Festival Olhares do Mediterrâneo – Vencedores e outros olhares

O retrato do lado escondido – e dramático – das travessias de migração ilegal para a Europa patente em “Les Messagers” conquistou o júri do festival Olhares do Mediterrâneo. O documentário francês, da autoria de Hélène Crouzillat e Laetitia Tura, foi o grande vencedor do Prémio Melhor Longa-Metragem desta terceira edição do Olhares, que terminou este domingo. “Les Messagers” segue a rota de migração entre o deserto do Sahara e a espanhola Meliha, num quadro de desespero, travessias e morte.

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Les Messagers, 2014

Perante a sala bem composta do cinema São Jorge, em Lisboa, a atriz Rita Blanco, um dos membros do júri, enfatizou o impacto criado pelo documentário. “É impressionante, fala-nos de aspetos que desconhecíamos”, realçou, explicando que o júri privilegiou a mensagem dos filmes a concurso como critério de avaliação. Além de Rita Blanco, o painel de jurados foi composto pelo programador Adriano Smaldone e pelo editor Tomás Baltazar.

Do lado das curtas, a ficção levou a melhor. A curta-metragem de Alice Vial, “Guele de Loup”, arrebatou o Prémio Melhor Curta-Metragem do Olhares do Mediterrâneo 2016. O filme de 24 minutos sobre Elisa e o seu fantoche-lobo marcou a segunda vitória francófona da noite, já que também “Guele de Loup” é de produção francesa.

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Guele de Loupe, 2014

Numa edição assinalada pelo ciclo especial de programação “Travessias”, houve também lugar a um prémio especial. O Prémio “Travessias”, com apoio da Câmara Municipal de Lisboa, distinguiu “Luoghi Comuni”, de entre os filmes em competição no ciclo especial dedicado aos refugiados e às migrações forçadas. Neste documentário do italiano Angelo Loy foi sobretudo Mona, figura central da película, que conquistou o júri. A egípcia, que mora em Itália e sonha em voltar um dia ao Egipto, é a alma de um filme centrado no conceito de “casa” e nos problemas decorrentes da integração cultural.

Além do Prémio “Travessias”, foi ainda atribuída uma Menção Honrosa a “Les Messagers” no âmbito deste ciclo programático. O Júri do Prémio “Travessias” foi composto pelo vereador da Câmara Municipal de Lisboa João Afonso, pela programadora Margarida Moz, e pela realizadora Raquel Freire.

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Luoghi Comuni, 2015

Já o Prémio do Público ancorou em Marrocos, na cidade de Salé. Isto porque foi o documentário “Pirates of Salé”, de Merième Addou e Rosa Rogers, que arrebatou este Prémio atribuído pela votação dos espetadores ao longo do festival. Outrora bastião de piratas berberes, Salé é hoje cidade da Escola Nacional de Circo, ligada ao circo marroquino Shems’y. A lente de Merième e Rosa segue os jovens aspirantes a acrobatas, desde as audições ao espetáculo, lembrando como o circo pode ser a única alternativa de independência às jovens mulheres pobres de Marrocos.

De 29 de setembro a 2 de outubro, o Olhares do Mediterrâneo trouxe a Lisboa uma mostra de 33 obras de cinema no feminino sobre a bacia mediterrânica. Com autoria de mulheres realizadoras – ou com uma forte presença feminina na equipa criativa – as produções exibidas ao longo destes quatro dias viajaram do Sahara à Turquia, de Marrocos à Croácia, entre tantas outras paragens e ‘olhares’.

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Pirates of Salé, 2014

Da abertura ao encerramento: olhares heterogéneos ao longo da bacia do Mediterrâneo

Europeus, mediterrânicos ou uma mistura dos dois? Estamos mais perto, geográfica e culturalmente, dos dinamarqueses de Copenhaga ou dos marroquinos de Rabat? A programação diversa do Olhares do Mediterrâneo permite atenções redobradas à produção cinematográfica a Sul, procurando novas ideias e temas cruzados sobre culturas e travessias – estas últimas definidas como tema principal do festival.

Na abertura do festival, “Exotica, Erotica, Etc.” foi o filme escolhido como zona de partida. O documentário de Evangelia Kranioti (cuja estreia nacional decorreu o ano passado, no Porto/Post/Doc) é pura poesia visual entre o mar e a terra. Num olhar peculiar sobre a relação entre marinheiros e prostitutas, Evangelia cruza o relato mágico e quase enlouquecido de Sandy, ex-prostituta que vive encerrada num passado de marinheiros e histórias de quase-amor, com pinturas fílmicas a bordo de cargueiros em mar-alto. Entre o passado e o presente, a terra e o mar, Sandy é senhora incontestável do filme que, por isso mesmo, sofre nos momentos em que esta personagem caricata está ausente.

A fechar, “Kusursuzlar”. O filme turco teve honras de sessão de encerramento desta terceira edição do Olhares do Mediterrâneo. Aqui, nesta produção de ficção, as paisagens belíssimas do mar Egeu são cenário da relação de duas irmãs no regresso à casa da sua infância. Entre a cumplicidade e as contantes recriminações, Yasemin e Lale tentam remendar a sua relação familiar cheia de feridas, numa Turquia em que a violência contra as mulheres é uma constante. A longa-metragem de 2013, de Ramin Matin, recebeu o Prémio de Melhor Filme 2014 no International Film Festival da Roménia.

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Kusursuzlar, 2013

No caminho entre a sessão de abertura e de encerramento, o Olhares do Mediterrâneo viajou ao sabor do documentário e da ficção. Na memória de quem passou pelo festival ficam os vários filmes em estreia nacional. Além das produções vencedoras, destaque para a exibição de “Corredors de Fons” e “Most na Kraju Svijeta”. O primeiro é um documentário espanhol realizado por Isabel Fernández sobre o drama dos jovens imigrantes em Barcelona que atingem a maioridade e deixam de poder contar com o apoio do Sistema de Proteção de Menores. Em território de ninguém, Mamadou, Ahmed e Lukman têm pela frente a quase-impossível tarefa de encontrar um contrato de trabalho que lhes permita residir em Espanha, destino final de uma quimera de migração com um desfecho ainda desconhecido.

Já “Most na Kraju Svijeta”, ou, em português, “A Ponte do Fim do Mundo” é um retrato sobre o pós-guerra nos Balcãs, de Branko Ištvančić. Numa diferente perspetiva sobre o tema “Travessias”, o filme de ficção centra-se na noção de (des)pertença que resiste após o conflito, numa dança de etnias em movimento. Após a guerra pela independência da Croácia, os sérvios croatas regressam às casas outrora abandonadas e entretanto reocupadas por croatas chegados da Bósnia. Neste ambiente de tensão, um homem desaparece e Filip, o polícia protagonista do filme, começa uma investigação numa comunidade que não sabe, ao certo, que papel e raízes ainda existem depois da guerra.

Estes são, ao todo, fragmentos cinematográficos de um espaço geográfico partilhado por civilizações milenares. A edição de 2016 do Olhares do Mediterrâneo chega, assim, ao seu fim, já com olhos postos em mais ‘cinema no feminino’ que faça a ponte entre os filmes e a vida.

Clementine

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