“The Boss” (2016)

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A comédia não é um género da minha eleição e o recentemente estreado “The Boss” (2016) de Ben Falcone, só veio reforçar mais esta minha convicção.

Melissa McCarthy, uma das bem-amadas da comédia americana, assina o argumento deste filme, conjuntamente com o realizador e Steve Mallory. Melissa está, ainda, envolvida na produção e como não podia deixar de ser assume o papel principal.

O fenómeno Melissa McCarthy é algo para o qual não encontro explicação e neste “The Boss” é tudo tão desprovido de qualquer qualidade e piada, que chega a ser doloroso de assistir.

Melissa é Michelle Darnell, uma empresária milionária, que assume protagonismo não só pelos negócios, mas também pelas palestras motivacionais que conduz, subordinadas ao tema do enriquecimento. Michelle para além de rica é desbocada, a roçar o boçal, não tem a mínima empatia por nada nem ninguém e a sua existência é para lá de fútil. Obviamente que a sua índole irrascível e de má-fé a leva a coleccionar inimigos e um dia a sua vida sofre uma reviravolta ao ser denunciada e acusada de corrupção, acabando mesmo por ser condenada a prisão, vendo todos os seus bens penhorados.

Caída em desgraça Michelle procura auxílio junto da sua antiga funcionária, Claire Rawlins (Kristen Bell), o seu braço direito nos tempos áureos, que lhe estende a mão. A nova vida de Michelle já nada tem de faustoso e ela fica um pouco abalada, até que uma nova ideia de enriquecimento surge na sua mente. O novo negócio parece auspicioso, mas o passado ligado à corrupção não atrai investidores.

No fim já sabemos que acaba sempre tudo em bem neste género de filmes, mas os acontecimentos, voltas e reviravoltas até lá são mais que muitos.

Pessoalmente, achei o argumento mal explorado, sem qualquer sequência minimamente hilária. As sequências cómicas ou não passam da piada brejeira ou estão absolutamente mal construídas. A crítica no geral, também, não tem sido muito favorável, mas as bilheteiras na América, ainda assim, têm sido satisfatórias.

[Amélie Poilain]

Review: O Caçador e a Rainha do Gelo

A prequela que não o foi. Esse poderia ser o título deste texto, onde analisamos uma das estreias mais recentes nos nossos cinemas. O Caçador e a Rainha do Gelo (2016), que estreou em várias salas nacionais ontem, surge quatro anos depois de A Branca de Neve e o Caçador (2012) e conta com uma ausência de peso: a Branca de Neve, interpretada no primeiro filme por Kristen Stewart.

O Caçador e a Rainha do Gelo (2016) recupera o passado da heróica personagem de Chris Hemsworth, que volta a ser acompanhado por Charlize Theron e conta com as conhecidíssimas Emily Blunt e Jessica Chastain. No entanto, este regresso ao passado é apenas uma desculpa para explorarmos, no futuro, algumas das pontas soltas deixadas pelo primeiro filme.

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E como um azar nunca vem só, o Caçador, que venceu (será?) Ravenna em A Branca de Neve e o Caçador (2012), tem de enfrentar a sua temível irmã, a Rainha do Gelo, interpretada por Emily Blunt, na aventura que se segue. Depois de querer abandonar tudo por amor e de ver o seu coração desfeito, Freya abandona a irmã e procura o seu próprio poder. Isto porque, tal como a Rainha Má, também ela possui uma magia aparentemente indestrutível.

É aqui que entra, pela primeira vez, uma personagem que já conhecemos muito bem. Eric, ainda uma criança, é tirado à sua família pelo exército da Rainha do Gelo, que procura formar um exército destrutível, treinando crianças – de coração partido por terem sido roubadas aos pais, muitos deles assassinados – desde cedo para conquistar todos os reinos próximos. Sara, a antiga paixão de Eric, referida por este no primeiro filme, também integra o grupo. Apesar de serem claramente os mais capacitados, os dois quebram a única regra de Freya: não amar ninguém.

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No entanto, tudo muda e, em instantes, TUDO muda. A aparente prequela avança no tempo e ali estamos, em pleno reinado da Branca de Neve. A princesa, agora rainha, está à beira da loucura graças ao espelho, “herança” de Ravenna, e, quando os seus soldados não conseguem levar este para longe, o rei William recorre ao Caçador para cumprir uma missão: recuperar o espelho e garantir que este fica bem longe de todos. Na companhia de dois improváveis anões, Eric parte rumo a uma aventura inesperada.

De regresso do passado está também a Rainha do Gelo, mais forte do que nunca, de olhos postos no malogrado espelho. Para explicar a ausência desta do primeiro filme, ficamos a saber que Freya acreditava que o Caçador tinha morrido sete anos antes, depois de ousar infringir as suas regras. Espelho meu, espelho meu, quem vai ganhar este duelo?

Isto não é um conto de fadas

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A tragicidade de O Caçador e a Rainha do Gelo (2016) começou nos bastidores. Primeiro, Kristen Stewart e Rupert Sanders, o realizador do filme de 2012, saíram do projecto e, embora os produtores o neguem, poucos duvidam que a sua ausência não esteja relacionada com o romance que mantiveram, numa altura em que estavam ambos comprometidos. Como tal, a sequela caiu por terra – ou assim pensámos – e personagem do irmão Hemsworth mais velho conquistou ainda mais protagonismo.

É possível fazer um filme do universo da Branca de Neve… sem falar da Branca de Neve? Sim, mas não este. O Caçador e a Rainha do Gelo (2016) apresenta várias falhas, desde logo o facto de não cumprir o que “promete”: a acção não decorre exclusivamente no passado e o enredo, em pelo reinado da Branca de Neve, não disfarça a ausência evidente da mesma. Para contrariar o que se afigurava inevitável, a Universal garantiu um elenco de luxo, onde se destaca a adição de Emily Blunt e Jessica Chastain.

Vamos ser claros: um elenco de luxo não tapa “buracos” de argumento. Se o fizesse, todos os filmes com grandes actores eram bons filmes e os filmes de categoria B nunca seriam capazes de conquistar o seu lugar. O Caçador e a Rainha do Gelo (2016) repete a fórmula do primeiro filme, entretanto seguida noutros casos, trazendo uma actriz de categoria mundial para recriar uma vilã bem presente no nosso imaginário infantil – comparando-a com Julia Roberts e Angelina Jolie (e até mesmo Cate Blanchett), Charlize Theron é, provavelmente, a melhor vilã do género a surgir no cinema em anos recentes.

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A riqueza do primeiro filme parece ter-se perdido entretanto. O engenho dos vilões e a coragem dos heróis foi substituída pela inevitabilidade de o Bem vencer o Mal, ao mesmo tempo que a storyline simples e expectável é acompanhada de acções heróicas e twists que já vimos antes… e de forma mais conseguida. Sendo uma prequela-sequela, ficamos com a clara sensação de a equipa por detrás da (agora) saga tentou reciclar as ideias que tinha (para a sequela da Branca de Neve) e aplicá-las no Caçador.

Mais do que a ausência da personagem, nota-se sobretudo o corte evidente da ligação da Branca de Neve com as restantes personagens, sendo que no filme anterior ela contribuiu em larga escala para o crescimento das mesmas. Salvo a espaços, onde é referida de forma rápida e quase por obrigação, quase poderíamos dizer que a Branca de Neve nunca tinha existido.

Por outro lado, se o objectivo era conhecer melhor Eric, este foi razoavelmente alcançado, que mais não seja pelo contacto com acontecimentos desconhecidos, mas, ainda assim, ficou muito aquém do que poderíamos esperar. É interessante perceber o que atormentava o Caçador no primeiro filme, assim como o reinado da Branca de Neve caiu em desgraça, mas O Caçador e a Rainha do Gelo (2016) não ultrapassa os limites, não desafia convenções ou o que julgamos saber (como o primeiro filme ou Maléfica (2014)). Sobrevive, quase exclusivamente, da qualidade dos actores e do universo mágico que tem a capacidade de envolver o espectador.

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É uma pena que, quatro anos depois, nem Charlize tenha a capacidade de nos fazer acreditar em contos de fadas ou na imensidão de obstáculos de que o imaginário Disney também é feito. Contudo, é sempre bom voltar a vê-la no papel da terrível Ravenna, com uma Emily Blunt competente mas muitos furos abaixo da “irmã”. Destaque ainda para um quarteto de anões improvável que, a momentos, contribui com humor para animar a nossa sessão de cinema. Será que a Universal vai “forçar” o terceiro filme para se redimir?

[Sophie Kowalsky]

“Regression” (2015)

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“Regression” (2015) é uma produção americana e espanhola sob a batuta do realizador Alejandro Amenábar. O filme baseia-se em factos reais e explora, sob a forma de suspense, uma temática complexa ligada à indução, histeria colectiva, manipulação e a terapia de regressão como instrumento científico, daí o título do filme.

Ethan Hawke, Emma Watson e David Thewlis nos principais papéis constituem um elenco de luxo, que é manifestamente um dos pontos fortes do filme.

O argumento começa por mostrar-se interessante. Um homem é acusado pela sua filha, Ângela Gray (Emma Watson), de abusos sexuais, mas este não se consegue recordar de um único pormenor destes abusos, embora assuma a culpa pelos mesmos. Este homem, John Gray (David Dencik), parece bastante perturbado e confuso, deixando o inspector Bruce Kenner (Ethan Hawke) à beira de um ataque de nervos, que acredita que esta suposta amnésia não passe de fraude. É aqui que entra em cena o psicólogo Kenneth Raines (David Thewlis) que submete o acusado a terapia hipnótica por regressão, para que possam chegar aos factos e assim chegam até ao nome de um dos polícias locais, como envolvido nos abusos, numa trama que se revela mais complexa e profunda. Os abusos sexuais são a ponta do iceberg de uma seita que executa rituais satânicos, cometendo várias atrocidades, que envolvem inclusive canibalismo.

A partir daqui o argumento começa a perder-se um pouco numa espiral dicotómica entre o bem e o mal, anjos e demónios e todas as formas nas quais o demónio se pode manifestar. Uma alegoria à fé, enquanto veículo que nos conduz aquilo que queremos ver ou que querem que vejamos… Começa a ser difícil distinguir sonho de realidade e o desfecho embora fundamentado deixa aquela sensação de que falta ali qualquer coisa.

A acção desenrola-se nos anos 90 e em termos cénicos senti algumas incongruências no que toca alguns sets e há alguns efeitos e montagem de cenas um pouco “plásticos”, mas em contrapartida, também, temos alguns ângulos interessantes, privilegiando o trabalho de actor, sendo que os intervenientes se mostraram à altura.

[Amélie Poulain]

“The Dressmaker” (2015)

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Hoje trago-vos um filme australiano de Jocelyn Moorhouse, “The Dressmaker” (2015).

A premissa é simples, Tilly Dunnage (Kate Winslet) uma modista de excelência regressa à sua terra natal, perdida nas profundezas rurais da Austrália, com um objectivo bem definido: vingança de todos aqueles que tornaram a sua infância num inferno e resolver fantasmas passados.

Tilly foi obrigada a abandonar a pequena cidade, ainda criança, acusada de um homicídio violento. Mas como pode uma criança ser violenta a esse ponto? Nem Tilly se recorda do fatídico dia em que foi acusada de homicídio, a sua mente encarregou-se de recalcar as memórias medonhas, mas ela precisa de se lembrar para se libertar, pois esta experiência recalcada e traumática acompanha a sua vida como se de uma maldição se tratasse.

Tilly é agora adulta e sofisticada, uma modista de excelência, avant-garde e com uma apurada sensualidade feminina, que acaba por revolucionar a cidade com os modelos que cria. As mulheres rendem-se às suas roupas, os homens cobiçam-na e ela aproveita para reconquistar um lugar nesta sociedade que há muito se esqueceu do seu rosto, mas não do seu suposto crime.

Na sua busca pela verdade dos factos, que nem ela mesma se recorda, Tilly acaba por encontrar laços há muito perdidos com a sua mãe, Molly (Judy Davis); uma amizade muito peculiar com o polícia local e um dos responsáveis pela sua desgraça passada, Sergeant Farrat (Hugo Weaving); e até encontra o amor verdadeiro no jovem Teddy McSwiney (Liam Hemsworth). Contudo, Tilly sempre se sentiu amaldiçoada e cada vez tem mais a certeza disso, pois estes doces encontros rapidamente se transformam em pesadelo e tragédia. Irá ela conseguir a sua vingança daquela pequena cidade ou irá a cidade acabar por consumi-la?

Recomendo que vejam para descobrir. Este é um filme longe das grandes produções de Hollywood, mas com ingredientes muito interessantes, sendo que a boa premissa apenas se perde um pouco em momentos de excessiva carga dramática, que acabam por arruinar o arco de algumas das personagens. Apesar disso, a película tem, momentos bastante requintados e de uma comicidade maquiavélica que o tornam interessante, agarrando-nos enquanto espectadores.

[Amélie Poulain]

Crítica: “O Livro da Selva” [“The Jungle Book”]

O livro da selva

O poder da técnica, no reino da animação. Passaram-se 49 anos desde a primeira adaptação da Disney ao clássico de  Rudyard Kipling, “O Livro da Selva”, dessa feita em puro desenho animado clássico, ao ritmo do jazz. E, diga-se, mais de 120 anos desde a primeira edição literária dos contos do menino-lobo, Mogli. Mas só com a tecnologia dos dias de hoje foi possível tornar quase real a selva indiana da nossa imaginação, povoada de aliados e inimigos da cria de homem. Esta nova versão do menino criado por animais – que volta ao filão, dos últimos anos, de recriar os clássicos Disney com actores de carne e osso – tem nessa vertente visual o seu maior virtuosismo. Os efeitos visuais do mais recente “O Livro da Selva” são tão desconcertantes que, por vezes, apenas os diálogos em inglês (como língua comum da selva) nos retiram da hipnótica mestria dos cenários e do realismo dos animais.

A reapropriação da história de Mogli – mais fiel ao filme da Disney de 1967 do que propriamente à história original de Kipling – é uma sumptuosa reencarnação deste mundo da selva, em tons mais sombrios do que que a animação dos anos 60 faria antever. É uma maturidade natural ‘empurrada’ pelo realismo da produção. Shere Khan, o tigre, ganha camadas de terror ao passar do desenho para a roupagem do GCI, por exemplo, com o seu olho mutilado, a agressividade do seu porte e, como cereja em cima do bolo, a voz possante de Idris Elba. Como tal, passou directamente para o rol dos melhores vilões Disney-made. Se apenas fizéssemos contas com a versão de 1967, nem chegaria ao top 20, perdido entre as bonomias das canções constantes.

Shere Khan não é caso único de personagens que ganham maior expressividade nesta adaptação. A desconcertante Kaa, a cobra, embriaga-nos na voz de Scarlett Johansson – mais uma vez, tal como em “Her”, a actriz consegue seduzir-nos só com a voz; não é um feito ao alcance de muitos. Já a voz de Ben Kingsley empresta um porte distinto e, ao mesmo tempo, afável a Baguera, a pantera, enquanto Bill Murray encarna o urso menos proactivo de sempre, Balu. A tecnologia é o grande truque de magia de “O Livro da Selva”, mas é o leque de actores (brilhantemente escolhidos) que empresta a humanidade a estes animais, necessária para contrabalançar e suavizar o realismo da selva.

THE JUNGLE BOOK

Na relação, por vezes difícil de gerir, entre efeitos visuais e argumento, o filme apresenta-se de forma equilibrada. A tecnologia serve o argumento, não o encadeia. E se, por vezes, dá mais do que as aventuras do menino-lobo possam pedir à primeira vista, é porque acaba por servir uma das principais verdades da história de Kipling: a selva não é um lugar para crianças. Ao servir este propósito – e ao não ter medo de apresentar a selva indiana numa grandiosidade mágica e, simultaneamente, crua –, esta adaptação chega a um resultado final mais satisfatório do que as tentativas recentes de recriar o universo de Cinderela e Maleficent.

É pena que, perante este potencial, a Disney tenha recuado para terrenos mais seguros. Só assim se explica que, no meio do realismo por onde se move este filme, surjam duas das canções do clássico de 1967, como forma de atenuar o lado dark da produção. Percebe-se a homenagem à óptima banda sonora do filme de animação, mas não deixa de estar desenquadrada no cenário criado quase 40 anos depois. Uma opção mais feliz teria sido, por exemplo, deixar as homenagens musicais apenas para os créditos finais. Mas talvez isso tivesse sido demasiado arriscado para a máquina happy family da Disney.

[Clementine]

“A Assassina” (2015)

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Já lá vai mais de um ano desde que a minha terrinha deixou de ter exibição de cinema comercial, mas felizmente o Cineclube de Tomar continua a brindar-nos todas as semanas com bom cinema de circuitos mais à margem, sempre às terças-feiras e sempre às 19h00. Na passada semana tive a feliz oportunidade proporcionada por um período de férias de ir assistir à sessão dinamizada pelo Cineclube que nos brindou com “A Assassina” do chinês Hou Hsiao-Hsien, filme presente na edição de 2015 do Festival de Cannes, onde o realizador foi premiado como Melhor Realizador.

O filme passa-se na China do séc. IX, onde Nie Yinniang é uma assassina dotada, treinada por uma mestre implacável, uma freira dura, fria e de uma expressão gélida. Yinniang é a melhor das melhores entre a arte dos assassinos, sagaz, veloz como o vento, silenciosa como uma sombra, mas a sua humanidade é o seu ponto fraco e ao falhar uma das suas missões movida pela compaixão é-lhe colocada uma prova maior pela sua mestre. A aprendiz de assassina é enviada à sua terra natal com o propósito de tirar a vida ao seu primo e seu antigo prometido. Assombrada por fantasmas do passado e constantemente traída pelos sentimentos como se sairá Yinniang nesta sua prova de fogo?

Terão de ver para descobrir, emergindo neste mundo peculiar de Hou Hsiao-Hsien. Um filme de artes marciais não convencional, pois embora tenha algumas cenas de acção, este é sobretudo um filme de contemplação dos próprios sentimentos. Um filme com uma técnica, cor e figurinos a roçar a perfeição, mas cujo argumento fica um pouco aquém, com algumas incongruências e pontas soltas.

Contudo, ressalva-se novamente a excelente iniciativa do Cineclube de Tomar, que semanalmente luta por manter a chama da arte cinéfila numa cidade que voltou costas ao cinema.

[Amélie Poulain]

Batman V Super-Homem: O Despertar da Justiça

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As críticas para este filme têm sido, no mínimo, duras. Não que não fosse de esperar, visto que já o subestimado “Homem de Aço” dividiu opiniões. No entanto, neste caso, eu próprio estava céptico, desde o segundo trailer deste filme. E devo, desde já, dizer que esse mesmo trailer é demasiado revelador e isso é o que mais me desaponta.

“Batman V Super-Homem” é tanto uma sequela de “Homem de Aço” como uma prequela de “Liga da Justiça”, o que é uma pena. Ver este filme, lembrou-me de “O Fantástico Homem-Aranha 2”, outro filme que queria tanto estabelecer um universo e todos os filmes que se seguiriam que se esqueceu de ele próprio ser um bom filme.

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O enredo principal gira à volta deste conflito entre Batman e Super-Homem. Durante o confronto com Zod, em “Homem de Aço” muita foi a destruição causada em Metrópolis, destruição essa que afectou directamente Bruce Wayne, o homem que usa o alter-ego do Homem-Morcego. Por outro lado, Super-Homem tem os seus próprios conflitos, não sabendo o que fazer em relação à dúvida que paira sobre o mundo acerca dele e das suas intenções.

As performances são, geralmente, boas. Ben Affleck é o destaque do filme, sendo provavelmente a melhor representação do Batman e de Bruce Wayne até ao momento. Este é um personagem diferente ao Batman a que nos acostumámos. Dá para perceber, em certos momentos, que muito se passou antes dos eventos deste filme e que a personagem tem já um grande bagagem para carregar. Henry Cavill, como Super-Homem, tem menos com que trabalhar, visto que a perspectiva dos acontecimentos deixa, muitas vezes, de ser a dele. Enquanto em “Homem de Aço” ele era representado como o homem com poder de Deus, aqui é representado como o Deus de quem os homens duvidam. É menos Clark Kent e mais Super-Homem, e, dado o conflito, Cavill é muito mais uma presença física do que intelectual (não retirando a carga emocional de certos momentos ligados ao personagem). Amy Adams é demasiadas vezes a dama em apuros da situação, mas executa o seu papel da melhor forma. Diane Lane tem muito pouco tempo de antena, sendo a sua primeira aparição algo vindo de lado nenhum, o que é uma pena, visto ser tão importante para o desenrolar do conflito. Jesse Eisenberg como Lex Luthor é talvez o ponto fraco do elenco. Eisenberg optou por tornar Luthor num maníaco que não engana ninguém com as suas intenções, e isso nem sempre resulta, visto que a personagem vive tanto da manipulação. Algumas cenas chegam a ser ridículas e apenas um momento o revelou realmente ameaçador, tendo esse seu lado desvanecido após isso. Gal Gadot, com o pouco tempo de antena que tem, conquista tudo e todos como Mulher-Maravilha. A cena de ação em que Gadot toma a linha da frente é especialmente fantástica.

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A realização de Zack Snyder está muito dentro daquilo que é o seu costume, dando grande relevo ao visual do filme. Por um lado, em certos momentos, é demasiado e não seria pior ter um pouco mais de realismo. No terceiro acto, no entanto, a escala épica da grande batalha é de deixar o queixo caído.

“Batman V Super-Homem” não escapa a problemas graves de escrita, como as motivações de Luthor serem nulas. O que o leva a fazer o que faz? A dado momento, Luthor inicia a execução de um “plano B” antes de executar o seu “plano A” e mostra ter certezas de que este “plano A” vai resultar. Outros problemas residem em iniciar subplots interessantes, mas que são abandonados no momento, a favor de cenas desnecessárias para aparições de outros super-heróis da DC Comics. Mais uma vez, fica explícito que, sem estas cenas, este filme seria muito melhor.

Um ponto muito favorável é a banda-sonora, de Hans Zimmer e Junkie XL. A banda-sonora de “Homem de Aço” foi fortíssima e alguns dos seus elementos e temas compõem também a banda-sonora de “Batman V Super-Homem”. Destaque para temas como “This is My World” e “Is She With You?”.

Em suma, “Batman V Super-Homem: O Despertar da Justiça” não é um mau filme, como muitos gostam de dizer. É perfeito? Longe disso. Mas é puro entretenimento, feito para os fãs e para quem procura boas cenas de acção no cinema.

NOTA: 7/10

 

◉ HAL 9000 ◉

“Deadpool” (2016)

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Um filme estreia em Portugal a 14 de Fevereiro e um mês depois ainda está em exibição e mesmo numa sala do interior do país esta está “compostinha”. Que fenómeno é este?

Não é complicado, juntam-se super-heróis, amores e desamores e um humor caustico e estão reunidas as condições de sucesso deste “Deadpool” junto do público.

Tim Miller, o realizador, auto intitula-se de “um idiota qualquer” nos créditos iniciais e isso diz muito sobre o espírito do filme.

Deadpool é um anti-herói, um mercenário tagarela que faz pela segunda vez uma aparição no grande ecrã e logo em nome próprio, num filme com muita acção, cenas estonteantes, outras arrepiantes, mas sempre pautadas por um sarcasmo hilariante característico da personagem.

Ryan Reynolds é Wade Wilson, um mercenário, desbocado, cheio dele mesmo que quando menos se espera encontra o amor ao lado da louca e descomplexada Vanessa, mas as histórias com finais felizes pertencem ao mundo dos contos de fadas e não à vida real e a felicidade do casal rapidamente se evapora com o diagnóstico do cancro terminal de Wade. Contudo, para além deste diagnóstico repentino, também surge na vida de Wade um repentino vendedor de sonhos que o promete curar. Primeiro a dúvida, depois o desespero e a cura milagrosa revela-se um presente envenenado. Wade ganha capacidades mutantes de regeneração, ultrapassando assim o cancro, mas também um aspecto asqueroso que o leva a usar um fato com máscara enquanto procura vingança e se rebaptiza de Deadpool. No entanto, os homens de quem procura vingar-se reservam-lhe vários dissabores e é esta a história que acompanhamos num ritmo louco com avanços e recuos na narrativa, sempre pautada pela ironia, pelo sarcasmo e por linguagem para maiores de idade. E aqui residiu o maior desafio da equipa de Miller, pois para criar um filme de Deadpool fiel ao anti-herói da banda-desenhada teria obrigatoriamente de ser um filme para maiores de idade, mas isso significaria menos abrangência de público, pelo que era necessário criar algo electrizante que pudesse mover audiências. Dez anos de muito trabalho passaram e os resultados estão à vista, um filme que tem movido muitos milhões em bilheteira. Não é de todo um filme de culto, mas é um trabalho divertido, que conseguiu de facto dar vida a esta louca personagem que não conhece o significado de “politicamente correcto”.

[Amélie Poulain]

De sério candidato a surpresa da noite: o mito de Spotlight

Não acontecia desde 1953. O vencedor do Óscar de Melhor Filme saiu do palco de todos os sonhos com apenas mais uma estatueta, a de Melhor Argumento Original, repetindo a escassez registada na vitória de “The Greatest Show on Earth” (1952). Numa noite até então dominada por “Mad Max: Fury Road” (2015) e “The Revenant” (2015), e com um favorito improvável a ganhar força nos bastidores – “The Big Short” (2015) -, foi mesmo o cast de “Spotlight” (2015) a fazer a festa.

As reacções de surpresa começaram no Dolby Theatre, mal Morgan Freeman anunciou o vencedor do último Óscar da noite e a câmara pairou sobre a plateia, mas alastraram-se às redes sociais e às conversas de café. No entanto, terá sido esta vitória realmente inesperada?

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Não vamos manter o suspense. A resposta é não. Para começar, Spotlight (2015) estava entre os três principais favoritos ao Óscar de Melhor Filme, que repartiam as atenções e os prémios mais recentes da corrida pré-Óscares. Ora vejamos, o filme realizado por Tom McCarthy tinha vencido o Critics’ Choice e o prémio de elenco nos Screen Actors Guild Awards, à partida mais indicativo para as categorias de interpretação, enquanto “The Big Short” (2015) vencera o Producers Guild of America, apontado como o melhor indicativo para o Melhor Filme nos últimos anos. Já “The Revenant” (2015) parecia um pouco à frente da concorrência: levou a melhor no Globo de Ouro, no BAFTA e no Directors Guild of America.

Uma história de jornalistas para o público em geral, “Spotlight” (2015) desde cedo captou a atenção dos profissionais dos media. Por isso, talvez, muitos desvalorizassem os artigos mais entusiastas a propósito deste filme. Da mesma forma, os prémios conquistados antes da cerimónia dos Óscares pareciam acalentar mais as possibilidades de vencerem outras categorias que não a de Melhor Filme, como a de Melhor Argumento Original. Já as conquistas dos SAG – que, por exemplo, ignoraram “The Revenant” (2015) na premiação de Melhor Elenco, indicando uma eventual desvantagem entre os votos dos actores da Academia -, foram desvalorizadas, em grande parte porque outros prémios, como os PGA, tinham servido como melhores indicadores em anos recentes.

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Em Setembro, a Variey escrevia Why Spotlight is the Best Picture Front-runner?, no rescaldo do Festival de Cinema de Toronto, onde “Spotlight” (2015) se mostrou pela terceira vez. Kyle Buchanan, o autor do artigo, evidenciava que, ao contrário de outros anos, ainda nenhum filme tinha conseguido, à data, centrar todas as atenções ou afirmar-se como um sério candidato à estatueta de Melhor Filme. Entre o silêncio, “Spotlight” (2015) fazia-se ouvir: primeiro em Veneza, depois em Telluride. E Kyle já antevia o que hoje sabemos: Enquanto Spotlight pode ser um modesto favorito em relação ao que estamos habituados, não podemos negar que a corrida começou verdadeiramente. E sabem o que se diz sobre candidatos lentos e estáveis…

Entretanto, à medida que o tempo passava, dois filmes foram ganhando força, a toque de muito hype e algum “barulho”: “The Revenant” (2015) e “The Big Short” (2015), ao mesmo tempo que outros cinéfilos ainda acalentavam a esperança de ver “Mad Max: Fury Road” (2015) contrariar todas as probabilidades. Ainda assim, o The Guardian defendia, no início do ano, que as apostas colocavam Tom McCarthy à frente da concorrência na principal estatueta da noite, com fortes probabilidades de vencer: Bookies expect Spotlight to beat The Revenant to best picture Oscar. O que aconteceu, então, para que este favoritismo fosse aparentemente perdido numa questão de semanas?

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Até Janeiro, “Spotlight” (2015) figurou em diversos artigos como o grande favorito à vitória, mas, numa questão de semanas, a vitória de “The Big Short” (2015) nos PGA parecia colocar uma vitória – até então quase certa – em perigo. É que desde 2007 que o vencedor deste prémio saía dos Óscares com a estatueta de Melhor Filme. Como resultado, publicações mais recentes já apresentavam “Spotlight” (2015) como o segundo favorito, atrás de “The Big Short” (2015) – ver artigo. Mas, por outro lado, será que a suposta vantagem de “The Revenant” (2015) realmente existiu?

The Revenant” (2015) foi sempre um forte candidato, também devido à vitória quase certa nas categorias de Melhor Actor e Melhor Realizador, mas parecia algo condicionado pelo facto de permitir a Alejandro Iñarritu fazer história: nunca nenhum realizador conseguiu o Óscar de Melhor Filme em dois anos consecutivos. E muitos pareciam reticentes perante a possibilidade de ser o realizador mexicano o primeiro a conseguir esse feito. Nada que o impedisse de continuar a ganhar momentum.

Oscar Math: ‘The Revenant’ Should Beat Out ‘Spotlight’ For Best Picture

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Entre artigos e actores, “Spotlight” (2015) parecia bem colocado, mas as análises – e as probabilidades, sempre elas – aos Óscares teimavam em posicioná-lo como um dos e não o derradeiro favorito. Olhando para as estatísticas, que pesam muito na hora de apostar em vencedores, e mais concretamente para os SAG, onde “Spotlight” (2015) se evidenciou, há aspectos que suportam o “pessimismo” de Fevereiro. Até porque os SAG são, provavelmente, os prémios com menos sucesso quando se trata de prever o vencedor de Melhor Filme. Até à cerimónia do último domingo, e atendendo aos últimos 20 anos, o prémio de melhor elenco apenas tinha coincidido com o Óscar de Melhor Filme apenas 10 vezes (50 por cento).

Esteve sempre por baixo do nosso nariz. As intenções de voto não mudaram, fomos levados a crer que isso tinha acontecido por tendências recentes – quer de prémios quer mediáticas -, que esqueciam o poder de uma campanha que já era feita desde Setembro. Sim, a corrida para os Óscares começa bem antes, entre o lançamento de possíveis candidatos e – não se iludam – a criação de possíveis candidatos. Por outro lado, a divisão entre os filmes de Adam McKay e Alejandro Iñarritu fez com que a corrida – que, à partida, se fosse a dois seria difícil de bater por “Spotlight” (2015) – fosse mais repartida e, assim, permitisse ao candidato anunciado bater a concorrência. Será que este fenómeno vai mudar a forma como vamos antecipar os Óscares nos próximos anos?

[Sophie Kowalsky]

Salve, César: o céu caiu-lhes em cima da cabeça

Toquem os sinos, soltem os animais, comecem a festa! Os irmãos Coen estão de volta e vamos ver-nos “romanos” para sair desta. Três anos depois de “A Propósito de Llewyn Davis” (2013), a dupla de irmãos mais popular de Hollywood regressa com uma paródia ao cinema – e aos bastidores – dos grandes estúdios, numa comédia que tem tanto de surreal como de contagiante.

O lado caricatural de Hollywood coabita, mais ou menos pacificamente, com o mundo do glamour. Nem sempre o vemos, é certo, mas ele está lá. Em “Salve, César!” (2016), título original “Hail, Caesar!” (2016), é impossível negar as evidências: muito do universo do cinema de Hollywood é ilusão e o que acontece nos bastidores dava um filme! Os Coen levaram isso à letra e o resultado já pode ser visto em várias salas de cinema nacionais.

 

Mas, afinal, que filme é este? “Salve, César!” (2016) é o nome da mais recente obra dos Coen, mas também do filme que, na narrativa, está em produção num dos maiores estúdios de Hollywood. Da guerra à religião, o filme intra-filme é uma total paródia dos épicos romanos (mas não só), onde uma personagem central percorre a acção rumo à redenção final. Neste caso, o protagonista é o famosíssimo Baird Whitlock (George Clooney) que, embora tenha uma imagem mediática bastante positiva, é bêbedo e adúltero.

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Esta é a quarta colaboração de Clooney com os irmãos Coen, mais uma do que Josh Brolin, que dá vida ao produtor Eddie Mannix, uma personagens baseada em E.J. Mannix, um produtor da MGM com uma vasta carreira. E.J. ficou conhecido como um fixer ou resolve-tudo, pois uma parte importante do seu trabalho era proteger as estrelas de Hollywood, mantendo a sua vida privada em segredo, ao mesmo tempo que a reputação pública era defendida, assim como o sucesso do próximo filme… Por seu lado, a personagem de Channing Tatum, Burt Gurney, é considerada uma homenagem a Gene Kelly.

Com um elenco de luxo e um humor “estupidamente” literal, a história gira em torno de Baird, a maior estrela dos estúdios sob a responsabilidade do omnipresente Eddie Mannix. Quando o actor desaparece misteriosamente, Eddie faz de tudo para que tal não seja descoberto, até porque tem medo que seja mais uma das polémicas de Baird, que têm dado bastante trabalho a esconder. No entanto, há colunistas à espreita de uma oportunidade para denunciar o passado sombrio de Baird, pelo que Eddie não tem mãos a medir!

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Baird foi raptado, mas o quotidiano do estúdio não pára e, um após o outro, Eddie tem vários problemas para resolver. O maior, esse, é sempre a ausência de Baird, uma vez que há um filme para acabar e custos extra a evitar: a maior preocupação é, aliás, garantir que se cumpre a agenda apesar de não haver protagonista… Impossível? Não há escândalo ou problema que Hollywood não resolva, certo?

Não é uma obra de arte, mas todos os filmes dos Coen têm de o ser?

Os irmãos Coen carregam consigo uma filmografia que impõe respeito, tanto a nível de realização como de argumento. Na casa dos 60 anos, a dupla é responsável por mais de 22 filmes desde 1984, entre escrita do argumento, realização ou ambos, pelo que não é de estranhar que consiga reunir frequentemente (e com facilidade) um elenco de luxo. No entanto, este legado construiu, erroneamente, uma falsa “aura” de deveres dos Coen à Sétima Arte. Se não for um filmaço, é lixo.

Com filmes como “Fargo” (1996), “O Grande Lebowski” (1998) e “Este País Não é Para Velhos” (2007) no currículo, as estreias dos irmãos Coen estão sempre a um passo do endeusamento e da tragédia. Como tal, não tardou a ouvir-se um chorrilho de críticas a “Salve, César!” (2016), como se o filme tivesse quebrado uma promessa feita pelos Coen há três anos ou estes tivessem uma obrigação legal de criar sempre obras-primas.

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Se a dupla Coen tem alguma obrigação é para com o seu público que, ao fim de mais de 30 anos, continua a acorrer ao cinema para assistir a mais um filme. Esta comédia vai ao encontro dos comentários subentendidos de filmes anteriores e da própria filmografia dos Coen, retratando um Hollywood mais cru e desumano, ainda que numa procura constante da humanização, embora mantenha a (falsa) aparência de perfeição. Todos são perfeitos… até prova em contrário!

Os Coen não querem espelhar as portas alheias ou parodiar, simplesmente, o legado de Hollywood: querem ir para além disso. Dão forma à caricatura, voz ao absurdo e encaminham o seu filme rumo a uma tragédia anunciada, sempre evitada no último instante. Recuperam os filmes de cowboys, as histórias de princesas e os musicais, despindo-os de seguida perante a sua fragilidade, tão iminente como a dos seus actores intra-filme. Ou a do ser humano em geral.

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[Sophie Kowalsky]