SOFISMAS – Eles, Robots

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A inteligência artificial não é tema novo no cinema, abundam os filmes futuristas com presença de máquinas pensantes. Kubrick retratou-o à sua maneira em “2001 – Odisseia no Espaço” e deu também uma mãozinha a Steven Spielberg em “A.I. – Inteligência Artificial”. Em “Eu, Robot”, cabe a Will Smith deslindar os mistérios que envolvem o pensamento destas máquinas. “Her”, “Transcendence”, a lista é demasiado longa para ser enumerada…

Recentemente vi o filme, “Ex Machina” (2015) que nos traz uma versão não futurista mas mais contemporânea do tema, de forma extremamente plausível, a possibilidade de nos dias de hoje existir já um protótipo capaz de pensar como um humano, não só em termos lógicos como emocionais. Um robot feminino tão parecido com o ser humano que seria capaz de nutrir sentimentos ou fazer-nos nutrir sentimentos por ele. O filme gira então em torno de uma prova final a este protótipo, o teste de Turing, um teste às capacidades deste mesmo robot: “conseguiremos aperceber-nos que é uma máquina?”, “será possuidor de livre-arbítrio?”, “será ele capaz de conquistar a confiança e até o coração de um humano?”.

Deixou-me a pensar (e como é bom quando os filmes têm esse efeito em nós!). Sabendo as infinitas possibilidades de pesquisa e de armazenamento de dados que um computador tem, se lhe juntarmos ainda a percepção da componente emocional, como poderá ele ficar aquém de um humano? Melhor, como poderá ele subjugar-se e ser um subordinado, se terá claramente capacidades supeiores. Podemos então supor que estamos a criar um “ser” que irá sobrepor-se à nossa sociedade…

Asimov ditou as leis que regeriam os robots e que poderiam contornar o problema, as leis da robótica, incorporadas na linha de pensamento dos robots, que os impediriam de causar dano de qualquer forma a um ser humano e lhes davam o dever de obedecer às ordens por eles dadas. Mas, se todos nós contornamos leis, até que ponto os robots, sendo capazes de pensamento social, não terão livre arbítrio suficiente para as contornar também?

Tudo indica que o futuro caminha na direcção de máquinas com capacidades super-humanas desenhadas para nos ajudar, mas o que as impede de tomar as rédeas da sociedade? Serão aliados ou inimigos?

“Irréversible” (2002)

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“Time destroys everything.”

“O tempo tudo destrói.”

Um casal comum apaixonado. Ela descobre que está grávida. Momento de felicidade e paz. Uma saída a dois. Uma festa. Alguns excessos. Ela sai sozinha da festa. A noite violenta esconde muitos perigos. É violada e violentamente espancada. Ele fica destroçado e consumido pela raiva. Sai em busca do agressor. Mata-o violentamente.

Agora imaginem esta história aparentemente banal contada ao contrário, com ângulos de câmara ininterruptos e alucinados, violência física, psicológica e sexual sem qualquer tipo de filtros, tudo em cru, tudo real e palpável e com jogos de luz alucinados, como é alucinada e alienada a nossa sociedade. Aqui temos os ingredientes que fazem de “Irréversible” um dos filmes mais perturbadores e inquietantes que vi até hoje.

Se pesquisarmos na internet por listas de filmes perturbadores vão encontrá-lo recorrentemente e não é de admirar, tudo é tão visual, aliado a contrastes de luz absolutamente agonizantes, um verdadeiro soco no estômago. Há duas cenas fulcrais, a da violação da rapariga e a do espancamento do violador, que nos fazem sentir ódio, raiva e repulsa e chega a ser difícil manter o olhar fixo no ecrã, sendo que a tendência é a não querer ver, como na vida real em que preferimos fechar os olhos às dificuldades e trevas.

“Irréversible” é um filme francês de Gaspar Noé, com Monica Bellucci, Vicent Cassel e Albert Dupontel nos principais papéis.

Tenho frequentemente a tendência para gostar destes filmes estranhos, embora este não seja um filme fácil e não recomendo a quem seja mais sensível, impressionável e muito menos a quem sofra de epilepsia (receio que aquela alucinação luminosa aliada à música possa provocar convulsões nos espectadores com esta alteração neurológica). Tirando isso, se estão preparados para crueza sem filtros este filme é definitivamente para vós e deixa-nos com aquele desenfreamento reflexivo sobre tempo, o tempo que dura uma vida e a alienação da sociedade perante estes dois conceitos: tempo e vida.

[Amélie Poulain]

Coraline

“Tem cuidado com o que desejas”

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Hoje fazemos uma viagem ao mundo do cinema de animação e o filme em destaque será “Coraline” de Henry Selick, baseado no livro homónimo de Neil Gaiman.

Henry Selick é bem conhecido pelas suas animações em stop-motion, em especial pela clássica película idealizada por Tim Burton, “The Nightmare Before Christmas”. Logo aí fica bem patente o lado mais negro de Selick, cujas animações apresentam sempre algo de sinistro e este “Coraline” não é excepção.

Coraline é uma criança enérgica que reclama constantemente a atenção dos seus pais, que passam demasiado tempo a trabalhar. A mudança da família do Michigan para o Oregon deixa Coraline ainda mais sozinha, longe dos seus melhores amigos. A nova casa de Coraline é um palacete da era vitoriana que encerra muitos segredos avidamente explorados por Coraline, que também trava rapidamente conhecimento com os seus excêntricos vizinhos. A jovem menina descobre na sua nova casa uma porta secreta, escondida por detrás do papel de parede da sala e não descansa enquanto não a vê aberta, mas a desilusão é total, pois esta encontra-se bloqueada por tijolos.

Contudo, nessa mesma noite algo de extraordinário acontece. Coraline é atraída à porta por um pequeno ratinho e surpresa das surpresas esta já não está bloqueada, tem uma estranha passagem em forma de túnel, que a criança não hesita em atravessar. O que encontra do outro lado ultrapassa os limites do surreal, há um mundo paralelo, em tudo semelhante ao seu, mas muito mais divertido. Nesse universo paralelo existe uma outra mãe e pai, fisicamente iguaizinhos aos seus pais de verdade. Estes outros pais dão-lhe toda a atenção e tratam-na como se fosse realmente filha deles, só há um pormenor bizarro nestes outros pais: no lugar dos olhos têm botões…

Coraline irá, assim, viver uma emocionante, mas também assustadora aventura do outro lado da porta secreta, tendo de ultrapassar algumas provações até conseguir voltar ao seu mundo que afinal é bem mais agradável do que ela o via até aqui.

Esta animação é visualmente bastante atractiva, algo obscura, de cores berrantes e contrastantes e personagens bizarros e pessoalmente gostei bastante, pois para além de fã confessa de stop-motion, agradam-me estes imaginários negros. No entanto, apesar de ser uma película de animação poderá amedrontar algumas crianças, mais habituadas a uma animação mais ligeira e inocente.

«The Leviathan»: Uma versão sci-fi do Moby Dick com cheirinho a Dune

(O vídeo e as imagens prometem, mas será que o filme verá a luz do dia?)

The Leviathan

O teaser, imbuído de toda a imagética do género de ficção científica, mostra-nos o que parece ser uma magnífica e gigantesca criatura, parecida com uma baleia mas de aspecto hostil, que voa de forma dominadora pelos céus de um planeta desconhecido. No seu encalço, para a caçar, segue um grupo de humanos, em cima das suas naves: o desfecho não lhes será nada favorável. A cena parece retirada, tal e qual, do livro de Herman Melville, «Moby Dick», mas adaptada para um contexto futurístico. Eis «The Leviathan».

Não se trata de uma obra cinematográfica que está quase a chegar às salas de cinema, até porque nem sequer chegou à fase de produção. A ideia, por agora, mais não é do que um projecto em maturação, embora a 20th Century Fox esteja decidida em levá-la ao grande ecrã. Ruairí Robinson, o homem por trás desta nova proposta, será o realizador, cabendo a Jim Uhls – «Fight Club» (1999) – escrever o argumento. Já Simon Kinberg, produtor de filmes como «X-Men: Dia de um Futuro Esquecido» (2014) e da série de animação «Star Wars Rebels», assim como o realizador Neill Blomkamp – «Distrito 9» (2009), «Elysium» (2013) e «Chappie» (2015) – estão na calha para tornar realidade a história, enquanto produtores executivos.

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Do que escapou cá para fora, tudo indica que o filme será profundamente influenciado por duas obras maiores da literatura: «Moby Dick» e «Dune». Embora esta última história tenha chegado ao cinema pelas mãos de David Lynch, em 1984, o facto de ter ficado muito aquém das expectativas sempre deixou, junto dos fãs de ficção científica, um sabor amargo na boca. Todavia, e ao olhar para a prova de conceito que Ruairí fez (para convencer os estúdios de Hollywood), ficamos com a sensação de que se quer recuperar algumas das ideias que o realizador Alejandro Jodorowsky tentou colocar em prática há 40 anos atrás, embora sem sucesso, para a sua versão cinematográfica de «Dune»: há quem considere que, dos filmes que nunca chegaram a ser realizados, é o melhor e mais ambicioso de todos.

O vídeo, que Ruairí deixou escapar para as redes sociais, deixou muitos a salivar. A sinopse (em baixo) tem muito de déjà vu mas é sugestiva. Aguardemos pelo resto.

“No início do século XX, a humanidade colonizou muitos mundos. Viajar além da velocidade da luz tornou possível a recolha de matéria exótica, vinda de ovos das maiores espécies que a humanidade alguma vez viu. Os que participam na sua caça fazem-no, maioritariamente, de forma involuntária.”

{Morpheus}

‘Rodas’ de mudança no Indie Lisboa

(Indie Lisboa 2015 – competição internacional de curtas)

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Quatro gerações que procuram uma individualidade não-conformista, a partir de veículos de escape (partindo das rodas físicas à libertação psicológica) e uma viagem de mota por 10 andares de um prédio romeno. Estes foram o ponto de partida de duas curtas-metragens em competição internacional no IndieLisboa que, apesar de não saírem vencedoras do certame, trouxeram mensagens paralelas: a frustração psicológica ultrapassada (ou exacerbada) por um veículo a motor. Eis o que “Ja vi elsker” (Yes, we love) e “Cai putere” (Horsepower) trouxeram ao festival internacional de cinema independente de Lisboa.

Comecemos pela obra norueguesa de Hallvar Witzø. Em “Ja vi elsker”, quatro pessoas, de diferentes idades, enfrentam crises particulares, dissociadas do espírito nacional norueguês. A acção, em trejeitos trágico-cómicos (com uma dose maior de humor do que de tragédia, admita-se), divide-se em quatro quadros independentes, ligados pela lógica maior do filme. Ao longo do Dia da Constituição Norueguesa, as quatro personagens surgem mergulhadas e situações de ruptura e de necessidade de afirmação. Longe das comemorações colectivas, todas estas pessoas querem ser reconhecidas pelo que são – ou ajudadas na obtenção da tão desejada independência ou salvação.

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No primeiro cenário de “Ja vi elsker”, Birger, de dez anos, recusa-se a marchar com a brigada juvenil. Como resultado do protesto, fica sozinho num carro e é esse mesmo o ‘veículo de fuga’ do seu descontentamento. Já o herói de guerra Konrad (90 anos) usa a sua cadeira de rodas para se afastar de mais um sumptuoso e estéril discurso do Dia da Constituição. Por outro lado, Carina (18) não aceita que Morten não está interessado nela e lança uma mota por uma ribanceira, para demonstrar a sua fúria. Por fim, Ola (46) procura o seu “eu” – quiçá numa crise de meia-idade – numa cabana isolada na neve. Completamente nu, Ola vê-se fechado fora da cabana. Sem nada que o auxilie, não tem outra alternativa que subir a uma moto-ski e rumar pela neve, com apenas uma balaclava azul. Quatro histórias distintas, em que o individual predomina, rompendo com as convenções nacionais colectivas.

Por outro lado, em “Cai putere” a acção centra-se numa travessia pelas escadas de um prédio, na qual um grupo de amigos carrega, em braços, uma mota. Ritual de amizade a cada Inverno, retratado pelo realizador romeno Daniel Sandu, à ascensão da mota corresponde o declínio da amizade, degradada pelo tempo e pelos egos em conflito. O motivo da odisseia é simples: Mihai protege a sua moto, todos os anos, do rigor do Inverno e do perigo de furto. Ao longo de 10 andares, ele e os amigos carregam o veículo – com a ‘obrigatória’ paragem para cerveja em cada andar. Depois disso, a cada Primavera, faz-se o percurso inverso.

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Este ano, no entanto, tudo é diferente. Tal como todas as amizades de juventude, também aqui o peso do tempo faz-se sentir. E, ao fim de 20 anos, já tudo é diferente neste grupo de amigos. As prioridades são agora distintas, os objectivos de vida também. Apenas Mihai parece preso ao passado, relembrando todos dos favores feitos anos antes a bordo da mota (quase como chantagem moral) e pondo o veículo acima dos seus amigos. Degrau a degrau, esforço a esforço, o peso da mota (e de duas décadas) separa mais o grupo do que o une.

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Clementine

“Fin août, début septembre” (1998): do Idealismo ao Realismo

(Indie Lisboa 2015)

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Este ano, devido a razões laborais, a minha presença no Indie, pouco mais se pôde estender do que a esta longa-metragem do realizador e escritor Olivier Assayas.

Fim de agosto, início de setembro é a tradução mais literal. Uma metáfora que nos transporta do final da juventude, para o início da maturidade. O título poderia ainda ser fim do idealismo romântico, início da maturidade responsável, mas esta seria uma tradução irresponsável já que o idealismo romântico acaba sempre, de alguma forma, por manter a sua presença e é essa é a linha que segue este filme.

Este traz-nos as histórias interligadas de vários amigos, centrando-se, no entanto, em dois escritores.
Por um lado temos Adrien (François Cluzet), um homem já de meia idade, com uma escrita enigmática mas promissora, com um raciocínio muito difícil de acompanhar e fechado sobre si mesmo, escondendo daqueles que lhe são mais próximos uma grave doença. Após o término de uma relação conturbada de 10 anos com Lucie (Arsinée Khanjian) acaba por encontrar a compreensão (ou pelo menos paz) numa jovem de 16 anos, Véra (Mia Hansen-Løve), vivendo com ela um romance discreto.
Por outro lado , temos Gabriel, amigo muito admirador de Adrien, também escritor, concentrou a sua carreira no trabalho da edição e tradução. Durante o filme, aparenta estar dividido entre duas mulheres, Jenny (Jeanne Balibar), sua ex-companheira com quem tenta demoradamente vender a casa onde moravam, e Anne (Virginie Ledoyen),uma mulher mais jovem e bonita, por quem tem uma paixão tórrida mas instável, já que ela própria se caracteriza dessa maneira. Adiando constantemente um compromisso com Anne, faz com que a insegurança desta aumente, levando a discussões violentas. Anne é uma personagem mais complexa do que nos parece no início do filme, escondendo fantasias sexuais pouco ortodoxas. Jenny continua abertamente apaixonada por Gabriel, ignorando, do ponto de vista dele, o lado mais tóxico da sua relação e todos os motivos porque haviam acabado.

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Numa conversa entre Adrien e Gabriel, o primeiro revela ao amigo estar cansado da vida de romancista, quer um trabalho estável que lhe dê segurança financeira, esse ideal de “gente crescida”. Já Gabriel defende que ele deve continuar a escrever e a trabalhar naquilo que mais lhe dá prazer, mas é este que acaba por aceitar um chato trabalho de edição que lhe garante uma posição de chefia na empresa, com um ordenado base elevado, e é Adrien que até ao fim prossegue a fazer exclusivamente aquilo que gosta, ainda que nunca conseguindo em vida o mérito merecido. Este filme levanta algumas questões muito comuns no meio artístico: a insatisfação do artista com a própria obra, para ele sempre inacabada; o reconhecimento ingrato pós morte do autor, tantos artistas que em vida passaram fome, e outros fazem agora milhões com as suas obras de arte; e o dilema entre fazer o que se gosta e ter estabilidade financeira, um problema transversal à maioria das pessoas, mas mais comum no meio artístico. O que é preciso para singrar neste meio? Talento ou cativar o público, dar-lhes o que eles buscam? Bons conhecimentos ou boas ideias? Talvez um pouco de tudo isto. Talvez nada disto.

Este filme fala-nos dos tons mais cinzentos das relações, a ambiguidade de cada personalidade, o contraste entre o ideal e realidade.

Não o considerando um filme superficial, “Fin août, début septembre”, não foi para mim um filme marcante. Tem uma narrativa demorada e estática, ainda que organizada por capítulos, como num livro. As personagens revelam possuir os tormentos comuns do dia-a-dia, e criam situações-tipo algo banais, talvez, por isso mesmo e paradoxalmente com o que seria de esperar, não consegui criar uma grande empatia com nenhuma. Acabamos, a meu ver, por procurar nos filmes personagens extraordinárias que procuram e realizam o que mais ansiamos ou tememos. Este filme revela a realidade de adultos a tentar assumir uma vida de adultos, mas acabando por não se conseguir desligar dos “fantasmas” do passado.

Agradeço ao Indie Lisboa ter-nos recebido em suas “casas”, e resta-nos aguardar até 2016 para mais uma grande edição com novos cineastas.

Que Ultimosessoenses assistiram a este filme e seus respectivos pareceres?

[Dora]

«Guy Moquet»: os beijos de Hollywood não têm lugar nos bairros pobres

(Indie Lisboa 2015 – competição internacional de curtas)

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Guy Moquet fez uma promessa a Ticky: assim que o crepúsculo cair sobre o céu da cidade, irá abraçá-la e beijá-la no meio do lago, tal e qual num filme de Hollywood e para que todos os vejam. Parece simples de cumprir, mas, para um jovem negro dos subúrbios franceses, a tarefa é bem mais complicada do que parece. Os arquétipos hollywoodescos, com as suas figuras esguias, esbeltas e brancas, não se encaixam muito bem na realidade dos bairros pobres e suburbanos. Irá Guimo, como também é conhecido, desistir do beijo que tanto quer dar?

Era para ser uma curta-metragem sobre motas, confessa o actor Teddy Lukunku (no papel de Guy Moquet), no Indie Lisboa 2015. Ainda bem que não o foi. Demis Herenger, o realizador, conta-nos uma história de amor, quase impossível, que tem lugar em Villeneuve, um bairro pobre e decadente da cidade francesa de Grenoble. Mas engane-se quem espera uma história pesadona, típica das que retratam os subúrbios. A comédia e o riso, espontâneos e surpreendentes, agarram-nos do princípio ao fim.

Construída na década de 1970, Villeneuve, a “nova cidade”, pretendia ser uma utopia urbana, uma experiência social de grande envergadura saída do Maio de 68. Edifícios de apartamentos, parques, escolas, serviços de saúde, jardins e muito mais, tudo isto cercado por uma paisagem de cortar a respiração, na junção de dois rios e no sopé dos Alpes franceses. Idílico. O bairro era uma mistura de habitação privada e social, com apartamentos subsidiados para as famílias de baixos rendimentos. O objectivo? Promover uma mistura social capaz de promover o desenvolvimento e bem-estar de todos os que aí habitassem. Mas o sonho falhou.

A pobreza e o desemprego tornaram-se, a partir da década de 1990, nas grandes chagas de Villeneuve, com o cenário de deterioração a tomar forma com a chegada dos imigrantes das antigas colónias francesas de África. O equilíbrio social que tanto se buscava acabou por desaparecer, especialmente quando as famílias de classe média fizeram as suas malas e foram-se embora deste subúrbio. De uma população de 16 mil pessoas caiu-se para as 12 mil. A exclusão social e cultural dos habitantes do bairro tornou-se incontornável, com grupos de jovens desempregados, sem rumo, esperança no futuro ou objectivos de vida, a tomar conta dos espaços abertos durante a noite. O consumo de drogas, a violência e os assaltos tornaram-se, entretanto, em assuntos do dia-a-dia.

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É precisamente aqui que o romantismo de Guy Moquet tenta desabrochar. O seu desejo é o de protagonizar um beijo lânguido e intenso com a mulher dos seus sonhos, no local certo e à hora certa, imitando assim o que vê na televisão, por via dos filmes norte-americanos. Todavia, Villeneuve é demasiado real para estes estereótipos românticos, onde os arrojos amorosos podem ser interpretados como um sinal de desrespeito.

A cultura machista, muito arreigada entre os jovens suburbanos, também não abre espaço para as fantasias do coração. O olhar do outro é sempre reprovador. Será possível a Guy Moquet virar as costas a tudo isto e dar asas ao que sente e quer fazer? Conseguirá ele fugir da jaula (o bairro pobre e decadente) que confina e determina os seus sentimentos?

{Morpheus}

«I come Iran», um ‘b-a-ba’ político e social para o Irão dos ayatollahs

(Indie Lisboa 2015 – competição internacional de curtas)

I come Iran

“Não sei escrever na minha língua materna. Não sei ler na minha língua materna. Sou como uma casa sem telhado.” É assim que começa a lição de Sanaz Azari, a jovem cineasta nascida no Irão mas que, ainda muito cedo, acabou por ir viver para Bruxelas. À sua frente, um quadro negro de ardósia e um professor (um exilado político?) que lhe explica, com uma eloquência inabalável, os rudimentos da língua farsi e alguns pedaços da história recente do país persa.

Tudo tem lugar numa pequena sala de aula, ao longo de 50 minutos, mas o “segredo” de Azari, para nos contar a sua história (a sua crítica ao regime dos ayatollahs), reside num manual escolar datado do período da revolução islâmica iraniana, e que ainda hoje é usado. O “truque” está em associar a caligrafia que vai aprendendo, assim como a sonoridade das palavras e o seu significado, ao actual contexto político e social do país. A original colagem de imagens e sons, simples mas quase poética, que Azari usa e abusa, torna-se no ponto forte desta curta-metragem, criando uma forte mensagem de contestação política.

O Irão, ao contrário do que muitos pensam, não é um país árabe onde se fala árabe. É um país persa, maioritariamente xiita, onde a língua materna é o farsi. O desejo da realizadora em conhecer o dialecto do seu país (uma forma de se aproximar de um lugar que geograficamente lhe está tão longe) levam-na a aprender termos tão simples, mas de grande significado, como “liberdade”, “pão”, “esperança” ou “trabalho”. A partir daqui, e recorrendo às imagens do manual escolar e aos ensinamentos e experiências de vida do professor, fragmentos do passado e do presente interligam-se.

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Contudo, reflectir sobre a revolução iraniana de 1979, assim como as suas consequências, depende muito do lado da barricada a que estamos a prestar mais atenção. Os seus detractores vêm neste momento o primeiro passo na criação de um país isolado e fundamentalista, apoiante do terrorismo. Depois, há os que se entusiasmaram com o derrube do Xá Reza Pahlavi – o monarca que governou o Irão durante 38 longos anos – e a promessa de liberdade política que isso traria, mas logo ficaram profundamente desiludidos com o caminho que a revolução islâmica (guiada pelo clérigo xiita) tomou. E, por fim, podemos encontrar os que defendem, com unhas e dentes, o regime que está à frente dos destinos do país nos últimos 36 anos, opondo-se a qualquer submissão aos interesses geoestratégicos do Ocidente. No entanto, mesmo esta visão tripartida peca pelo simplismo, pois coloca tudo em tons de preto e branco: há muitas tonalidades de cinzento nas últimas décadas de história do Irão.

A visão pela qual o filme de Azari toma partido é a dos jovens iranianos que exasperam com a falta de esperança no futuro. É, também, a visão perfilhada por parte de uma outra geração, a do cinquentenário professor, que desiludiu-se com o que trouxe a revolução de 1979.

{Morpheus}

“Shipwreck”, os destroços da imigração ilegal

(Indie Lisboa 2015 – competição internacional de curtas)

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A realidade fere, mesmo no mundo de ‘fingimento’ do cinema. E fere, sobretudo, porque este “Shipwreck” chega ao IndieLisboa escassos dias após mais uma tragédia no Mediterrâneo, esse fosso de esperança e morte para milhares de imigrantes ilegais. Tal como no naufrágio do início de Abril, também nesta curta-metragem documental Lampedusa (na Itália) é palco final de uma história de desespero entre África e Europa. Nestas viagens em direcção à ‘terra prometida’, morreram 700 no último mês, a que se juntam os 360 mortos em um naufrágio de Outubro de 2013, que “Shipwreck” lembra. Somados a tantos outros imigrantes ilegais afogados numa viagem em que se arrisca o tudo (e o nada), em décadas de imigração clandestina para a Europa.

É desta realidade que a curta-metragem de Morgan Knibbe parte, num posicionamento político claro. Nada é indiferente em “Shipwreck”, tal como nada poderia ser indiferente nesta tragédia real, remetida às sombras na Europa e apenas visível quando a dimensão dos mortos exclama por notoriedade.

Nesse sentido, a presença de Abraham no documentário, um dos sobreviventes da tragédia de 2013, traz-nos um espectro fantasmagórico muito próprio. Tanto nas palavras pausadas, que recontam o que se passou no fatídico dia – e nos lembram que, afinal, os imigrantes são mais do que um número, mais do que uma estatística; como na própria t-shirt que veste, enquanto anda por entre um cemitério de carcaças de barcos. Na t-shirt lê-se a inscrição “I’m famous”, numa ironia mordaz e, também, num dedo metido na ferida. Afinal, estes “ninguéns” tão facilmente ignorados por todos, em dois continentes distintos, apenas ganham notoriedade mediática quando vítimas de naufrágios (seja como mortos ou sobreviventes, desprovidos de personalidade para além disso), para depois serem facilmente esquecidos por uma Europa que volta costas ao que está a Sul do Mediterrâneo.

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Depois do relato de Abraham, o documentário de Morgan Knibbe parte para imagens recolhidas no porto, quando centenas de caixões das vítimas do naufrágio são levadas para um barco militar. O caos retratado perturba – há pessoas que choram os mortos, há polícias, há jornalistas que seguem as rotinas da praxe. Rotinas. Há demasiadas tragédias destas a acontecer e os que ali estão – polícias e jornalistas – estão demasiado habituados à dança dos procedimentos. Apenas os gritos dos familiares enlutados e a câmara ao ombro, perturbante e inquisitiva, rompem uma normalidade sinistra.

Entre a calma fantasmagórica de Abraham e o caos do porto, Morgan Knibbe deixa um trabalho político-social acutilante. Em quase 15 minutos de filme, faz mais por uma tomada de consciência global sobre esta tragédia do que muitas manchetes jornalísticas. E é isso que o faz ser uma das melhores curtas-metragens em competição nesta edição do IndieLisboa.

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Knibbe, da Academia de Cinema da Holanda, tem neste “Shipwreck” a sua segunda curta-metragem no circuito de prémios internacionais (arrecadou dois prémios no festival de Locarno, por exemplo). Actualmente, o realizador continua a questionar problemáticas sociais, ao preparar uma longa-metragem sobre as vidas dos refugiados nas fronteiras da Europa. Esperemos vê-lo numa das próximas edições do IndieLisboa.

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Clementine

SOFISMAS – Jared Leto

o-JARED-LETO-OSCARS-facebookJá o vimos de todas as formas e feitios. Perdeu 20 kg para o seu papel em “Requiem for a Dream” e ganhou 30 kg para interpretar o assassino de John Lennon em “Chapter 27″. Para dar vida a Rayon em “Dallas Buyers Club”, personagem que lhe valeu um globo de Ouro e um óscar, voltou a emagrecer drasticamente e rapou também as sobrancelhas. Mais recentemente, após nos ter habituado ao seu cabelo comprido, cortou-o e apareceu com ele pintado de verde, para o seu próximo personagem, o famoso “Joker” que irá surgir no filme “Suicide Squat”. Esta nova imagem do vilão de Batman levantou grandes dúvidas sobre se Jared seria ou não capaz de manter o nível dos seus antecessores.

Um verdadeiro camaleão, vocalista de uma banda com sucesso mundial e ator, parece dar-se bem com o mundo do espetáculo. Nem todos aprovam a sua carreira como ator mas a verdade é que teve já participações numa série de filmes de culto. “Fight Club”, “Panic Room”, “American Psycho”, “Mr Nobody” ou “Girl, Interrupted” são só mais alguns, para além dos já citados.

Pessoalmente, como fã da maioria destes filmes, não vejo como não gostar do seu desempenho, especialmente em “Requiem for a Dream” e em “Mr Nobody”, onde os seus personagens são os de maior visibilidade. Vejo esta nova oportunidade de desempenhar o Joker como uma possível catapulta para filmes mais “mainstream”. Como admiradora também do Jack Nicholson e do Heath Ledger, acredito que vá estar à altura do desafio e manter a excentricidade do personagem, dando-lhe o seu cunho pessoal.

E vocês, são fãs ou nem por isso? O que esperam deste novo Joker? Estará à altura do desafio?