Exílio e nostalgia na entrevista à realizadora libanesa Dima Al Juondi

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Falar do conflito na Síria é, também, falar de exílios forçados e de recomeços noutros pontos do globo. E, sobretudo, de uma nostalgia permanente de estar longe. Dima Al Juondi, realizadora libanesa e fundadora da distribuidora e produtora Crystal Films, sabe captar essa nostalgia em doses certas. Afinal, também ela, filha de um escritor sírio, largou raízes, saiu do Líbano e rumou à Europa para estudar cinema. Hoje, pela lente documentalista, capta vidas em mudança nas trajetórias de migração – forçadas ou por opção própria.

A pretexto da estreia nacional do documentário “Echoes of the Shadows” (“Asswat Minazol”), exibido no passado fim-de-semana no festival Olhares do Mediterrâneo, a Última Sessão entrevistou Dima. Do impacto das novelas turcas, ponto de erupção de “Echoes of the Shadows”, à desilusão dos artistas sírios exilados no Líbano, a realizadora aborda a vida cultural e social no país, pela perspetiva de quem chega da Síria.

“Não podemos falar de exílio sem mencionar a nostalgia”, conta-nos, sublinhando como o seu próprio percurso lhe permite uma maior proximidade às vidas de migração que capta nos seus filmes. E, também, como o exílio lhe deixa “um sabor amargo” na boca, no pensamento e, claro está, no coração.

Como surgiu a oportunidade de fazer um documentário sobre estes três artistas sírios que fazem dobragem de novelas turcas no Líbano?
Já conhecia o Orwa antes de ter esta ideia e ele estava sempre a contar-me histórias sobre a dobragem das novelas turcas. Além disso, a minha mãe e as amigas dela costumavam ver essas novelas e ‘obrigaram-me’ a ver também alguns episódios. Portanto, comecei a ouvir a voz do Orwa em caras de atores turcos e gostei da forma como ele fez a dobragem. Estava mesmo a representar  e não apenas a dar a voz. Depois, fui ao estúdio de dobragem, conheci o Khaled e a Raghad e surgiu a ideia deste argumento.

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Orwa, no documentário “Echoes of the Shadows”

O trabalho de dobragem é, portanto, o ponto de início para este foco nas vidas de Orwa, Raghad e Khaled. Mas qual o impacto destas novelas turcas no mundo árabe?
A dobragem é o ponto de início, mas é também, ao mesmo tempo, uma porta de entrada na vida quotidiana deles. Como refiro na introdução do filme, estas novelas turcas têm uma grande audiência no mundo árabe, especialmente desde que são sobradas com sotaque sírio. Contudo, é preciso realçar que os artistas sírios exilados no Líbano estão a sofrer muito no país e fazem dobragens para sobreviver. Alguns deles já tinham começado esta atividade quando viviam em Damasco, onde as dobragens começaram, antes de passar para o Líbano e para os Emirados Árabes Unidos devido à guerra.

Neste retrato do exílio, o passado e a nostalgia são inevitáveis. Como realizadora, quais são os principais desafios em dar visibilidade à nostalgia, dentro do tema mais alargado das migrações forçadas?
Não podemos falar de exílio sem mencionar a nostalgia. São inseparáveis. Estar exilado é estar longe da sua própria cultura e não apenas longe do país e das pessoas de quem se gosta. Qualquer que seja o tipo de exílio (artistas, classe média ou refugiados em campos), estamos sempre perante seres humanos com medos e emoções, como a nostalgia.

O exílio é um tema comum do seu trabalho, já presente em documentários como “The Mother Refugees”. De que forma é que a sua experiência pessoal contribui para estas diferentes representações do exílio?
O exílio está presente em todos os meus filmes, desde a primeira produção que fiz, em 1994, entre a Bélgica e o Líbano (“Between us two… Beirut”). Isto deve-se ao facto de o meu pai ter sido um escritor sírio, exilado político do país, que sofreu toda a vida com a ditadura. Ao ser, também eu, exilada do Líbano, mesmo que por decisão própria, isso deixou um sabor amargo na minha boca, pensamento e coração.

Durante o documentário, pergunta a Orwa, Raghad e Khaled sobre o que os aproxima e temos oportunidade de ouvir as diferentes respostas. Faço-lhe a mesma questão: que aspetos é que os aproximam – aos três artistas e, também, a si?
O que os aproxima é uma velha amizade que tinham já em Damasco, quando estudavam no instituto artístico. O que me aproxima deles é o facto de também eu ser uma artista que sente o seu sofrimento e que não pode cruzar os braços. É o facto de querer entrar na vida quotidiana deles com a minha câmara e dar-lhes um espaço para que se possam expressar sobre o que se passa na sua vida devido à guerra na Síria. Faço parte, também eu, de uma geração criada na guerra, já que a guerra civil no Líbano começou quando tinha 10 anos, portanto passei por experiências semelhantes.

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Khaled, “Echoes of the Shadows”

Os artistas sírios mencionam, no documentário, os baixos salários com que sobrevivem no Líbano. Além deste impacto económico, qual o impacto cultural de quem passa da Síria para o Líbano?
Algumas das ‘estrelas’ sírias vivem nos Emirados ou no Cairo e recebem fortunas por participar em novelas, enquanto os restantes sofrem de uma exploração generalizada – sobretudo os que fazem as dobragens. A chegada dos artistas sírios ao MEA [conjunto de países do Médio Oriente e África] através do Líbano mudou muito o modelo dos programas televisivos. Há, agora, uma grande mistura de nacionalidades e podemos ver uma novela com três sotaques distintos: sírio, egípcio e libanês. Antes as coisas estavam mais separadas. A colaboração é, por isso, um impacto cultural positivo [das migrações de artistas sírios]

O documentário termina com alguém a nadar para o horizonte, para o mundo ocidental, naquela que é uma opção visual que ilustra os últimos comentários de Orwa, Raghad e Khaled sobre os migrantes que tentam chegar à Turquia para alcançar a União Europeia…
Sim, é Orwa que nada para longe, representando a insatisfação dos sírios no Líbano. As autorizações de residência são cada vez mais difíceis de obter. É uma situação difícil de lidar. Portanto, sim, todos eles sonham com ir embora, mesmo que seja em direção ao desconhecido.

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Raghad, “Echoes of the Shadows”

Este é também um sinal de que os seus próximos documentários vão centrar-se na passagem para a Europa? Quais são os seus próximos projetos?
Tenho alguns projetos em mente. Estou a preparar uma longa-metragem sobre um sírio encurralado no Líbano que quer alcançar a sua família, na Alemanha. E outro projeto de documentário sobre a chegada à Europa através de barcos ilegais.

Nasceu no Líbano, mas foi depois para a Bélgica, onde se licenciou na área de Cinema. Como é que esta odisseia pessoal se reflete nos seus filmes?
Reflete-se imenso, já que sou mestiça – pelo menos culturalmente. Consigo entender temas que os libaneses puros não entendem. A minha experiência de vida em todos os sítios onde morei (França, Bélgica, África, Sri Lanka) tornou-me uma defensora dos direitos humanos e, por isso, trabalho e filmo muitos temas sociais, humanitários e ligados ao desenvolvimento.

Qual o impacto da Crystal Films na indústria cinematográfica do Líbano?
Quando começou, em 1998, a Crystal Films teve um impacto enorme na distribuição de filmes, uma vez que criei e estabeleci a primeira sala “Europa Cinema” no MEA, com parceria franco-belga. Nessa altura, fizemos com que a audiência árabe – sobretudo a libanesa – se interessasse por filmes euro-mediterrâneos. Também fizemos as primeiras edições do festival “Cine Caravane”, onde tentámos chegar a áreas remotas e exibir filmes de toda a Europa, que nunca tinham sido vistos no MEA.

E, atualmente, como está a produção cinematográfica no Líbano?
Infelizmente, não temos uma verdadeira indústria cinematográfica, nem um apoio financeiro do nosso governo. Por isso, a maioria dos filmes dependem de apoios europeus e da iniciativa pessoal.

Clementine

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