Existe um cinema sem musas cinematográficas, mulheres lindas, fascinantes e misteriosas, umas vezes frágeis mas cativantes, outras poderosas e invencíveis. De mulheres quase sempre tão surreais e inatingíveis, que os homens desejavam e as outras admiravam (e invejavam). Se pareciam matéria de sonhos, muitas vezes não pareciam passar disso. Por muito que procurássemos não as encontrávamos no meio de nós. E o cinema mainstream parece apostar nelas, nas mulheres invulgares que não caminham entre nós e que nos deixam sempre a sentir tão aquém. É exactamente disso que não quero falar hoje.
Sou por um cinema de mulheres naturais, não tão frágeis assim e não tão fortes que mereçam ser glorificadas. Em que a mulher comum não tenha de ser inicialmente ridicularizada ou miserável, para mais tarde poder atingir o que quer, ou que passe por coitadinha, rodeada de mulheres aparentemente superiores. Sempre me deixou desgostosa isso de não me identificar com ninguém, de me sentir uma pessoa banal (sem vergonha nenhuma nisso) e não me identificar nem com heroínas nem com vilãs, com nenhuma personagem que os filmes comerciais me mostravam. Por isso talvez, gostei tanto de ver os filmes do Richard Linklater, há uns anos o “Before Sunrise” e mais recentemente o “Boyhood” (ainda que neste caso focando-se numa personagem masculina). Aquela podia ser eu, num dia qualquer da minha vida, sem precisar de me esforçar muito para o imaginar. Gosto de histórias realistas, cruas até, e por isso da ficção que não se esforça muito para o ser. Às vezes gosto de mulheres reais representadas no cinema, gosto de personagens que não precisam de parecer e dar muito para serem protagonistas e que essa falta de “je ne sais quoi” não seja exagerada (como muitas vezes vemos nas comédias ou filmes de adolescentes).
Assim, rejubilo um pouco quando os filmes vêm propositadamente criar essa desconstrução da ideia de que um filme tem que ir muito para lá das pessoas que vemos no dia-a-dia, de que é apenas feito das pessoas extraordinárias que só chegam até nós pelos media. Sem dramatismos exagerados, mostram-nos que tal como as pessoas à nossa volta às vezes desiludem, também os personagens nos podem desiludir ou que simplesmente não precisam de nos encantar à primeira vista. Sem recurso actrizes absurdamente atraentes os defeitos, onde os problemas banais de qualquer uma de nós estão patentes! Nesse sentido, tenho de falar do “500 Days Of Summer”, em que a Summer ainda que não sendo extraordinária parecia a miúda ideal e aquela a história de amor ideal, mas como o filme anuncia desde o inicio, aquela não é uma história de amor e a Summer nunca quis ser uma musa. Até em filmes não tão sensacionais (mas que não são maus de todo!) como o “Paper Towns” (spoiler a partir daqui) uma Margo inspiradora que nos é prometida pelo protagonista, não passa de uma miúda imatura, egoísta até e não tão extraordinária mas ainda assim sem que isso fosse errado de forma alguma.

Em suma, para mim, as boas histórias não precisam de uma beleza pouco comum ou os feitos sobrenaturais de uma mulher. Apenas gosto, muitas vezes, de me sentar e ver apenas alguém que podia ser eu, do outro lado do ecrã sem com isso ter de assistir a uma comédia cliché (cujo moto não passa de “força, os “normais” também podem triunfar”) e em que a história consegue ter conteúdo e cativar por si.