nunca conseguiu entrar e vingar neste mundo. Ao perceber que este era um meio fechado, que trabalhava sempre fidelizado aos mesmos profissionais, Orlandi rumou a Los Angeles e de um momento para o outro estava a envolver-se em produções importantes dos estúdios de Hollywood.

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Daniel Orlandi, figurinista de “Saving Mr. Banks”, entre muitos outros filmes sonantes.

Daniel Orlandi, para além dos filmes referidos, é também figurinista de “Saving Mr. Banks, guarda-roupa esse que estará hoje aqui escrutinado e o qual representou um desafio muito interessante para o criador. Baseando-se na sua premissa de que o figurinista é um psicólogo, Daniel, tenta que o seu guarda-roupa transpareça a densidade psicológica da sua personagem e no caso de P.L. Travers (Emma Thompson), a autora britânica que criou Mary Poppins, e sobre quem este filme se debruça, não houve dúvidas: uma personalidade antiquada, teimosa, amargurada e que sente manifesta repulsa pelo ambiente casual que se vive na Califórnia. Deste modo, as suas roupas transmitem isso mesmo, rigidez e austeridade. Cortes impecáveis, bem ajustados ao corpo de Emma Thompson, mas sem qualquer apontamento sexy. É um guarda-roupa feminino, mas sóbrio, com recurso a padrões tweed, que ajudam a demarcar a sua faceta britânica antiquada e anti-modernidade casual.

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Alguns exemplos dos visuais criados para a personagem interpretada por Emma Thompson.

Para que Tom Hanks pudesse encarnar um Walt Disney convincente também o seu visual foi pensado ao pormenor. No entanto, não foi uma tarefa fácil, pois Daniel tem imenso respeito pelo facto de estar a caracterizar personagem reais, o que já fez por diversas vezes na sua carreira, e neste caso faltava-lhe alguma informação. Daniel teve de guiar-se apenas por fotografias de Walt Disney e por algumas informações dadas por fontes próximas, pois os fatos de Disney foram doados para instituições de caridade após a sua morte e Orlandi não conseguiu ter acesso a nenhum. Contudo, é sabido que para trabalhar no escritório Walt escolhia um fato cinzento, com corte típico do final doa anos 50, início dos 60, situação retratada no filme. Às gravatas envergadas por Tom Hanks foi gravada a insígnia do Smoke Tree Ranch, onde Walt Disney tinha uma casa, e foi-lhe dado também um alfinete de gravata com um comboio em memória da paixão de Walt por locomotivas.

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Mais alguns dos sketches do guarda-roupa.

Tudo foi pensado e o cuidado esteve em todos os detalhes. Para as cenas da infância de P. L. Travers, Daniel Orlandi recorreu a uma fábrica de tecidos históricos, que descobriu na Califórnia, para se abastecer de linho igual ao usado na época.

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O guarda-roupa das cenas alusivas à infância da autora foram pensados com detalhe, em especial o do seu pai (Travers Goff), em torno do qual gira boa parte do argumento.

No fim o resultado é maravilhoso, respeitando os padrões da época, encantando a vista e transmitindo de facto aquilo que cada um dos personagens representam.

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Guarda-roupa de “Saving Mrs. Banks” em exposição.

[Amélie Poulain]